29/11/21
 
 
José Cabrita Saraiva 15/10/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Mais 700 milhões e os médicos fazem greve?

Das duas, uma: ou alguma coisa não está bem explicada no documento (e, nesse caso, o Governo do Partido Socialista não tem feito tanto pelo SNS como apregoa) ou, com um aumento tão substancial, os médicos não teriam motivos de queixa.

O SNS foi sempre uma das grandes bandeiras da esquerda e do Partido Socialista, em particular, que nunca se cansa de louvar o papel decisivo de António Arnaut na sua criação. O Orçamento do Estado apresentado na passada terça-feira parece refletir essa dileção: são mais de 11 mil milhões de euros para a Saúde, o que representa um aumento de 700 milhões em relação ao que foi destinado para o setor em 2021 (ano em que, note-se, esse bolo já tinha crescido 500 milhões de euros). Feitas as contas, configura um aumento de mais de 6% em relação ao orçamento anterior. Nada mau!
E, ainda assim, os médicos ficaram genuinamente indignados com a proposta e ameaçam com uma greve. Como compreender isto?

Das duas, uma: ou alguma coisa não está bem explicada no documento (e, nesse caso, o Governo do Partido Socialista não tem feito tanto pelo SNS como apregoa) ou, com um aumento tão substancial, os médicos não teriam motivos de queixa.

O problema é que, falando com os profissionais de saúde, percebemos que estão muitas vezes esgotados, saturados, sobrecarregados. Mas nem seria preciso falar com eles: bastaria olhar para as listas de espera das cirurgias ou ver como as consultas se sucedem umas atrás das outras para o deduzir.

Mas, se mais 700 milhões de euros é pouco, e 11 mil milhões de euros no total não chegam, quanto seria então necessário para satisfazer as condições que os médicos (e os enfermeiros, já agora) exigem? E donde viria esse dinheiro, de um aumento de impostos?

A questão, possivelmente, não é de quanto se gasta, de quantos milhares de milhões se despeja no SNS. É como se gastam esses recursos. A reportagem sobre a cirurgia de ambulatório no Santa Maria que publicamos hoje é um bom exemplo do que poderá ser o caminho a seguir: novas técnicas cirúrgicas permitem que um doente possa ter alta muito mais rapidamente, o que obviamente melhora a “rentabilidade” do serviço. E, ainda por cima, são menos intrusivas. Enquanto há dez anos, para a mesma intervenção, tinha de ser feita uma incisão de dez, doze centímetros, agora basta um buraquinho de um centímetro. No fundo, também era disso que o SNS precisava: que o gigantesco buraco negro onde desaparece o dinheiro dos contribuintes ficasse substancialmente mais pequenino.


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