1/12/21
 
 

Cabritas versão 2.0

Cabritas há muitos e com hipótese de vingar no difícil concurso do mais trapalhão. 

1. Eduardo Cabrita já tem modelos com “up grade” no Governo. É o caso de João Cravinho jr. Mais evoluído, mais bem apresentado, menos barulhento do que Cabrita, mantém, no entanto, falhas graves no software de programação. A insuficiência técnica foi patente no Excel de substituição do Chefe do Estado Maior da Armada, pelo vice-almirante Gouveia e Melo, a vedeta nacional do momento, que reedita a nossa procura coletiva do guia salvador. O processo demonstrou a existência de múltiplos arranjos subterrâneos e negociatas de cadeira. Todos os envolvidos ficaram mal na fotografia, mesmo o Presidente Marcelo. A trapalhada generalizada acabou com um comunicado a dizer que estava tudo esclarecido, mas não explicava nada. Depois de plantarem notícias nos mais diversos sítios, estão agora todos a fazer de mortos, até que o almirante CEMA leve o chuto, lá para março. Eventualmente estava combinado assim, até com ele. O problema é que se Gouveia e Melo não for colocado, num certo lapso de tempo e num posto mais alto, pode ter de passar à reserva. E aí “chapeau!”. Logo agora que todos querem tê-lo por perto, como melhor amigo. Foi tudo uma asneira monumental iniciada por Cravinho Jr. No fim, os portugueses tiveram direito a comunicado a tomá-los por mentecaptos. Na sua última entrevista de carreira, brilhante, Sousa Tavares questionou Marcelo sobre o tema e ficámos na mesma. Marcelo falou e nada explicou. Ao fim do dia, os militares sofreram um grave dano de reputação, precisamente quando o sucesso da vacinação mostrou o potencial que têm e que é bem maior do que aquilo que lhes assignam como tarefas.

2. Outro Cabrita potencial é Pedro Nuno Santos. Veio a público lamentar a demissão do presidente da CP, dizendo que percebia perfeitamente a saturação dele face às normas da gestão no Estado. O recado era para o ministro das Finanças, logo em vésperas de Orçamento do Estado (os amigos são para as ocasiões). Pedro Nuno deve querer voltar ao tempo em que as empresas públicas estavam fora do perímetro do OE, acumulando dívida escondida. Foi um forrobodó no tempo de Sócrates. Acabou com a vinda da troika, que impôs contas limpas. No dia em que se voltar atrás, nesse campo, perderemos novamente a autonomia, como alertou na TVI24 Manuela Ferreira Leite.

3. O país está a voltar ao normal em todo o lado, menos no Estado, onde trabalhar foi um hábito que se foi perdendo com a pandemia. É uma espécie de mutação viral. Nas escolas há greves. Umas logo nos dias de abertura; outra, na segunda-feira passada, fazendo ponte com o 5 de outubro. Os sindicatos revezam-se nas convocatórias e os alunos que se danem. Nas Lojas do Cidadão está criado o caos completo. As filas gigantes mostram que o atendimento online foi uma treta. O sistema casa aberta implantado não chega para as encomendas e o ritmo “caracolesco” dos servidores do Estado é o de sempre. Na saúde, o abrandamento da pandemia pôs às claras centenas de milhares de falhas. O hospital de Setúbal ficou sem o diretor clínico, que se demitiu. Não admira. É dos piores e mais mal-organizados do país, segundo todas as análises.

