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Nelson Rodrigues e as escadas de incêndio do céu

Nelson Rodrigues e as escadas de incêndio do céu

Diogo Vaz Pinto 07/10/2021 16:09

Ir às crónicas de Nelson Rodrigues é dar a atenção a um deus desdenhoso, com o seu olhar atalhado, primeiro cínico, com tempo já se percebe como a ternura vem depois de uma compreensão cruel das coisas.

Nunca fomos tão miúdos. Com infância agora quero dizer um modo da atenção, quando as horas são cinema, o corpo um ponto que cintila no escuro, nas poses mais largadas, aquela cara de quem se prepara para comer um comboio, enquanto o mais velho sobe a postura divina para recitar de uma ponta a outra o mundo, naquela elaboração enxuta, bruta, natural e encantadora. Nisto, a atenção tem algo em comum com a fome, o mundo que alguém mais ou melhor vivido nos põe em frente faz sempre grandes entradas, só conhece medidas de grandeza que abatem como fábulas as razões que tínhamos medidas em colheres de café. A boca tem de perder os dentes, crescer novos para começar a mastigá-lo. Torna-se imperativo dali em diante sair desse Ó imenso do espanto e começar nem que se a gaguejá-lo.

Ir às crónicas de Nelson Rodrigues, que com décadas de atraso nos chegam agora e nem por isso hoje estão menos capazes de se adiantar a nós – talvez a pátina, o pó, as dedadas do tempo só sirvam para fazer deste dinossauro um fóssil mais mítico que histórico, de um passado que começa a parecer implausível ao futuro, irrepetível –, ir lá é dar a atenção a um deus desdenhoso, com o seu olhar atalhado, primeiro cínico, com tempo já se percebe como a ternura vem depois de uma compreensão cruel das coisas. Entre as crónicas recolhidas por Pedro Mexia para “O Homem Fatal” há páginas inultrapassáveis, as frases flasham a vida, colhem-na numa intimidade de expressões que farão um condenado rir-se.

O feito maior de Nelson é ter deixado a ingenuidade, os romantismos e o sonho quietos. Ele mexe, preferencialmente, com desgraças. E a escrita, logo a seguir a ouvi-la, voltar e vê-la na papel, quebrando-a frame por frame, dá a sensação de assistir em câmera lenta a chita nas suas mudanças súbitas de velocidade, de direcção ou de humor, capturando a sua extasiada presa. É a inteligência às pintinhas, o felino que há-de mais parecido com uma pistola. Podia ir-me aos exemplos. Não há porventura outro homem cuja prosa se estenda numa cadeia em que cada gene seja tão fácil de isolar e citar em vão. Mas o leitor que não esteja já convertido, lendo este texto como uma beata espiando a vaidade usada da outra a comungar, pare numa livraria e leia “Sem amar, nem odiar”, a quarta crónica deste “O Homem Fatal”, ou escreva no Google – esta vem no cimo do molhe. Pague ou descarregue, mas não deixe outro dia cirandar para longe de si sem passar um bocado na companhia deste anjo iracundo, que descia ao inferno pelas escadas de incêndio do céu.

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