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João van Zeller. "O outro é sempre mais importante do que eu"

João van Zeller. "O outro é sempre mais importante do que eu"

Sara Porto 13/10/2021 15:20

O segundo volume da autobiografia de João van Zeller acaba de chegar às livrarias. Nele, o autor promete nada menos que contar histórias “incontáveis”.

Quase se poderia apostar que João van Zeller foi um dos jovens portugueses mais viajados do seu tempo. Nascido no Porto em 1941, logo muito jovem andou pela Alemanha e deu a volta à Europa à boleia. Esteve em Angola e passou quase três décadas a viver fora do país. Agora, com quase 80 anos (que completa esta sexta-feira, 15 de outubro) e depois da publicação, em 2019, de Johnny Boy, Porto Anos 40 & 50, Van Zeller reaparece para contar o que aconteceu a seguir, num livro em que nos encontramos frente a frente com grandes nomes da época, personalidades tão conhecidas como Juan Carlos de Borbón, Marcello Caetano, André Gonçalves Pereira, o padre António Vaz Pinto, o músico Brian Jones, fundador dos Rolling Stones, Amália Rodrigues, o empresário Manuel Vinhas, os artistas Luís Pinto-Coelho e José de Guimarães, o luso-americano Edmund Dinis, Cecília Supico Pinto, Vinicius de Moraes e Jorge Amado, entre muitas outras figuras nacionais e internacionais.

E, como depois do “boy” vem o “young”, explica o autor, hoje pelas 18 horas, o autor irá partilhar a sua adolescência e juventude com o país, no lançamento de Young Johnny, Lisboa & Luanda Anos 60. O livro contará com a apresentação do embaixador Marcello Mathias, que assina o prefácio, e do antigo ministro da Educação e administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, atual curador da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Eduardo Marçal Grilo, numa sessão moderada pelo jornalista Henrique Monteiro, ex-diretor do Expresso.

Entre inúmeras atividades empresariais e após uma longa carreira internacional no setor financeiro, Van Zeller esteve ligado à fundação da TVI, de que foi administrador até 2005. Desde o seu regresso a Portugal em 1992, e até hoje, tem também estado envolvido em atividades de solidariedade social. No segundo volume da autobiografia, escreve sobre os “vertiginosos anos 60”, vividos entre Angola (num raro testemunho da sociedade civil da época naquele país) e Portugal, com passagens por Londres e pelo Brasil.

Ao longo destas páginas impregnadas com as histórias de uma vida, ficamos a conhecer “o percurso incomum de um português suave e jovem” numa narrativa que vai desde os seus tempos de jovem universitário em Lisboa, onde se licenciou em Direito, a correspondente em Londres do Diário Popular. Um percurso que passou, ainda enquanto estudante, pela Secção de Imprensa Estrangeira no SNI (Secretariado Nacional de Informação) e depois pela chefia dos Serviços de Imprensa, Radiodifusão e Televisão de Angola (CITA).

Sendo um texto memoralista, Young Johnny, Lisboa & Luanda, Anos 60 é também um retrato histórico dos inesquecíveis anos 60, a década que marcou a geração dos chamados “baby boomers” – agitação estudantil em Lisboa, guerra colonial, Beatles, Kennedy, pílula, mini-saia, Maio de 68, ida à Lua, entre muitos outros acontecimentos.

Young Johnny é a continuação do volume de memórias Johnny Boy – Porto Anos 40/50. Qual a diferença entre esses dois ‘Joões’? 

Um está mais crescido, mais amadurecido e mais preparado para a vida. Contudo ainda tem muito que aprender… Ainda é “young” e esta história acompanha esse crescimento. Do “boy” passa a “young”, e do “young” passará a “man”. Nesta altura, estamos a falar sobre o fim da adolescência e o princípio da real experiência de vida. E essa transformação dá-se com a universidade e o trabalho (porque eu tive de trabalhar para ganhar a vida). Foi isso que me transformou de “boy” em “young”.

O que podem os leitores esperar deste livro? 

Penso que há um Portugal que mudou completamente. Portugal hoje não é o mesmo local que existiu nessa década. A década de 60 foi a mais inovadora do século XX e sobretudo durante os tempos de paz na Europa… Foi, de longe, a altura mais revolucionária em termos de costumes, de ideias, de comportamentos, até em termos musicais e literários. Houve a pílula, o Concílio Vaticano II, o Apartheid, John Kennedy, o muro de Berlim, Martin Luther King e Malcolm X, a Guerra no Vietname, Che Guevara, a Guerra dos Seis Dias, Mary Quant [a estilista que criou a mini-saia], Biafra, os Beatles e os Rolling Stones, Woodstock, Bob Dylan, os Hippies, a Primavera de Praga, a Encíclica Humanae Vitae, Mao, o Maio de 1968, a chegada à Lua de Neil Armstrong, etc. Enfim, uma década extremamente rica. 

