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Roberto Juarroz. A poesia acrescenta real ao real

Roberto Juarroz. A poesia acrescenta real ao real

Maria da Conceição Caleiro 15/10/2021 10:26

Uma nova antologia do poeta argentino com selo da Sr. Teste Edições, coloca-nos perante uma seleção criteriosa de uma obra que cria uma espécie de re-sacralização laica.

Uma antologia é sempre uma escolha que se aplaude e/ou critica. Esta parece ser talvez demasiado minimalista, mas correta, assim como as traduções e a inclusão dos desenhos de Marta Castelo, que valorizam materialmente a edição. O leitor só pode regozijar-se caso se entregue à trepidação interior a que o autor induz. As duas anteriores edições existentes em Portugal do autor encontravam-se esgotadas: Campo das Letras (1998) e Língua Morta (2018).

Num curto ensaio - “Poesia e realidade” (1992, Roberto Juarroz, poésie et réalité, traduit par Jean-Claude Masson. Coll. Terre de Poésie) -, o poeta argentino, Roberto Juarroz (1925-1995) traça as linhas de força da poesia, da poesia em si mesma, da sua própria poesia, mas não só; atravessa vários outros que em comum pensam e escrevem poesia, engendrando nela uma matriz contra a morte. E isso na dimensão que se desenrola, traçando um contorno plástico, permeável, em aberto e de onde se evola o poema, em vez do nada. pelo menos desde Aristóteles: porque é que há alguma coisa (ser) em vez de nada? A questão prende-se com a relação fulcral entre poesia e realidade (não os automatismos do dia a dia). Trata-se de abrir a escala do real. Roberto Juarroz cita Klee: “o visível não é senão um exemplo do real”. Não se julgue, porém, que a sua poesia é só pensamento sem imaginação ou emoção, inteleção sem símbolo, ela é emoção e ideia num (des)ajuste abrasivo. Importa ‘reaprender/ humildemente/ a erguer juntas as flores e o nada’.” O pensamento sente, o sentimento pensa” poesia visionária sem teologia.

Juarroz usa um conceito que se lê  em em Guimarães Rosa - desnascer. Não é renascer, sabendo já o que entretanto se aprendera, mas despir-se sem redes, estar de novo aberto a nascer. O campo semântico do desfazer, recuar, desviver, desmorrer, “entre pedaços de palavras/ e carícias em ruínas”. E então desnascer, “Começará a grande união./ Até Deus aprenderá a falar/ e o ar e a luz/ entrarão na sua caverna de temerosas/ eternidades.”

Diversos são os nomes aqui reunidos e de que se evidencia o em-comum, nomeadamente todos os que meditam sobre a sua arte, o ofício de escrever poesia (o célebre mestiere de Pavese), os que fazem de facto a materialização do pensamento e da imaginação. E magníficas são as imagens que se evolam da imaginação poética de Juarroz, visões cristalinas, frágeis, fugazes, de passagens inapreensíveis, voláteis como um sopro que se deixa num hiato iluminar iluminando o seu renovo, prometendo retorno do reverso que tornou sensível. Estamos perante uma teoria da visão mais do que o olhar concreto de um fruto, um pássaro, as tuas mãos.

O percurso é longo. Desde a tradição hassídica, do grande rabino Shem-Tov, ao célebre Maguid de Mezeritsch e ainda outros. Francisco de Assis que com a cabeça entre as mãos dirigia-se a Deus: “sou incapaz de acender o fogo, não conheço a prece (...) tudo o que consigo fazer é contar esta história. Isso deveria ser suficiente”. E era. A realidade produziu o homem porque algo nela, escondido, esquivo, clama sub-repticiamente uma narração, uma pausa mínima, com ou sem sentido, e esse clamor inaudível e apagando é a verdadeira história da humanidade.

Mas Roberto Juarroz agrega outros, nomeadamente Wallace Stevens, que cita (“A poesia é o tema do poema”): a realidade produziu o homem porque qualquer coisa nela, bem lá fundo, exige ser contada, aceso “o aroma do ser/ e o perfume do nada”. E outros, muitos outros. Ficamos na posse de uma história pessoalíssima da poesia, e não só.

Alguns ensaios e poemas publicados sempre sob o mesmo nome POESIA VERTICAL. Segundo Juarroz, a expansão do sentido das acções fossilizadas na linguagem estabelece-se na horizontalidade, na vertical vivencia-se a intensidade, o poeta não cessa de perseguir o infinito que continuamente alimentado não deixa, na fissura, de dar o mote. A poesia des-fossiliza a linguagem. Talvez a única via seja a da intensidade sem sentido, puro estar presente, ou o único sentido seja a própria intensidade.

