22/10/21
 
 
Pedro Vaz 12/10/2021
Pedro Vaz

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Puxar por todos

Nos dois últimos anos, durante este período de discussão orçamental do país, tive a oportunidade de partilhar alguns pensamentos sobre medidas que por via orçamental, possam contribuir para uma melhor redistribuição da riqueza no nosso país. Como já escrevi, as principais medidas orçamentais da legislatura anterior prenderam-se com a devolução dos direitos dos portugueses, que malogradamente lhes tinham sido retirados durante a governação de Passos Coelho (muitas delas por obstinação ideológica) e nesta legislatura podemos afirmar que houve uma clara prioridade de aumentar os rendimentos dos mais pobres dos pobres da sociedade portuguesa, aumentando os rendimentos daqueles que lutam pela sobrevivência diária e cujas vidas se encontram nas fronteiras do limiar da pobreza.

Ora, esta política, se bem que justa e importante, é manifestamente escassa, pois a realidade tem demonstrado que os mais ricos, enriquecem cada vez mais e, à medida que o rendimento dos mais pobres aumenta, o enorme grupo de cidadãos que se apelida de classe média é cada vez mais reduzido e isso tende a criar sentimentos de frustração, injustiça e impaciência.

Não irei aqui entrar na discussão do que é a classe média, tenho para mim que, no nosso país, mesmo aqueles que se encontram no percentil dos que têm mais rendimentos se consideram classe média nacional. Pelo que, não me oponho que a definição de classe média se enquadre numa dimensão subjetiva emocional, mais até que uma a dimensão factual e objetiva da realidade. O certo é que aqueles que há uns anos consideravam ter uma vida que lhes permitia estabilidade e ambicionar uma certa progressão e melhoria das condições de vida já não veem a realidade dessa mesma forma.

Se falarmos de rendimentos, facilmente constatamos que os tempos não são favoráveis para os jovens, em particular. Cansa já ouvir falar em “geração mais qualificada de sempre” e depois nada se fazer em matéria de rendimentos, para reter talento e quadros técnicos especializados no país. A única forma de reter esta geração em Portugal é pagando melhores ordenados. Em 2005 um estágio profissional para um jovem licenciado era de cerca de 1200 euros, agora vale cerca de 900. Isto sem falar de se ver, um pouco por todo o país, da tentativa de contratar engenheiros, enfermeiros, advogados, economistas, etc. por valores que rondam os 800 a 900 euros. Mesmo na administração pública a posição remuneratória de entrada de um técnico superior é de 998 € (salário base) enquanto a posição de entrada de um assistente operacional, fruto dos aumentos sucessivos do salário mínimo nacional, é hoje de 703 €.  É positivo o aumento dos salários mais baixos, mas os outros também têm de mexer, sob pena de a prazo se acabar com a força motriz das sociedades – a classe média – e acentuar ainda mais o fosso entre o topo da pirâmide e a base. Para que a “geração mais qualificada de sempre” sinta que tem uma oportunidade em Portugal ter-se-á de fazer diferente.

 Talvez seja algo similar a isto a que se refere Cavaco Silva no artigo que tornou público este fim-de-semana, quando fala em empobrecimento do país.

Discordo do antigo Primeiro-Ministro e Presidente da República em praticamente tudo. Aliás, muito do nosso atraso estrutural em relação ao resto da União Europeia tem-no como principal responsável. Neste artigo, em particular, discordo dos seus pressupostos e conclusões, mas consigo concordar na existência de uma perceção generalizada de muitas pessoas que se sentem a empobrecer.

Temos de olhar para o país como uma comunidade em que todos sintam que o seu contributo é importante e que é necessário. Mais que sentir, têm de ver reconhecido esse seu contributo e as remunerações não sendo tudo, são muito desse reconhecimento.

Pedro Vaz

 


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