4. O país partidário (é uma coisa pequenina mas muito influente) está ao rubro. Quase tudo mexe no pós-autárquicas, tirando os partidos marxistas que foram os que mais perderam (PCP, Verdes e Bloco). No caudilhista Chega, Ventura demitiu-se para se recandidatar, aproveitando um reparo formal do Tribunal Constitucional. É bem visto e vai dar tempo de antena garantidamente. No PSD há quem queira que Rangel avance só porque ele se pôs a jeito. Diz-se que não tem modo de recuar. Desconhecem a máxima da política de que o que é verdade hoje é mentira amanhã (ou vice-versa, obviamente). Rio fecha-se em copas. Sabe-se que é resiliente. É como o seu Boavista. Quando ninguém esperava, chegou a ganhar o campeonato, no tempo do caciquismo de Valentim Loureiro. No CDS, Chicão está de aflitos, mas vai dar luta como impõe a barretina do Colégio Militar. Do outro lado deverá estar o promitente Nuno Melo, embora a cadeira de sonho de Bruxelas seja coisa difícil de largar. Entretanto, Costa goza o prato. Desgasta Pedro Nuno, e, enquanto se fala destas coisas, lá vai cozinhando na penumbra o Orçamento, com Jerónimo e Catarina. De uma forma ou de outra a coisa vai passar. Já o de 2023 é que talvez encalhe. Quem se vai tramar é a classe média. Não tem aumentos salariais, nem de pensões, nem de nada. Falso: tem os da gasolina, eletricidade, EMEL, rendas e comissões bancárias.

5. Pandora Papers é uma investigação jornalística que deteta utilizadores de offshores para vários efeitos, através de fugas informáticas. Nuno Morais Sarmento (ex-ministro e número dois do PSD de vez em quando), Manuel Pinho (ex-ministro da Economia de Sócrates) e Vitalino Canas (ex-deputado e malogrado candidato ao Tribunal Constitucional, lugar que desejava desde pequenino) foram envolvidos, por razões diversas. Objetivamente, podem não estar a infringir a lei, uma vez que ter contas offshore não é, em si mesmo, ilegal. Também não é propriamente um bom sinal para quem anda na política, ainda que tenha outras e respeitáveis atividades profissionais. Bem prega Frei Tomás… ou pela boca… O mais certo é o caso cair rapidamente no esquecimento. Basta dizer que nenhum comentador dominical lhe pegou. Claro que havia Globos de Ouro e Big Broher com expulsão. Mas mesmo assim…

6. João Rendeiro fugiu para parte incerta (na ótica dos lesados) e certa para ele. Estranhamente, houve quem ficasse surpreendido. A fuga estava escrita na cara dele e na sobranceria com que sempre se apresentou em tribunal e em sociedade. Quem não tem vergonha, todo o mundo é seu…

7. A propósito de dinheiro, é de recordar que a mutualista do Montepio vai para eleições. A instituição está fragilizada. O grupo apresentou 83 milhões de prejuízos e 1350 milhões de impostos diferidos. Os capitais próprios são de 84 milhões, o que significa que baixaram 104 milhões. É um retrato devastador. O todo poderoso presidente da Assembleia Geral, padre Melícias, vai finalmente deixar as funções nas quais deu sempre a bênção a Tomás Correia e aos seus sucessores. Mesmo assim não quer afastar-se e deve concorrer à Assembleia de Representantes. Virgílio Lima, atual líder da organização recandidate-se. Tem pela frente várias listas, nomeadamente uma composta por quadros do grupo particularmente profissionalizados. Deve haver outras duas candidaturas: Ribeiro Mendes e Eugénio Rosa. O processo eleitoral é sempre marcado por polémicas. Seria bom que o regulador e outras instâncias com capacidade de intervenção pública acompanhassem o processo de votação. Fica a sugestão.

8. Ana Rita Bessa, deputada do CDS, deixou o parlamento. Acha que o partido está condenado a ser um sidecar. Não via sentido útil para a sua tarefa. Será que vai voltar a trabalhar para a editora onde, segundo Paulo Morais, esteve diretora e que, por sinal, foi uma das entidades que fez um negócio de milhões com livros escolares durante a pandemia, precisamente em resultado de uma proposta do partido de Chicão? “Affaire à suivre”. O negócio dos livros escolares é infindável e intocável.

 

Escreve à quarta-feira


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