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Byung Chul-Han. Para uma crítica do nosso tempo

Byung Chul-Han. Para uma crítica do nosso tempo

Pedro Miranda 13/10/2021 10:56

O filósofo e ensaísta sul-coreano deu uma entrevista ao "El País"bastante rica na sua análise sobre a contemporaneidade. Reúnem-se aqui alguns excertos traduzidos e que considerámos especialmente relevantes da entrevista publicada no passado domingo com o título: “Afundamo-nos num ego difuso. A digitalização converte-nos em depressivos”.

"As coisas são os apoios que dão tranquilidade na vida. (…). As informações são o contrário dos apoios que dão tranquilidade à vida. Vivem do estímulo da surpresa. Submergem-nos num torvelinho de actualidade. Também os rituais, como arquitectura temporal, dão estabilidade à vida. (…). Quando o tempo perde a sua estrutura, começa-nos a afectar a depressão. (…)

A digitalização conduzirá a um desemprego massivo. Este desemprego constituirá um problema muito sério no futuro. Consistirá o futuro humano no rendimento básico incondicional e nos jogos de computador? Um panorama desanimador. Com ‘panem et circenses’ (pão e circo), Juvenal refere-se à sociedade romana na qual não é possível a acção política. Mantém-se as pessoas contentes com alimentos gratuitos e jogos espectaculares. A dominação total é aquela em que as pessoas se dedicam a jogar. A recente e hiperbólica série coreana da Netflix, “O jogo do calamar”, em que todo o mundo apenas se dedica ao jogo, aponta nesse sentido. (…) O capitalismo digital explora desapiedadamente a pulsão humana pelo jogo. Pensem nas redes sociais, que incorporam elementos lúdicos para provocar a adição aos usuários. (…)

O smartphone é o artigo de culto da dominação digital. Como aparato de subjugação actua como um rosário e suas contas; é assim que mantemos o telemóvel constantemente nas mãos. O “like” é o “ámen” digital. Continuamos a confessar-nos. (…). Mas não pedimos perdão; antes [solicitamos] que nos prestem atenção. (…)

Só um regime repressivo provoca resistência. Pelo contrário, o regime neoliberal, que não oprime a liberdade, antes a explora, não enfrenta nenhuma resistência. Não é repressor, mas sedutor. A dominação torna-se completa quando se apresenta como a liberdade. (…)

A nossa sociedade parece-se mais com ‘Admirável mundo novo’, de Aldous Huxley [do que com ‘1984’, de Orwell]. Em ‘1984’, as pessoas são controladas pela ameaça de lhes acontecer mal. Em ‘Admirável mundo novo’ são controladas mediante a administração de prazer. O Estado distribui uma droga chamada ‘soma’ para que todo o mundo se sinta feliz. Esse é o nosso futuro. (…)

A existência humana está, hoje, totalmente absorvida pela actividade. Com isso, torna-se completamente explorável (…). Precisamos de uma política da inactividade (…) fazer possível um tempo de ócio verdadeiro [e não vinculado ao trabalho; o ócio, não como o tempo necessário para trabalhar melhor] (…)

Hoje, compreendemos o mundo através das informações. Assim, perde-se a vivência presencial. Desconectamo-nos do mundo de forma crescente. Vamos perdendo o mundo. O mundo é algo mais do que informação. A tela é uma pobre representação do mundo. (…). 

Na depressão, perdemos a relação com o mundo, com o outro. Afundamo-nos num ego difuso. (…). Há histórias de odontólogos que contam que os seus pacientes se aferram ao telemóvel quando o tratamento é doloroso. Por que o fazem? Graças ao telemóvel, sou consciente de mim mesmo. O telemóvel ajuda-me a ter a certeza de que vivo, de que existo. Dessa forma, aferramo-nos ao telemóvel em situações críticas, como o tratamento dentário. Eu recordo que quando era pequeno aferrava-me à mão da minha mãe no dentista. Hoje, a mãe não dará a mão ao menino, mas dar-lhe-á o telemóvel para que se agarre a ele. O sustentáculo não vem dos outros, mas de si próprio. Isso torna-nos doentes. Temos que recuperar o outro. 

O capitalismo corresponde realmente às estruturas instintivas do Homem. Mas o Homem não é só um ser instintivo. Temos que domar, civilizar e humanizar o capitalismo. Isso também é possível. A economia social de mercado é uma demonstração. (…)

Michel Foucault define a filosofia como uma espécie de jornalismo radical e considera-se, a si mesmo, um jornalista. Os filósofos deviam ocupar-se sem rodeios do hoje, da actualidade. Eu tento interpretar o hoje em pensamentos. Estes pensamentos são, precisamente, os que nos fazem livres. 

Byung Chul-Han, “Afundamo-nos num ego difuso. A digitalização converte-nos em depressivos”, entrevistado por Sergio C.Fanjul, para o suplemento IDEAS, ELPAÍS, 10-10-2021, pp.2-3.

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