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Apagão. "Não acreditei que as horas se tornassem dias, mas e se acontecesse?"

Apagão. "Não acreditei que as horas se tornassem dias, mas e se acontecesse?"

AFP Maria Moreira Rato 06/10/2021 12:51

O mundo parece ter parado para milhões de pessoas, enquanto, para outras, não utilizar o Facebook, o WhatsApp ou o Instagram constituiu um alívio. O i explorou os diversos pontos de vista.

Numa época em que a palavra burnout é tudo menos desconhecida para os portugueses, em território nacional, segundo o estudo “Saúde mental em tempos de pandemia”, realizado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), desde o surgimento do novo coronavírus, 25,2% da população geral apresenta sintomas desta síndrome caracterizada pelo esgotamento derivado do excesso de trabalho que se manifesta física e psicologicamente.

No entanto, na faixa etária dos 18 aos 29 anos, de acordo com o trabalho publicado em outubro do ano passado, a percentagem sobe para os 31,8%. É precisamente nesta que Clara (nome fictício) está integrada, não desejando revelar a identidade ou sequer a cidade em que reside por temer eventuais represálias.

Não esconde que o apagão ocorrido na passada segunda-feira – que afetou o Facebook, o WhatsApp e o Instagram –, que teve a duração de aproximadamente seis horas, teve consequências positivas na sua vida. “Senti-me bastante aliviada por não receber mensagens de minuto a minuto do meu chefe. E estou a ser muito sincera. É um dos motivos que levaram a que a minha ansiedade crescesse desde que entrei em teletrabalho”, explica a rapariga que é uma das cerca de 12% das pessoas que trabalham na União Europeia e estiveram em teletrabalho, no último ano, de acordo com dados veiculados pelo Eurostat no final de setembro.

“Mais pessoas começaram a trabalhar a partir de casa, na sequência da implementação das medidas de distanciamento social em resposta à pandemia de covid-19. Em 2020, 12% das pessoas com emprego com 20 a 64 anos, na União Europeia, trabalharam normalmente a partir de casa, quando essa fatia tinha estado estável em torno de 5 ou 6%, na década anterior”, sublinhou o gabinete de estatísticas. Porém, para Clara, tal tem vindo a constituir uma dor de cabeça.

“Ele insiste muito. Dizemos-lhe as coisas e, passado um bocado, vem outra vez perguntar pelo mesmo quando já lhe respondemos. Comecei a ignorá-lo muitas das vezes para o meu próprio bem”, avança, em declarações ao i, acrescentando que o fator que a transtorna mais passa pela “pressão desmesurada” que tem vindo a ser exercida sobre si e os colegas.

“Ao início, queremos corresponder às expectativas e vamos aceitando e cumprindo, mas torna-se sufocante. Não temos vida. Ou calamo-nos e vamos ao limite da nossa sanidade mental ou impomos a nossa posição, embora muita gente não o faça por medo”, reconhece, explicando que, quando as redes sociais retomaram o seu funcionamento habitual, verificou que tinha recebido muitas mensagens do chefe. “Não lhe respondi sequer”.

Através da análise dos dados do Eurostat, é possível concluir que, entre as diversas regiões dos países da União Europeia, o aumento mais significativo de população empregada em teletrabalho deu-se em Bruxelas e Brabante Valão – ambas na Bélgica – e Helsínquia, na Finlândia, todas com subidas que rondam os 19 pontos percentuais face a 2019. “A estas regiões seguem-se as capitais da Dinamarca, Alemanha, Espanha, França, Itália, Áustria e Portugal“, foi realçado, sendo que na Área Metropolitana de Lisboa, 23% da população esteve em teletrabalho, isto é, quase uma em cada quatro pessoas que trabalha na capital ou na periferia da mesma experienciou a modalidade remota, num ano em que, durante longos meses, a adoção do teletrabalho foi obrigatória encarada como uma das medidas essenciais para travar a propagação do coronavírus.

“Já não me deixo ficar calada tanto como no início. A minha maneira de me ‘salvar’ é também respondendo-lhe. Só custou a primeira vez”, admite, adicionando que a comunicação entre ela, o chefe e os colegas acontece “90% por Messenger ou e-mail”, mas nota-se nas respostas do primeiro “a arrogância e falta de humildade” quando é confrontado com algo que não é do seu agrado.

