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Superior. Milhares de candidatos sem vaga preocupam sindicato

Superior. Milhares de candidatos sem vaga preocupam sindicato

Miguel Silva Maria Moreira Rato 27/09/2021 08:24

“Continuamos a ter uma percentagem reduzida de pessoas com o Ensino Superior completo”, alerta Mariana Gaio Alves, do SNESup.

Os resultados da primeira fase do concurso de acesso ao Ensino Superior público garantiram a colocação de 49.452 novos alunos nas universidades e politécnicos nacionais. Este valor representa uma quebra de 3% em relação a 2020, depois de se terem verificado dois anos consecutivos de crescimento.

“Penso que não é muito expressiva, mas temos de olhar sobretudo para o quadro geral. Voltámos a ter um número recorde de candidatos e houve dificuldade em disponibilizar vagas para aceitar todos os alunos”, explica Mariana Gaio Alves, Presidente do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup), em declarações ao i.

“É claro que ingressar exige que os alunos façam os exames nacionais e deem provas dos seus conhecimentos e das suas capacidades, mas estamos sempre a ficar com candidatos que preenchem os requisitos e não encontram vagas no quadro da oferta das universidades”, lamenta a doutorada em Ciências da Educação, lembrando que o total de estudantes a concurso atingiu o valor mais alto desde 1996.

Deste modo, contabilizam-se 64.004 candidatos que concorreram às universidades e politécnicos e mais de 14 mil não obtiveram colocação, sendo este valor o mais alto desde 2002.

O afastamento do Interior Para além do fenómeno dos estudantes que não conseguem entrar em nenhuma das opções selecionadas, existe outro: ficaram 6.393 vagas iniciais por preencher, mais 343 do que em 2020. A Escola Superior de Tecnologia e de Gestão de Bragança é aquela em que este número foi mais preocupante (544).

“A distribuição da população no território é muito assimétrica, está mais no litoral e não no interior. Quando uma família põe um filho na faculdade, quer que este esteja o mais perto de casa possível para economizar. Estas instituições são tão atrativas quanto as outras e constituem polos muitíssimo importantes das regiões”, sublinha a dirigente sindical, exemplificando que os jovens podem fixar-se nas mesmas quando terminam a formação, há mais dinâmica económica e mais hipóteses de investimento nos negócios, residências e alojamentos.

“É possível que se atribua um maior ou menor prestígio às instituições por estarem localizadas neste ou naquele espaço. Há estudos que comprovam que quando uma cidade é muito conhecida, pensa-se que a universidade homónima é a melhor”, aponta ainda.

Enquanto aproximadamente 45% dos 1.070 cursos disponíveis nas universidades e politécnicos portugueses não deixaram qualquer vaga por preencher na primeira fase, existindo 484 sem quaisquer vagas sobrantes – um valor inferior ao registado em 2020 (765) e 2019 (702) –, o número de cursos sem colocados aumentou e fixou-se nos 38. O Instituto Politécnico de Bragança é, novamente, a instituição de ensino com mais cursos com zero colocações (onze), sendo prova da desvalorização do interior. “Isto requer que olhemos para ofertas semelhantes no país, até nas proximidades dessas instituições, e reorganizemos a oferta formativa”, afirma Mariana Gaio Alves, explicitando que tem conhecimento de casos de cursos “muito parecidos” em que “será vantajoso rentabilizarmos os professores e o conhecimento” para que se possa modificar o perfil dos cursos e até fazer parcerias entre instituições.

Engenharias e educação pouco procuradas Engenharia Informática foi o curso menos procurado, tendo 520 vagas sobrantes, o máximo nacional. No mesmo patamar, seguem-se a Engenharia Civil (446), a Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (340), a Engenharia Mecânica (247) e a Educação Básica (206).

“Nas engenharias, pode ter a ver com os resultados nos exames de Matemática e Físico-Química, por terem habitualmente médias mais baixas, e isso pode condicionar as escolhas dos estudantes”, clarifica a professora associada com agregação do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, adicionando que, no caso da Educação, “temos um cenário um bocadinho diferente porque há um corpo docente muito envelhecido e não temos sido capazes de atrair os jovens para esta profissão”.

No extremo oposto, os cursos de Informação e Jornalismo, Direito, Ciências Veterinárias e Serviços de Transportes têm todas as áreas preenchidas. “Esta procura e valorização da formação académica é muito importante, continuamos a ter uma percentagem reduzida de pessoas com o Ensino Superior completo”, reconhece Mariana Gaio Alves, sugerindo que a solução passa por dar importância ao crescimento da procura contando com uma maior dedicação “da tutela e dos responsáveis das instituições, para que pensem e planeiem quais são os recursos materiais e humanos necessários para formar estas pessoas”, admitindo que tem conhecimento de uma instituição “em que os alunos de uma turma não cabem na sala e não se pode dividir a mesma porque não há mais professores”.

Os cursos com as médias mais altas de entrada foram mais uma vez Engenharia Aeroespacial e Medicina, com médias acima de 19. O curso de Medicina no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto registou mesmo a média mais elevada em Medicina na última década, 19,3. Ainda assim, o curso de mais difícil de acesso mantém-se mais uma vez Engenharia Aeroespacial no Técnico, com as 124 vagas todas preenchidas e em que a nota mais baixa de entrada foi 19,5.

 

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