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José Augusto França. O homem que precisava de arte

José Augusto França. O homem que precisava de arte

Diana Tinoco José Cabrita Saraiva 25/09/2021 17:37

Nascido em 1922, José-Augusto França gabava-se de ter sido contemporâneo de Proust por um dia. Andou entre Lisboa e Paris, donde trouxe as bases para fundar os estudos em História da Arte. Considerava-se ‘um ateu de cultura católica’ e não tinha pressa nem angústia de morrer. ‘O céu pode esperar’ era a sua divisa.

Foi professor, sociólogo, crítico de arte. Assinou obras fundamentais como Lisboa Pombalina e o Iluminismo ou A Arte em Portugal no Século XIX. Organizou exposições marcantes. Passou pela política (foi militante do PS). E ainda estabeleceu, praticamente do zero, o ensino da História da Arte em Portugal. José-Augusto França – grafava o seu nome assim mesmo, à francesa –, o homem que tinha uma necessidade «quase respiratória» de arte, morreu no passado domingo na casa de saúde de Jarzé (uma aldeia a 300 km de Paris). Tinha 98 anos.

Era uma personalidade de interesses variados, de cultura prodigiosa e de energia quase inesgotável. Apaixonado pelo cinema e pelos policiais de Maigret, escreveu romances, um livro de memórias, um grande estudo sobre a história de Lisboa e sínteses sobre Chaplin ou Picasso. Numa entrevista ao SOL em 2016 descrevia assim o seu quotidiano na França campestre: «Estou levantado e de pequeno-almoço tomado por volta das dez, dez e meia, vou para a biblioteca, fico à espera do correio que chega pela janela – estou no rés-do-chão e o carteiro traz-me as cartas à janela, por consideração especial. De manhã escrevo, leio, anoto coisas – televisão não, de manhã jamais! –, oiço música». Uma vez por semana ia à aldeia, «comprar o Figaro».

Vivia então em Jarzé, perto do Loire, numa casa oitocentista construída pelo avô da sua mulher, Marie Thèrese Mandroux-França, que ele tratava por Mahité. Mesmo aos 92 anos lia muito, via dois filmes por dia e dava passeios pela propriedade de três hectares. «Estamos bem acomodados, mas os outros quartos estão todos vazios», explicava então. «A propriedade tem um parque bonito, um pequeno bosque e um pavilhão dos finais do século XVIII. E, é claro, tem uma excelente biblioteca, que vem da família, e a que acrescentei os meus livros portugueses. Só de Voltaire são 98 volumes do século XVIII».

Em finais de setembro de 2018, essa «vida pacata, nonagenariamente pautada» seria interrompida por um problema grave – o Público chegou a noticiar a sua morte. Posteriormente, José-Augusto França foi para a casa de saúde onde viria a falecer.

«É uma figura ímpar», resume Margarida Acciaiuoli, catedrática do departamento de História da Arte da FCSH/Nova de Lisboa, que o conheceu em 1976 e com ele manteve uma relação de proximidade, embora prefira recusar o título de discípula. «Com a situação extremamente frágil do país, sob o ponto de vista cultural, a morte dele acaba por ter um significado que ultrapassa o seu mero desaparecimento», lamenta.

Margarida Acciaiuoli destaca a importância de José-Augusto França na implementação do ensino da História da Arte em Portugal. «Logo a seguir ao 25 de Abril, a Universidade Nova é criada mas ainda não tem instalações nem cursos», lembra. «Os professores convidados para integrar as Humanidades resolvem fazer uma espécie de pós-graduação rápida, num andar alugado pela Nova na avenida da República. Eu inscrevo-me logo, porque tinha-me licenciado em Filosofia em Coimbra e há muito tempo que andava à espera que aparecesse qualquer coisa que valesse a pena. Conheço o França nesse semestre. E ele alerta-me que vai abrir uma pós-graduação em História da Arte de dois anos daí a uns tempos. Aí começa o curso de pós-graduação que terá equivalência a mestrado pouco depois – é o primeiro mestrado em História da Arte e dos primeiros mestrados em qualquer área em Portugal».

Até então, a história da arte era feita «por críticos de arte ou por pessoas normalmente ligadas aos Descobrimentos, que se centravam na arte portuguesa dos séculos XVI e XVII». França, com o seu conhecimento profundo do século XIX, mudou esse panorama para sempre.