Tenho esperança que este livro traga isso mesmo. O modelo político e social era completamente diferente. Tínhamos a ditadura, as colónias... Portanto, a abordagem que faço é precisamente a abordagem a esse tempo, com esses olhos. Neste livro, volto a esses lugares, apesar de não ter qualquer saudosismo (vivo os tempos de hoje e os tempos de amanhã). Mas tenho uma grande memória e creio que não será mau deixá-la registada. Sobretudo em relação a Angola.

O livro é um testemunho da sociedade civil em Angola. E eu creio que isto é importante porque o memorialismo em Portugal, infelizmente, não é muito corrente e era bom que pessoas com experiência de vida e com histórias que têm valor histórico as contassem. É quase uma responsabilidade social deixá-las registadas.

No livro, diz-nos que estamos perante o retrato de um Portugal desaparecido. Porquê desaparecido e não apenas mudado? 

Porque desapareceu, mudou radicalmente. Passou de uma ditadura para uma democracia, mudou-se de um país colonial para um país de proteção da União Europeia, alterou-se a moeda, alteraram-se os comportamentos sociais, os modelos de educação já não são os mesmos, até o próprio conceito de família. Eu acho que é um mundo completamente diferente. E quem ler o livro vai sentir essa disparidade colossal, acredito que para as novas gerações até seja difícil de entender. 

Como foi o seu processo criativo? São tudo memórias que vai colecionando no pensamento, ou a sua vida já estava escrita em muitas folhas de papel e limitou-se a reunir o material? 

No século XX, mantinha-se correspondência escrita física. Recebia-se muita correspondência em envelopes e não havia cartas sem resposta. Havia esse costume não só entre família e amigos como pessoas que íamos conhecendo ao longo do tempo (eu conheci políticos, jornalistas, escritores, cineastas, poetas). Essa correspondência foi guardada, mantida e claro que foi uma grande ajuda. Além disso, andava sempre com agendas, tinha nelas muita coisa registada. Tenho uma bela memória, mas tudo isto facilitou a precisão das coisas.

E como se sente ao mergulhar em todas essas memórias? O que é que mais lhe ficou marcado? 

Como lhe disse, não sou nada saudosista. Foram experiências enriquecedoras, anos totalmente gratificantes. A entrada na faculdade de Direito, as lutas académicas… Esse clima todo… Politicamente, sempre fui totalmente cético, a política nunca me interessou. Mesmo nesses anos, onde a agitação estudantil era muito marcante, era amigo tanto dos meus colegas da esquerda como dos da direita. Isso foi muito marcante e crucial. Depois, o meu trabalho no Secretariado Nacional de Informação, também.

Em termos ideológicos a ditadura não me afetou absolutamente nada. Fazia o meu trabalho e achava todos os contactos que tinha muito enriquecedores. Vem-me um à memória: Hugo Loetscher, o escritor mais premiado na Suíça. Eu tinha de acompanhá-lo, era esse o meu trabalho. Contei-lhe coisas incontáveis. A data altura, desconfiou de que eu tivesse procurado “inspecionar” os seus movimentos em Portugal e dedicou-me um livro.

O livro intitula-se Esgotos, e a dedicatória é eloquente. Também escreveu um artigo demolidor sobre Portugal, no Weltwoche. Mas depois, num documentário que passou na TV suíça declarou-se apaixonado pelo Portugal que então conheceu. Tive contacto com pessoas de todos os quadrantes ideológicos. No livro, conto também a história de uma espiã dupla que conheci e que foi condenada à morte depois da guerra. Felizmente safou-se e eu mantive contacto com ela.

Como é que numa época como a que viveu e que retrata no livro, se consegue uma passividade face ao ativismo ideológico? De que maneira é que conseguiu afastar-se das “politiquices”? 

Eu não me afastei… Eu aprendi ciência política, portanto estudei-o e estou muito informado. Aqui na minha biblioteca tenho, provavelmente, mais de 10 mil livros. Mas, por alguma razão que desconheço, o bichinho da política nunca me tocou. Não sei explicar. Talvez por ter vivido muito anos no estrangeiro, quase 30 anos fora de Portugal. A partir do ano de 75 afastei-me completamente do nosso país…

Vivi na América, no Reino Unido, em Espanha, corri o mundo inteiro com o meu trabalho e, por isso, estive em contacto com coisas realmente muito contrastantes. Sociedades, culturas, grandes políticos (estava envolvido em grandes operações internacionais que me faziam ter contacto com ministros sul-americanos, etc). Realmente tive uma vivência muito abrangente, talvez isso tenha influenciado esse facto.

