22/10/21
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 13/10/2021
Eduardo Oliveira e Silva

opiniao@newsplex.pt

Zonas de sombra

Há muitas sombras que sobre nós pairam e, por vezes, é preciso iluminar certas situações obscuras de que não damos conta.

1. Com a autoridade que se lhe reconhece, Cavaco Silva quebrou o silêncio para explicar, em artigo no Expresso, o que cada vez mais portugueses também sentem: estamos a ir por mau caminho. Somos sistematicamente ultrapassados por países que só muito mais tarde aderiram à UE. Segundo Cavaco, o Governo socialista repete os erros de outros executivos da mesma cor. O PRR pode ser uma oportunidade perdida. Ficou escrito um alerta semelhante ao que ele lançou no início deste século. Pouco tempo depois, deu-se o colapso que todos sofremos. Pode-se não apreciar Cavaco Silva, mas não se lhe pode nunca negar a capacidade de antever o futuro, lançando uma sombra sobre o que uns acham ser um sol radioso. Foi ele que mais crescimento proporcionou ao país desde o 25 de Abril. O resto é conversa de quem não quer olhar para factos. O texto do ex-Presidente e ex-primeiro-ministro é elogioso para Passos Coelho. E há de ter sido música celestial para os ouvidos de quem contesta Rui Rio e Rodrigues dos Santos, ao falar de uma oposição débil e sem rumo, desprovida de uma estratégia consistente de denúncia dos erros. Quem se chegar à frente na disputa pela liderança do PSD tem nessa frase um vasto programa de ação. Outro aspeto focado é a ocupação de todos os espaços e lugares pelo atual poder, asfixiando a sociedade. Muitos já disseram tudo isto. Vindo de Cavaco tem outro peso e outras consequências.

2. Está apresentado o Orçamento do Estado. Não vale a pena perder tempo com ele. Porque vai passar, porque vai penalizar as classes médias (a migalha que pode dar no IRS confisca em taxas, taxinhas e impostos indiretos), porque vai favorecer os muito ricos, porque vai manter certas franjas no suplício dos subsídios e, finalmente, porque a execução será muito diferente do que está previsto, ao ponto de não se fazer a respetiva regulamentação, como sucedeu nos últimos dois anos. A questão acaba por ser pouco relevante exatamente porque, na prática, o que está plasmado no OE será executado consoante a oportunidade ou, melhor, da forma mais oportunista que a política permita, e que, como se sabe, é de largo espetro. De registar que se manteve a habilidade manhosa de apresentar o OE em cima da meia-noite para depois fazer uma conferência de imprensa às 9 da manhã, a fim de evitar um escrutínio detalhado pelos jornalistas. Resta saber se Costa vai ou não mexer no Governo, mesmo que ao de leve. Há sinais de que pode acontecer em fins de novembro. Não admirava que fosse dessa vez que Cabrita saísse, tal é a quantidade de elogios que tem vindo a receber, de Marcelo a instâncias europeias. Parece uma encomenda da alma política antes do seu trespasse.