A catedrática não tem dúvidas: «O trabalho que ele fez é uma pedra no ensino, sobre a qual é preciso fazer alguma coisa, construir alguma coisa. Segui de perto outros professores da mesma geração do França que deixaram rasto. Mas deixar rasto é muito diferente de deixar uma pedra. O mérito dele é esse».

 

As visitas com o pai ao Museu de Arte Antiga

Nascido em Tomar a 16 de novembro de 1922, um dia antes de Marcel Proust morrer (orgulhava-se de terem sido contemporâneos durante um dia), José Augusto Rodrigues França foi para Lisboa com cinco meses, por causa da mudança de emprego do pai, que era contabilista. A família instalou-se na Travessa do Possolo. «Vêm daí as minhas primeiras vindas ao Jardim da Estrela, com a criada. Depois mudámos de bairro e só muito mais tarde, quando regressei a Portugal, em 1989/90, é que redescobri o Jardim da Estrela. Passei a vir quase todas as manhãs. Escrevi muito, li muito aqui, dei entrevistas, fui filmado, recebi amigos aqui, até teses de doutoramento aqui foram discutidas», recordou na entrevista ao SOL, que decorreu na esplanada daquele jardim.

O interesse pela arte começou com as visitas que fazia com o pai ao Museu de Arte Antiga «para ver o Nuno Gonçalves». «O meu pai era um intelectual contrariado, para ganhar a vida foi contabilista e depois comerciante. Quando saiu da Companhia das Lezírias montou um comércio de móveis e decorações na Av. da Liberdade».

Ingressou no curso de Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Lisboa mas com a morte do pai teve de interromper os estudos para tomar conta do negócio. «Ainda o geri durante cerca de um ano, mas não era coisa que me interessasse».

Passou o ano de 1945 em Angola. «Havia negócios de família ligados ao café e coisas assim, e um amigo de meu pai quis dar-me um bom futuro em Angola. Fui para lá como adjunto do diretor de importantes companhias». Mas rapidamente colocou de parte o projeto de fazer carreira na colónia, embora até tenha sido «muito bem tratado». «Não me dei bem no meio daquele colonialismo torpe», revelou. Verteu a experiência para o romance Natureza-Morta, publicado em 1949 e retirado do mercado pela censura.

Na década de 40 realizaria outra viagem marcante. «Fui a Paris pela primeira vez em 1946. Havia realmente uma respiração ali que eu antes ignorava. Lembro-me de ver o primeiro cartaz do Partido Comunista Francês, olhei e não queria crer nos meus olhos».

Ainda nesse ano de 1946 começou a escrever crítica de arte no Horizonte - Jornal das Artes. «O trabalho dele como crítico de arte é impressionante», considera Acciaiuolli. «Foi algo que ele desenvolveu com fundamento, não eram meramente opiniões». Participou nos encontros promovidos pelo seu amigo António Pedro, pintor surrealista, «com o Fernando de Azevedo e o [Marcelino] Vespeira, sobretudo, e também o Cesariny e o O’Neill; e depois com o [Fernando] Lemos». Daí resultou a formação do Grupo Surrealista de Lisboa. Chegou a pintar e a expor. «Até expus no primeiro Salão Surrealista em 49. Os quadros eram maus, só com alguma imaginação, mas eu não tinha técnica nenhuma de pintura. Durou dois ou três anos, não tem importância», diria em 2016.

 

Paris e a Lisboa Pombalina

Além dos surrealistas, foi amigo de Almada Negreiros, Eduardo Viana, Vieira da Silva, Arpad Szenes e Júlio Pomar. Mas também de diretores de museus, como Diogo de Macedo, diretor do Museu de Arte Contemporânea (do Chiado), e de João Couto, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga. Entre as figuras portuguesas que mais o tinham influenciado nomeava António Sérgio, Vieira de Almeida, seu professor de Filosofia na Faculdade de Letras, que o «ensinou a pensar», e Reynaldo dos Santos. A propósito deste, referia: «As suas afirmações históricas às vezes arrepiavam-me, mas tinha uma inteligência extraordinária e aquilo a que se chama ‘olho clínico’ , como médico que era. Acertava sempre».