Acredita que a viagem pela Europa, aos 17 anos, foi crucial para a construção da sua personalidade? 

Hoje em dia os jovens fazem o InterRail. Não se fazia na altura, mas eu tive duas experiências parecidas. Estão no meu primeiro livro. A primeira foi na Alemanha: primeiro fui trabalhar como voluntário para o sul, num campo de crianças órfãs refugiadas e, depois, estive dois meses e meio a trabalhar como marçano, como homem de recados numa drogaria. Isso foi determinante, porque como tinha de entregar as encomendas aos clientes, andava o dia inteiro de porta em porta e tive oportunidade de conhecer, logo nessa altura, muita gente.

Estávamos em 1968 e na Alemanha ninguém falava na guerra, ninguém falava no nazismo. Era uma coisa tão dolorosa para eles que não queriam falar. Depois, aos 17 anos, dei a volta pela Europa. Andava à boleia (coisa impensável de se fazer agora) e isso também foi uma fonte de enriquecimento. Mais uma vez, como tinha de parar para trabalhar, ou lavar pratos num restaurante, ou a acarretar sacos, conheci imensas pessoas. 

Pelo que percebi, o livro divide-se em duas partes (a primeira em Portugal e a segunda em Angola). Pode falar-me um pouco sobre cada uma delas? 

Na primeira parte do livro eu foco-me em Portugal e, sobretudo, na minha saída do Porto para Lisboa. Eu sou um tripeiro enraizado, apesar de ter saído aos 18 anos e nunca mais lá ter vivido. O Porto era uma cidade em que as pessoas ficavam mais introspetivas, por causa do tempo, por causa da chuva, o nevoeiro, o granito cinzento. Julgo que isso nos faz entrar mais dentro de nós, termos uma vida interior mais intensa.

Depois cheguei a Lisboa, descobri uma cidade luminosa, o amarelo dos elétricos era muito mais alegre, as pessoas eram muito mais expansivas, a sociedade mais aberta. Conheci um mundo novo, mundo esse que estava mais perto do poder. Não nos podemos esquecer que o Norte, historicamente, não existia. Não era lá que estavam os aristocratas que agora são ministros e políticos. O Porto estava distante do poder.

Por isso, a capital foi uma grande revelação e mudança para mim. Além disso, na primeira parte as pessoas ficarão a saber tudo aquilo que a universidade me trouxe e a minha passagem pelo SNI, onde realizava resumos da imprensa estrangeira para o Presidente do Conselho de Ministros (tinha de resumir e traduzir 30 a 40 notícias estrangeiras que nos chegavam todos os dias, em todas as línguas diferentes). Isso foi fascinante porque eu tinha acesso a informação permanente, mesmo aquela que a censura não deixava passar.

Além desses resumos, tinha visitas, acompanhava pessoas muito ilustres. Na segunda parte do livro, conto a história de como fui a Angola e o que lá vivi. Eu chumbei no último exame da faculdade. O professor perguntou-me: “Quais são os sujeitos processuais em processo penal?” É a mesma coisa que alguém perguntar quanto é dois mais dois. Quem estuda processo penal tem de sabê-lo. Não era nada complexo, portanto, mas eu trabalhava e nunca tinha ido a uma aula, por isso nunca tinha ouvido a palavra “arguido”. Disse: “arguido”.

Quando o professor ouviu, chamou-me ignorante, cretino, disse que eu tinha de ir para a escola primária novamente… Depois, fez-me um exame durante mais uma hora, em que eu não falhei uma. Tinha nota positiva! Sai a pauta: excluído. Claro que fiquei muito abalado.

Mas uns dias depois, o Doutor Moreira Baptista que era praticamente ministro e mandava no Secretariado de Informação naquela altura, fez-me a proposta de ir para Angola. Nem perguntei para o que é que era e aceitei. Fui então nomeado para chefe de Serviços de Imprensa, Radiodifusão e Televisão de Angola, do dia para a noite.

Como é que um jovem português viveu a sociedade civil angolana?

Eu sou “color blind”. Um preto, um branco, um amarelo ou um azul. Para mim sempre fomos todos iguais e eu não tenho qualquer perceção “rácica”. Custa-me a compreender que exista “raça”. Em Angola não vivi racismo de maneira nenhuma. Entrei em fusão com a sociedade angolana, até pelas minhas funções. Havia evidentemente manifestações racistas, como há em toda a parte, mas em geral eu não o senti. O que eu senti, sim, é que os angolanos, naquela altura, tinham poucas qualificações de estudos.

