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Melvin Van Peebles. "A Rosa Parks do cinema negro"

Melvin Van Peebles. "A Rosa Parks do cinema negro"

Diogo Vaz Pinto 29/09/2021 18:49

O cineasta negro viveu uma vida rocambolesca e marcada pela superação de todo o tipo de desafios, o que lhe deu a confiança para se tornar um artista multifacetado e pioneiro cuja obra influenciou decisivamente o cinema negro norte-americano, abrindo caminho ao género que ficou conhecido como blaxploitation.

 

Por vezes a sorte nasce de um atrevimento desgraçado, de um ímpeto que se cola à pele de quem não tem escolha, de quem não pode andar pelas artes com esses gerais bons modos, a pedir licença, a aperfeiçoar os truques de circo que lhe são oferecidos, e nem pode esperar que as oportunidades surjam, mas aprende a tomar de assalto as suas ambições e projectos, e, são estes os artistas que exibem um confiança desmesurada em si mesmos, uma arrogância que si afina em charme, e que, por fim, acaba por conquistar todos. Melvin Van Peebles foi assim, uma dessas mentes buliçosas, absurdamente criativas, que não têm escolha senão impor-se à força, e que arriscam perseguir as sombras que lhes atiçam a imaginação. Este cineasta forjou a sua sorte a partir dos materiais mais improváveis, tornou-se um autor de romances, em francês e em inglês, criou e produziu musicais, tendo ainda escrito e gravado álbuns de spoken-word que viriam a ser tidos por muitos como antecessores do rap, mas foi com um inesperado sucesso de bilheteiras que veio a ser considerado o padrinho do moderno cinema negro e um pioneiro na senda dos filmes independentes nos EUA. Hoje, quem quer que trace as origens do género conhecido como blaxploitation invariavelmente irá esbarrar no seu nome, e mesmo agora que as notícias falam da sua morte, aos 89 anos, é difícil não o imaginar nalguma antecâmera a tentar negociar uma extensão, regatear, para acabar perdendo a cabeça, enchendo a morte de insultos e reclamações. Melvin morreu na terça-feira, na sua casa em Manhattan, confirmou o filho, o actor e realizador Mario Van Peebles.

O obituário do New York Times exalta-o como um homem da Renascença, isto pelas suas desabusadas incursões tanto no cinema como no teatro ou na música, passando ainda pela ficção, mas talvez mereça especial reconhecimento a forma como rasgou o seu caminho através de uma idade das trevas e lançando-se sobre a modernidade da qual continuam arredados tantos artistas negros que só acedem ao palco como atracções de circo para realizar provas limitadas dentro de um qualquer género secundário no entretenimento de massas. Mas Van Peebles provou ter um irrascível talento, e foi com o seu terceiro filme, “Swwet Sweetback’s Baadasssss Song”, que conseguiu fazer valer o seu próprio princípio no que toca a jogos bélicos capazes de causar arrepios e pôr em sentido as venais agências que ditam o bom gosto. Lançado em 1971, o filme espoletou um aceso debate e tornou-se um inesperado êxito nacional, isto depois de a crítica ter deixado claro que não sabia como lidar com ‘aquilo’. Era o próprio Van Peebles quem protagonizava o filme e, na pele de Sweetback, lançava-se numa epopeia cruenta e até, por vezes, escatológica, sendo a estrela de um número sexual num bordel, guiando a audiência entre cenas de sexo explícito e violência, mastigando e cuspindo palavrões num tom de desafio as estruturas do poder da elite branca. O filme era dedicado a “todos os irmãos e irmãs negros que já não estão para aturar esse Sujeito”. E se em 2010, numa entrevista ao Times, Van Peebles troçou da ideia de que havia deixado um legado ao ser questionado sobre a sua reputação e influência, vincou que aquilo que sempre o norteou foi o desejo de fazer o que quer que lhe desse na veneta. Uns anos depois, já na casa dos oitenta, este figurão que raramente dispensava um charuto e que tinha como imagem de marca a sua barba branca e esvoaçante, deixava claro que não acreditava que a sua obra viesse a obter o reconhecimento que lhe era devido. Mantendo o hábito de sair para correr cinco dias por semana, gozava que enquanto não começasse a dar sinais de estar mais fraquinho era improvável que chovessem convites para sessões de homenagem ou prémios de carreira. “Neste momento, ainda só um bocadinho perigoso”, disse em 2013, “e não faço tenções de amansar tão cedo”.

Afinal, o que parecia estar a faltar era o gesto de lhe serem fechados os olhos com a certeza de que não os voltaria a abrir, e no dia seguinte o seu legado seria por fim celebrado, reconhecendo-se a influência que teve “nalguns dos mais notáveis filmes negros do último meio século, de She’s Gotta Have It (1986), de Spike Lee, a Moonlight (2016), de Barry Jenkins”, diz o Times, acrescentando que a morte de Van Peebles chega num momento em que, por fim, parece ter chegado a vez de os contadores de histórias negros ganharem protagonismo em Hollywood.

Van Peebles não só escreveu, realizou e protagonizou o seu terceiro filme, como ainda assinou a banda sonora, conseguiu arranjar financiamento para produzi-lo e obteve um retorno surpreendente nas bilheiteiras, provando que um cineasta negro podia apresentar às audiências uma visão altamente pessoal sem ficar excluído à partida. “Pela primeira vez na história do cinema americano, um filme ousou soar alto a voz de uma consciência inegavelmente negra”, notou o crítico Sam Washington no “The Chicago Sun-Times”. E o cineasta que por uns tempos viveu como taxista nas ruas de São Francisco, como retratista na Cidade do México, artista de rua em Paris, corretor de acções em Nova Iorque, piloto de um bombardeiro da Força Aérea, trabalhador dos correios, entre tantas outras ocupações para se ir safando, incluindo a de gigolo, mesmo se podia usar de uma modéstia exagerada numas horas, noutras não hesitava em intitular-se “a Rosa Parks do cinema negro”.

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