Durante cerca de uma década, participou na edição do Grande Dicionário de Língua Portuguesa, de António de Morais Silva. «A iniciativa foi do António Pedro, que entretanto tinha esse negócio na mão e não sabia o que havia de fazer. O Morais é o grande dicionário da língua, tem 238 mil entradas, em 12 volumes».

Depois da publicação do último volume do dicionário, em 1959, foi viver para Paris, associando-se à École des Hautes Études. Ali estudou sob a tutela de Pierre Francastel, historiador de arte que advogou (e praticou) o método sociológico e a quem França chamou «maître à penser». Matriculou-se na École du Louvre. O academismo do ensino desagradou-lhe, mas, em compensação, «essas idas regulares ao Louvre levaram-me a visitas e revisitas sistemáticas, secção a secção, durante um ano inteiro, e esse foi o maior lucro da matrícula», escreveu em Memórias para o Ano 2000 (ed. Horizonte).

Em Paris, além dos intelectuais portugueses exilados, como Joaquim Barradas de Carvalho, Jorge de Sena, António José Saraiva ou Eduardo Lourenço, lidou com grande figuras como Roland Barthes ou André Breton. «Conheci os grandes marchands de arte de Paris e o pai deles todos, o Kahnweiler, o homem do Picasso. Era um senhor baixo, todo careca, muito inteligente, que gostava de conversar, e simpatizou com um jovem crítico português», recordou ao SOL. Na capital francesa conheceu também a sua segunda mulher, Marie Therèse Mandroux, historiadora da arte como ele, discípula de André Chastel.

Tinha intenção de fazer uma tese de doutoramento sobre a passagem do barroco ao neoclassicismo mas Pierre Francastel leu o rascunho preliminar e sugeriu-lhe: «Acha que é capaz de fazer uma tese sobre a criação da cidade nova?». Em Lisboa, França encontrou «os seis planos propostos ao Marquês de Pombal para a reconstrução da cidade, que estavam numa gaveta em Santa Clara, numa instituição militar, e nunca tinham sido vistos». Assim nascia Lisboa Pombalina e o Iluminismo.

«Continuo a achar que é a grande obra dele», comenta Margarida Acciaiuolli. «É extraordinário porque não havia nenhum estudo sobre a Lisboa Pombalina. A única pessoa que se interessou por isso e tentou investigar foi o Pardal Monteiro, um arquiteto. Mas claro, faltava-lhe toda a outra formação. O França foi pioneiro nessa investigação. Com esse estudo ele dá a conhecer a importância do traçado da Baixa e só a partir daí é que várias pessoas começam a interessar-se e saem artigos sobre o assunto».

Ainda em França, faz um segundo doutoramento, na Sorbonne, «sobre o romantismo português como fenómeno ideológico político, literário e artístico». «O meu pai tinha uma boa biblioteca e eu tinha lido os românticos todos – Júlio Dinis, Camilo, Coelho Lousada e autores assim, que mais ninguém leu. Tinha lido tudo isso em rapazinho, de modo que foi só lembrar essas coisas e organizar o discurso académico», recordaria ao SOL.

 

O 25 de Abril e o regresso

Tornara-se «praticamente um intelectual francês» e, protegido pelos eminentes Chastel e Fernand Braudel (Francastel tinha morrido em 1970), tinha praticamente garantida a entrada no Centre National de Recherche Scientifique como investigador. Só que dá-se o 25 de Abril em Portugal e, convidado para a Universidade Nova de Lisboa, decide regressar.

«O grosso da minha actividade destes anos centrou-se […] na Universidade Nova. Nela me fixei e assisti-lhe às crises de infância, em 1975, com reuniões políticas frequentes e absolutamente inúteis», escreveu nas Memórias. Além do trabalho mais político ou de secretaria, dedicou-se a esboçar as grandes linhas do que seria um instituto ou departamento de estudos de História da Arte.

«O que eu acho extraordinário é ele conseguir introduzir uma área nas ciências sociais e humanas que não existia em nenhuma universidade do país», enaltece Margarida Acciaiuolli. «Toda a gente fala dos livros, as pessoas debitam títulos. Não é o número que interessa, até porque essas publicações não valem todas a mesma coisa. Para mim é difícil as pessoas não sublinharem o papel importantíssimo que ele teve na introdução do ramo da História da Arte na universidade. Quando eu fiz a licenciatura em Filosofia na Universidade de Coimbra havia uma cadeira de História da Arte que era opcional. Nem era obrigatória em currículo nenhum», reforça.