O fazer poético é um caminhar de explosão em explosão, expetante de outra por vir. Numa linha permeável a fissuras, um tremor nas entrelinhas, na imagem do objeto, na visão, que cativa o que se deu a ver (uma árvore, um pássaro, uma rosa, a tua mão). Dá-se a ver se o sujeito se entrega sem poder ao aberto, na asserção de Rilke. Ou, se quiserem: as coisas deslizam do seu de lugar de coisas aproveitando ou abrindo no clarão o seu lugar de fenda, no coração da imanência sem metafísica A árvore é uma lição de presença, bem como a sua ausência tornada sensível. Ela é sempre real, mais real ainda na ausência. A coisa concreta é sempre simultaneamente abstrata. O passo em que a linguagem irrompe nesse entre duas explosões, na passagem ou salto invisível, e cria aquilo que o poeta chama o terceiro mundo. Ou terceira dimensão. Sendo o sujeito presente, qualquer circunstância é permeável à dimensão poética: um saber-ver imediato diria Lacoue-Labarte e Nancy (O Absoluto Literário). Uma transparência absoluta sem obstáculos, essa seria o enigma da voz portadora do terceiro secretamente incluído. 

Um poema  que diz quase tudo, da Décima Segunda Poesia Vertical: “Retirar a palavra do lugar/ da palavra e colocá-la no lugar daquilo que não fala: (...)//deixar que a palavra adopte / o licor  esquecido/ do que não é palavra, / mas expectante mutismo/  à margem do silêncio,/ no contorno da rosa:/ nas costas sem sonho dos pássaros,/ na sombra quase oca do homem. // E somado assim o mundo/ Abrir esse novíssimo espaço/ onde a palavra não seja simplesmente um sinal para falar/ mas também para calar,/ canal puro do ser,/ forma de dizer ou não dizer/  com um sentido às costas/ como um deus sobre a coluna.// Talvez o contrário de  um deus/ talvez o seu negativo. Ou talvez o seu modelo”.

Este poema desvenda as traves mestras do poeta.  O edifício que se pode perfazer no oco do homem.

A reflexão sobre a palavra, teórica, entrelaçada ou posta em poesia é obviamente constante. As palavras são como pulmões, respiram o mundo, que recua, cede ao abismo, e devém pura respiração exterior ao sentido, “canal puro do ser” tornado sensível por quanto as palavras escavam. Heidegger diria que a linguagem é a casa do ser. Hölderlin: “A poesia é a fundação do ser pela palavra”. Mas desde Parménides, passando sobretudo por Aristóteles ,que a questão insiste: porquê a coisa, o ser em  vez do nada.? Muitos outros convocados: Baudelaire, Rimbaud, Octavio Paz...e, se calhar, o mais recorrente e conclusivo, Novalis: "A  poesia é o absoluto real”.

A linguagem falha, limita-se a apontar o impossível, mas é através do seu esforço e antecipado fracasso que o não dizível se diz, que fala aquilo que não fala: o salto do passado para o futuro produz-se pela palavra poética que desenterra o que foi perdido e volta mais real ainda à presença. Isto não deixa de ser uma espécie de transcendência não religiosa, ou perenidade do real transcrito em palavras ou na sua impossibilidade sem teologia. Colocar a palavra no lugar daquilo que não fala, pura visão e não o olhar, chama sem lenha (“o meu olhar espera por mim nas coisas”). O poeta cria uma espécie de re-sacralização laica.

Muitos dizem que em Juarroz não há muitos poemas de amor, tema central dos maiores. Este cita adoravelmente Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres... na condição de não escreveres mal, de não colocares o amor no lugar da poesia”. Ora na matriz da sua arte poética, única, o amor está lá, sobreponível ou subliminar até, se quisermos, a tudo. O sagrado é todo o amor não-dito. Alguns poemas sobre o amor (e não propriamente de amor) são dilacerantes de tão belos: “Tu és o meu mais completo abandono,/ A minha imunidade, a minha zona franca,/ o que me isenta de tomar conta de  mim.// É por isso talvez que em ti se juntam/ a minha lembrança extrema e o meu extremo esquecimento/ e eu não sei se tu és a minha companhia/ ou  se tu já és a minha solidão.”

Só a criação decifra a tristeza, a morte, o sem saída. E aquela, como demoradamente se viu, é o ajustar a visão (mesmo a cegueira, o não-ver absoluto, vê) ao fluxo infinito de coisas finitas na tal terceira dimensão. A criação é a interrupção da morte. Criação que não cessa assim de enlaçar pedaços do mundo e deles produzir sob este impulso a eternidade.

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