3. Os fluxos de informação fake são múltiplos hoje em dia. Permitem infiltrar as redes sociais e expandir falsidades que passam normalmente para a comunicação social, que hoje tem poucos recursos humanos para verificação. E já se sabe que não há nada como repetir mentiras sucessivamente, até que se tornem uma verdade comummente aceite. Vem isto a propósito da circunstância da Câmara de Oeiras ter contratado uma empresa pertencente a Silva Carvalho e a um sócio, que estava de licença sem vencimento na judiciária, para desmontar uma campanha de falsidades que está em curso contra o município. Essas notícias, baseadas em supostos ratings, prejudicam a capacidade de atrair investimento. Fazem parte de uma estratégia sofisticada e criminosa de difamação, ao jeito das muitas que veiculam teorias da conspiração por extremistas de toda a espécie. A SIC, quiçá tomada pelo ódio que o seu acionista-mor tem por Silva Carvalho (um especialista em matérias de informações envolvido na Ongoing e na tentativa de tomar conta da Impresa), veio a público com um trabalho a denunciar o contrato feito. Há coisas que não se esquecem e levam a ajustes de contas fora de ordem. Sucede, porém, que Silva Carvalho é reconhecidamente competente no mundo da informação e da contra informação e está efetivamente em curso um ataque contra Oeiras, que pretende defender-se, tal como o fazem muitos países e organizações difamadas, recorrendo a especialistas. Oeiras não pode ficar à mercê desses ataques, porque o seu modelo de desenvolvimento está, em grande parte, assente na atração de investimento. Por exemplo, em Carnaxide, está a ser construído um World Trade Center de 120 milhões de euros que vai trazer uma enorme dinâmica, se efetivamente não for boicotado. A Câmara liderada por Isaltino Morais é a que tem em Portugal a maior faturação empresarial, o maior rendimento per capita e a população com maior nível de escolaridade. Campanhas de fake news tiram valor e competitividade. Quanto à escolha da equipa de desminagem e aos seus protagonistas, há que recordar Deng Xiaoping: não interessa a cor do gato é preciso é que cace os ratos.

4. Há muitas sombras sobre inúmeras instituições portuguesas. A ADSE é uma delas. O mandato do Conselho Geral e de Supervisão acabou em outubro de 2020, não havendo nota de novas eleições. O Conselho Diretivo da ADSE anunciou que vai iniciar o processo de elaboração de um novo regulamento eleitoral. É um descanso. Vai dar para prolongar o processo mais uns mesitos. Pudera! A ‘‘geringonça’’ está lá em grande. Quatro dos eleitos pelos beneficiários são sindicalistas, três comunistas e um socialista. Além disso, quem pontifica no Conselho Geral e de Supervisão é Eugénio Rosa, um ancião do PCP que também tem grande influência no Montepio, sendo, aliás, candidato à liderança da respetiva associação mutualista (é, portanto, uma espécie de oligarca de mansinho em que a Rússia de Putin é fértil). Este verdadeiro assalto à ADSE é o resultado direto do que deu a eleição pelos supostos beneficiários, o que permitiu a colocação na estrutura de muito pessoal político, que se junta ao que o governo indica por definição para dois lugares de gestão que lhe compete preencher. Num deles está, pois claro, Eugénio Rosa, que põe e dispõe lá dentro. Também por lá anda João Proença. O ex-patrão da UGT é presidente do Conselho Geral de Supervisão. Ou seja, a ADSE está transformada numa gaiola dourada para sindicalistas em fim de linha. Cada vez mais, os beneficiários são afastados da capacidade de intervenção interna. Sob o manto da democracia, está-se a acentuar um poder corporativo sindical. Como se está a ver em muitos outras organizações (designadamente os partidos), meia dúzia decidem por muitos. Os beneficiários é que pagam nos mais diversos sentidos. Sucedem-se os grupos privados que recusam manter convenções com a ADSE. Limitam-se a fazer descontos. Depois os utentes terão de lutar contra a própria máquina da ADSE para serem comparticipados do diferencial.

5. Sabemos simultaneamente muito e pouco sobre os Estados Unidos e as suas dinâmicas económicas. Não há nota, cá, de comentários sobre a circunstância de existirem nas terras do tio Sam dez milhões de vagas de trabalho por preencher. Consequentemente, há cada vez mais recurso às horas extraordinárias, o que gera esgotamentos nos que aproveitam a oportunidade para amealhar. Esta “preguiça coletiva” resulta parcialmente de dois factos: o medo que ainda há de infeções e a acumulação de dinheiro resultante de subsídios atribuídos durante a paragem. O capitalismo tem muitas facetas. Numa reportagem recente, via-se que a resposta à deserção de trabalhadores está na multiplicação da robotização dos postos de trabalho, designadamente na restauração. Já há robôs que trazem os pratos e ocupam postos de trabalho, amanhã irrecuperáveis.

 

Escreve à quarta-feira

 


Especiais em Destaque

×

Pesquise no i

×