“É um sentimento diário de não sermos reconhecidos pelo nosso trabalho. Matamo-nos todos os dias com horas extra e ninguém se importa”, lamenta a jovem que ingressou no mercado de trabalho assim que terminou a licenciatura. “Tenho uma casa para limpar, comida para fazer, não posso e nem é a minha obrigação estar disponível 24 horas”, justifica, explicando que, sempre que pede para gozar essas mesmas horas, é questionada acerca de quais são. “O que a mim me revolta muito. A minha técnica é ter tudo escrito”, adianta Clara que, no ano passado, sentiu que chegou ao seu limite e procurou ajuda médica, tendo tomado calmantes “durante um ou dois dias”.

“Todas as gerações sentiram que algo estava diferente naquelas horas” Ana Luísa Raposo é docente da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS) do Instituto Politécnico de Lisboa, na secção de Relações Públicas e Comunicação Organizacional, e pró-presidente para a Comunicação Estratégica do mesmo.

Falando ao i, a professora que se doutorou em Ciências da Comunicação, no ISCTE-IUL, com a tese intitulada de “Estratégia de comunicação como um processo de tomada de decisão. Uma nova abordagem na compreensão da formulação estratégia em Relações Públicas”, recorda que já existiram outros apagões semelhantes, como o de 19 de março de 2021, em que também estas aplicações estiveram em baixo durante quase uma hora.

Mas, questionada acerca do impacto daquele que aconteceu anteontem, constata que foi muito mais forte. “A duração foi susbtancialmente inferior e, talvez por isso mesmo, o impacto não tenha sido tão evidente como o deste. Ao fim de 4 ou 5 horas os comentários já eram ‘Que estranho, isto deve ter sido mesmo grave’ e seguiram-se outros de profissionais da área que diziam ‘Isto vai sair caro ao Zuckerberg’. E de facto saiu”.

Ana Luísa Raposo refere-se à queda de 5,83% das ações da empresa registada pelas 15h03 de segunda. O Nasdaq, índice da bolsa norte-americana composto por companhias da área tecnológica, recuava 2,38%. Já nesta terça-feira, foi revelado que Zuckerberg perdera mais de seis mil milhões em apenas 24 horas. “O poder dos designados GAFA - Google, Amazon, Facebook e Apple, não só nas nossas rotinas, mas na economia mundial, é impossível de negar e tornou-se bem evidente”.

Apesar disto, a também coordenadora da licenciatura em Relações Públicas e Comunicação Empresarial, da ESCS, confessa que sentiu que esta representou “uma boa oportunidade para pensar como era a rotina antes das redes”. “Não foi difícil encontrar alternativas para comunicar com quem se queria, o Whatsapp foi pacífico de substituir. Quanto ao Instagram e ao Facebook, talvez uma pergunta que me surgiu foi: se estamos sem redes e isto é o fim do mundo, onde é que eu publico esta dúvida, este sentimento? Talvez tenha de escrever umas cartas para partilhar isso, uma vez que não posso postar em lado nenhum!”.

Exemplifica também que, ainda que não publique conteúdos com muita frequência, duas horas antes do início do apagão, publicara uma story, no Instagram, “celebrando a alegria de ver os alunos novamente a entrar e sair da ESCS com a música Freedoom, de George Michael, a acompanhar”, tendo em conta que a obrigatoridade da exclusividade do ensino à distância terminou, “e foi engraçado depois acontecer o apagão e perceber que se foi outra vez algo com que estamos habituados e viver como rotina. Uma temática que tantas dores de cabeça nos deu nos últimos meses: lidar com o o normal, o antes e o depois da rotina por causa da pandemia”.

“Foi curioso ter alunos que, habitualmente, enviam uma mensagem no Whatsapp a telefonar! Afinal sabem falar ao telefone”, declara em tom jocoso. “Uma vez que o apagão aconteceu ao final do dia e, no caso de Portugal, na véspera de um feriado, o impacto foi reduzido. Curioso foi uma equipa da qual faço parte e que gere uma conta de Instagram. @prclub.escs, que rapidamente começou a pensar como, uma vez que não se podia fazer a publicação prevista nesse dia, seria possível comunicar imediatamente depois do apagão procurando tirar partido desta crise”. E foi aquilo que fizeram.