Estávamos perante discriminação social, que é uma coisa diferente. Em função da escolaridade das pessoas, estas escolhiam onde queriam viver, onde querem crescer, etc. Fiquei completamente apaixonado por Angola, fascinado pelas práticas milenárias. Diziam que quem bebesse água do rio Bento, um curso de água de Angola que faz parte da Vertente Atlântica, ficava apaixonado por Angola como se fosse uma mulher. Eu bebi. Depois, vinha à Europa de vez em quando e já a sentia pequena, eu queria os grandes espaços, o empreendedorismo, as relações sociais, a própria cultura. 

Este livro é também uma forma de perceber que não tem de sentir culpa por ter ficado isento do serviço militar? Se o tivesse feito, seria uma pessoa completamente diferente?

É-me impossível responder a isso… Fiquei dececionado de não estar a cumprir o mesmo serviço que todos os meus colegas e amigos. Estavam a dar o litro e eu sentia-me “deitado de barriga para o ar”. O livro aborda muito pouco a questão militar. Obviamente que toca em alguns assuntos de alguma importância, mas não se foca nisso.

Eu recebia briefings todas as semanas das Serviços das Forças Armadas, mas era apenas para ajudar. Aquilo funcionava como uma espécie de agência Lusa. Tinha um departamento de cinema, televisão e rádio. Aliás, nessa altura eu era um pouco desassombrado e dizia, muitas vezes, muita coisa de que o poder não gostava. Estava no ar duas vezes por dia na Emissora Social de Angola e o ministro, às vezes, ligava-me a pedir que eu fosse mais suave, “se não me importasse”. Nunca me repreenderam, mas davam-me uns toques. Eu era tão novo, não tinha medo de nada nem de ninguém.

Quais as personalidades, entre tantas referenciadas no livro, que mais o marcaram?

Vem-me à memória um luso-americano, açoriano, que veio para a América com três anos: Edmund Dinis. Teve uma carreira política brilhante, até chegou a ser senador do estado de Massachusetts. Quando foram as cheias em Lisboa de 1967, onde morreram 700 e tal pessoas (eu descrevo no livro), esse senhor conseguiu reunir fundos e apareceu em Portugal com um cheque de 250 ou 300 mil dólares que tinha recolhido da comunidade portuguesa para entregar à Cruz Vermelha e socorrer as vítimas dessas cheias.

Fui eu que fiquei encarregue de organizar a cerimónia da entrega do cheque na sede da Cruz Vermelha Portuguesa. Ele tinha uma estação de rádio, uma companhia de seguros, mas, além disso, tinha uma carreira política. Só que o Edward Kennedy [irmão do então Presidente dos EUA, J. F. Kennedy], teve umas aventuras com umas meninas e uma delas era uma secretária. Num dos momentos de paixão, o carro caiu num lago e a rapariga morreu afogada. Foi precisamente este senhor de quem lhe estou a falar, que era senador do estado, que acusou Kennedy.

O irmão do Presidente foi chamado à justiça e liquidaram-lhe a carreira política. Portanto veja o “poder” deste senhor. Tão fortemente ligado a Portugal (apesar de falar mal português), que financiou uma série de monumentos, parques, etc. Foi um personagem que me fascinou: um português que venceu na América.

Não lhe era difícil ter contacto com gente de quadrantes tão diferentes? Como se adaptava? Era sempre você próprio?

Eu sou muito aberto. Sempre fui. As minhas prioridades eram o trabalho e o amor ao próximo. O outro sempre foi muito importante, o outro é sempre mais importante do que eu e, para mim, como isso acontece, é muito fácil entrar no seu mundo.

Quem escolheu o embaixador Marcello Mathias e o eng.º Eduardo Marçal Grilo para a apresentação da obra que decorrerá amanhã? Qual a ligação que tem com eles?

Conheço o engenheiro Eduardo Marçal Grilo há muitos anos, é um homem muito inteligente, com uma grande capacidade de análise e de crítica. Foi devido a essas qualidades que o escolhi. O Marcello Mathias é diferente. Fomos colegas de curso e uma das razões por que consolidei a amizade com ele foi que desde que começou a escrever que me inspirou. Quem me dera escrever como ele. Sempre pensei assim, até hoje. Ele é diarista e ensaísta, tem uma qualidade literária extraordinária. Revejo-me muito nele. 

Como encara o futuro? O que mais o preocupa? 

O futuro… O futuro a Deus pertence. Vou fazer esta semana 80 anos. Para mim é difícil de entender, perceber ou procurar estimar o que é que vai ser o futuro. O mundo está a dar passos gigantescos, está a abrir, um admirável mundo novo e eu vivo-o com muita curiosidade e interesse, sempre. 

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