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Ideias sem Centro: uma rota para a política atual

Ideias sem Centro: uma rota para a política atual

Pedro Pinheiro 14/10/2021 14:20

Ideias sem Centro é um texto polémico para a leitura hodierna. Alexandre Franco de Sá rompe com a compreensão atualmente mais comum daquilo que é a democracia, mas rompe porque procura tratar as coisas como são.

Ao longo do século XX não foram muitos os filósofos que trataram de compreender o totalitarismo sem o demonizar. Hannah Arendt é um dos poucos exemplos daqueles que não demonizam e propõem compreensões efetivas das questões em que nos vemos lançados. A resposta de Arendt aos totalitarismos passava pela defesa da liberdade pública, da esfera pública, do espaço político público sem constrangimentos morais. É neste ponto que reside o seu maior contributo.

Atualmente, passadas décadas sobre a morte dos fenómenos totalitários, as democracias passam por dificuldades que se expressam a partir do policiamento do pensamento, da vigilância centralizada do espaço público, da crise da representatividade democrática, do pensamento iliberal. Estas dificuldades são como o mar que sobe os seus níveis e que apanha muitos de surpresa, incapacitados para saírem sãos deste episódio.

É precisamente no mar da atual crise democrática que as Ideias sem Centro de Alexandre Franco de Sá traçam a sua rota filosófica. Um livro editado pela D. Quixote em que o assunto principal são os populismos emergentes – de direita e de esquerda – na procura por compreender a sua real estrutura e fazer cair aqueles que esteiam as velas de uma linguagem deturpada, generalizadora, preconceituosa, normalizadora.

No atual momento em que os estudos demonstram um crescente desprezo da democracia por parte dos jovens, a pertinência desta obra é indiscutível. Alexandre Franco de Sá interpreta a conjuntura democrática a partir da explicação dos conceitos sobre os quais radica toda a democracia – bem como das relações de significado que têm entre si tais conceitos. Numa primeira fase, o leitor recebe uma noção histórica da relação entre liberalismo e democracia, soberania popular e monarquia, república e constituição, representação política e representação teatral, povo e nação, entre outros termos que compõem a nuvem democrática. E o que em tal conceptualização há de mais valioso é o facto de ser dado ao leitor a oportunidade de compreender a trama dos termos ao longo dos tempos, como quem prepara as malas para uma viagem sem que nada lhe falte.

É a partir daqui, com a bagagem preparada, que Ideias sem Centro começa a concretizar a sua afirmação original no mundo democrático atual, emprestando-nos uma explicação específica e definida do fenómeno populista atual. São traçados contornos que evidenciam um conhecimento profundo do autor relativamente ao debate político atual. Alexandre Franco de Sá indaga sobre a distância que separa o populismo de esquerda do populismo de direita, lançando a sua malha expositiva da crítica da esquerda à direita, da crítica da direita à esquerda, da estranha crítica da esquerda à esquerda, das crises político-económicas das últimas décadas, do fascismo, do estalinismo, do nazismo, do salazarismo, da questão colonial que se estende até aos dias de hoje com ressonâncias várias, das lutas culturais, dos ataques às Universidades. E, por fim, arrasta em tal malha os subtis pormenores que não lhe escapam.
A capacidade de discernir que este texto nos confere – a capacidade de distinguir coisas que em nada parecem diferir – empodera o leitor para dispersar os elementos em exame pelos horizontes populistas e, seguidamente, delimitar os populismos e distanciá-los entre eles.

Com uma exposição preocupada com a lucidez para bem identificar, com a propedêutica para perceber sem atropelamentos nem obstáculos e com a clareza para que não se confunda aquilo que é com o que não é, Ideias sem Centro é um texto que não se deixa levar por snobismos. Os nomes que expressam o seu contributo para a discussão política com uma complexidade que exige uma bagagem filosófica que nem todos têm – Hobbes, Rousseau, Agostinho de Hipona, Bakunine, Arendt, Judith Butler, Álvaro Cunhal, Salazar, Eduardo Lourenço, Chantal Mouffe, Alain de Benoist, Carl Schmitt, Boaventura de Sousa Santos, Heidegger, Foucault – são alguns dos portos que esta rota filosófica visita sem criar dificuldades ao leitor e sem desvirtuar os autores nem descurar na correção científica das teses expostas. Esta rota filosófica não esquece que a herança é digerida, apropriada e reinventada sem nunca deixar de ser herança.

Nada obstante, Ideias sem Centro é um texto polémico para a leitura hodierna. Alexandre Franco de Sá rompe com a compreensão atualmente mais comum daquilo que é a democracia, mas rompe porque procura tratar as coisas como são. De alguma maneira, percebe-se que a discussão política deve sair da esfera privada para a esfera pública e ser vista na relação respeitosa entre os sujeitos. Este movimento exige que não se aborde os assuntos com amadorismo como se de paixões se tratassem. É um movimento de saída do pensamento político pensado no âmbito da proteção dos particularismos. É uma entrada na dinâmica de pensamento em que os particularismos se veem e discutem sem medo de discordarem entre si, mas procurando entendimento. Este intento pressupõe uma dimensão pública que nos dias de hoje é progressivamente atacada. Na realidade, pressupõe não só uma dimensão pública, mas também um tipo de público em que talvez Alexandre Franco de Sá não pensou ao escrever Ideias sem Centro, porque, de alguma forma, anuncia um tempo que ainda não é o tempo de muitos dos maiores progressistas hodiernos: esses que invadem a compreensão política como se política fosse simples luta cultural.

 

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