Entretanto, a especulação cresceu e há quem tenha associado este episódio ao trabalho Pandora Papers do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação. Já os media norte-americanos revelaram a teoria de que os dados pessoais de cerca de 1,5 mil milhões de utilizadores do Facebook, em todo o mundo, teriam sido supostamente colocados à venda em setembro por milhões de dólares. Um membro de um conhecido fórum de hackers alegou estar na posse das informações e ofereceu-se para vendê-las a outras pessoas, segundo o Privacy Affairs, um site cujo objetivo é proporcionar aos internautas ferramentas para preservarem a sua identidade online.

Ainda que o Facebook, à hora de fecho desta edição, não tivesse confirmado a veracidade desta alegação, foi veiculado que um utilizador terá informações como o nome, endereço de e-mail, localização, sexo, número de telefone e ID de utilizador de quem tem um perfil no Facebook.

“Não tenho receio, mas estou consciente que, para o bem e para o mal, a nossa presença nas redes sociais e a utilização destas poderá apresentar alguns desafios em termos de privacidade ou de proteção de dados. Contudo, acredito que aquilo que tem sido feito em termos de legislação e a responsabilidade de cada um será o caminho a seguir. Sabemos quais são as regras do jogo, por isso, ao jogá-lo temos de aceitar as suas consequências sejam elas mais ou menos positivas” e, por isso, defende que “todas as gerações sentiram que algo estava diferente naquelas horas”, mas não diria “que terá existido desespero”, até porque “existiu uma oportunidade para outras plataformas como o Twitter, o Tik Tok, o Linkedin ou até outras de chat como o Signal, e seria interessante verificar o que aconteceu aos downloads nesse período”.

“Ontem, no Twitter, aprendi que há vida para além das redes sociais” Aos 24 anos e formado em Comunicação e Media pelo Instituto Politécnico de Leiria, Rafael de Sousa Vicente começa por lembrar que “familiares e pessoas próximas contam mesmo histórias de quando era ‘bebé’, ainda sem conseguir escrever, pegar numa caneta e num caderno e riscá-lo como se estivesse a escrever um texto”.

Por isso, tem agarrado todas as oportunidades no mundo da comunicação. Além de, há cerca de um ano, ter fundado o Nossa Moda, o primeiro podcast de moda nacional, é consultor em Comunicação, Relações Públicas, Assessoria de Imprensa e Media Relations, escrevendo também para diferentes publicações. A título de exemplo, atualmente, é colaborador da PARQ Magazine e está a criar um novo programa que anunciará “muito em breve”, pretendendo avançar para a sua primeira conferência e talks presenciais no próximo ano.

Portanto, seria de esperar que o rapaz tivesse sofrido na segunda-feira, mas tal não é assim tão linear. “Não me senti mais ou menos aliviado e explico porquê. Há bastante tempo que tenho tentado implementar uma relação mais saudável com as redes sociais. A realidade é que eu já não recebo tantas notificações como recebia, por escolha própria”, indica, esclarecendo que decidiu “avaliar as diferentes redes e aplicações pelo seu grau de importância e necessidade” para a sua vida. “E, de acordo com o nível aplicado, faço a gestão das notificações. Seja desativando, silenciando, tendo no ecrã principal ou não, por exemplo”.

De qualquer forma, “o apagão durou mais do que esperava”, o que conduziu a que estivesse “mais atento ao telemóvel, para avaliar a situação”. “Não acreditei que as horas se tornassem dias, mas e se acontecesse?”, questiona, explicitando que uma frase que surgiu na sua mente, e publicou nas redes mais tarde foi “Ontem, no Twitter, aprendi que há vida para além das redes sociais”, pois o mesmo foi uma das poucas plataformas com milhões de utilizadores que serviu de refúgio para os mesmos numa altura em que os “gigantes” foram abaixo.

“Quando me apercebi daquilo que estava a acontecer, comecei por adaptar de imediato as comunicações que eram necessárias acompanhar, a nível pessoal e profissional”, diz, sendo que recorreu a alternativas como o iMessage e FaceTime, ou até mesmo ao Telegram. “Depois, iniciei um breve momento de estudo e pesquisa. Foi aí que migrei para as redes que se encontravam ativas e verifiquei como as pessoas se estavam a adaptar. Que redes escolheram e o que estavam a publicar, e como. Não só as pessoas, mas as marcas. São sempre momentos para real-time marketing”.

Naquilo que diz respeito aos possíveis leaks, é claro e vai ao encontro da perspetiva partilhada por Ana Luísa Raposo, afirmando com segurança de que “é necessário ter consciência que, independentemente das normas de privacidade e proteção de dados, quando ‘existimos’ no espaço digital, a nossa privacidade e dados já estão de certa forma em causa”.

“Cheguei a dar por mim a desejar que o apagão se prolongasse por mais horas” Maria Inês Filipe tem 38 anos e dedica-se a variadas áreas do Marketing e Tecnologia há mais de 15 anos. Já trabalhou com a CIONET International (comunidade global de líderes digitais) e, hoje em dia, é consultora independente e contacta constantemente com clientes na Europa (NGI – Next Generation Internet através da agência Belga Octavius) e no Canadá (Leadership Contract Inc.).

Formada em Publicidade e Marketing, pela ESCS, desde 2004, revela que “este apagão foi claramente mais grave pela duração, mas não só”, evidenciando “a falta de informação sobre as razões da falha, o que estaria a ser feito para resolvê-la e o tempo estimado para reposição do serviço, que agravaram a situação”. Por outro lado, “o surgimento de notícias sobre a abrangência da falha – ferramentas de comunicação interna em baixo, acessos físicos bloqueados – sem confirmações ou explicações oficiais tornaram este apagão ainda mais preocupante durante e após”.

Não ocultando que a primeira reação que teve “foi de ténue preocupação”, na medida em que trabalha a partir de casa, e, como a rede Wi-Fi já tinha tido alguns problemas ao início do dia, receou estar sem Internet, o que seria problemático para o seu trabalho, depressa entendeu que o problema não estava do seu lado e depressa virou-se para as tarefas que não dependiam destas redes sociais.

Todavia, “a Maria Inês que gere as redes sociais de alguns clientes teve uns breves momentos de pânico, mas felizmente não havia nada de crítico que obrigasse a qualquer contingência”, tendo sido relativamente fácil ajustar o calendário de publicações. Depois, observou atentamente as publicações, “algumas bem conseguidas – como a da Super Bock e da Control – e outras nem tanto” como a de uma seguradora que promove um seguro fictício contra falha nas redes sociais.

“Alívio é definitivamente a palavra certa e cheguei a dar por mim a desejar que o apagão se prolongasse por mais horas. Apesar de ser uma techie pré-redes sociais sempre fascinada com as novidades e evolução, reconheço os benefícios e malefícios” e, assim, tem consciência de que aproveita o lado positivo das mesmas, sofre ligeiramente com o mais negativo, mas, acima de tudo, prefere “assumir um papel menos proativo do que o da maioria e simplesmente observar as dinâmicas”.

Mas a realidade pode ter sido mais dura para alguns, pois a profissional da comunicação soube de casos de “adolescentes a gritar, chorar e sem saber o que fazer”, concluindo que teve tempo para pensar sobre “a incapacidade de muitas pessoas viverem sem estas plataformas - não só pela dependência dos likes e voyeurismo , mas também por ficarem perdidas e não conseguirem encontrar alternativas para comunicar”.

Quantas pessoas sofreram este impacto?

Segundo dados apurados pelo Global Social Media Stats, no passado mês de julho, quase 57% da população mundial usava as redes sociais. Isto é, podemos considerar que mais do que 9 em cada 10 internautas usam estas plataformas todos os meses. Sabe-se que o Facebook tem 2 mil milhões e 853 mil utilizadores ativos todos os meses, enquanto o WhatsApp regista, pelo menos, 2 mil milhões e o Instagram 1 milhar de milhão e 386 mil. Este último capta a atenção de aproximadamente 22.6% de todas as pessoas com idade igual ou superior a 13 anos, no mundo inteiro.

Que prejuízos financeiros?

Ontem à noite, a riqueza pessoal do fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, havia sofrido uma descida de mais de seis mil milhões de dólares. Assim, as ações do gigante tecnológico caíram, na segunda-feira 4,9%, somando-se a uma queda de aproximadamente 15% registada desde meados de setembro, quando começaram a surgir rumores de que a informação pessoal de milhões de utilizadores estaria a ser comercializada na dark web.  Conclui-se que a queda das ações levou a que o valor de Mark Zuckerberg descesse para 121,6 mil milhões de dólares, ficando, consequentemente, abaixo do fundador da Microsoft, Bill Gates, na quinta posição no índice Bloomberg Billionaires.

 

 

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