Nem por isso a catedrática desvaloriza a obra publicada. Além de Lisboa Pombalina, destaca A Arte em Portugal no Século XIX (dois volumes, Bertrand Editora). «Para mim essas são as suas duas grandes obras». Outras, considera, não foram tão conseguidas: «A Arte em Portugal no Século XX sai em 74, um mês antes do 25 de Abril. Ele diz, através do título, que vai tratar a arte portuguesa no século XX e termina o livro em 1969, que é a data da inauguração da Gulbenkian. O século XX, ainda por cima, tem certas características que fazem com que, se não formos muito mais à frente, não percebemos a primeira metade. Disse-lhe muitas vezes, porque tínhamos uma boa relação, a pena que era não ter completado o livro».

Em 1982, aos 60 anos, José-Augusto França assumiu a direção da delegação parisiense da Fundação Calouste Gulbenkian, a convite do administrador José Blanc. «Foi preciso mobilar o palácio da Avenida d’Iéna, há muito desamparado, a Mahité fez vir móveis antigos dela, das casas de Jarzé e de Brissac, eu pendurei dezenas de quadros que trouxera de propósito de Lisboa, e pedi dois ou três, grandes, emprestados ao Vasco Costa», contou nas Memórias. «Tive ainda que fazer restaurar estofos há muito maltratados, e salvar preciosas carpetes orientais, que até serviam de cama ao cão da governanta»…

Quando regressou desse posto, seis anos depois, os seus quadros ficaram armazenados em caixotes na Gulbenkian. «E foi daí que a minha mulher teve a ideia de fazer uma exposição no Museu do Chiado, com a Raquel Henriques da Silva, que era a diretora e tinha sido minha aluna. A exposição teve bastante eco e logo a seguir apareceu a Câmara de Tomar com a ideia de eu fazer uma doação», explicou na entrevista ao SOL. A ideia concretizou-se e assim nasceu o Núcleo de Arte Contemporânea José-Augusto França, em Tomar.

 

‘Nunca deixou de trabalhar’

A par da vida académica, da escrita, da investigação e das múltiplas responsabilidades nas diferentes organizações (da Sociedade Nacional das Belas Artes à Associação Internacional de Críticos de Arte, para não mencionar uma passagem fugaz pela Câmara de Lisboa), José-Augusto França foi sempre organizando exposições, algo que começara em 1952, quando fundou, com Fernando Lemos, a Galeria de Março, porque os artistas ‘desalinhados’ se queixavam então de não terem onde expor.

Concebeu em 1984 uma exposição retrospetiva de Almada Negreiros na Gulbenkian e ficou incomodado por não o convidarem para comandar a exposição do centenário de Amadeo de Souza-Cardoso, que aliás tinha estudado a fundo.

Já na década de 90 – em que viu desaparecerem vários amigos, como José de Azeredo Perdigão ou Beatriz Costa –, transformou o mestrado em História da Arte na licenciatura que hoje existe, «em derradeira contribuição docente e técnica, à acção do meu departamento». Depois disso, para uma universidade privada, imaginou uma cadeira de história da arquitetura que era dada da frente para trás – «aos egípcios se chegaria no 5.º ano, quando os estudantes pudessem saber para que serviam eles…».

Continuou sempre a escrever e a viajar. Quis entrar no novo milénio tomando um café bem quente na manhã de 1 de janeiro de 2001, na avenida dos Campos Elísios, em Paris. E até ao episódio que em 2018 o levou para a casa de saúde de Jarzé continuou a trabalhar, sempre na sua máquina de escrever portátil Olivetti. Nunca aderiu ao computador.

Margarida Acciaiuolli considera que esse foi o maior ensinamento que retirou da sua relação com o historiador da arte. «A longevidade dele justifica-se apenas com uma coisa que eu também pratico: nunca deixou de trabalhar. O cérebro dele nunca deixou de trabalhar, passava de um assunto para outro. Eu tento também seguir esse princípio». Outra qualidade que cultivava era o sentido de humor. Ao SOL, questionado sobre quando deixara de fumar, respondeu: «Há meia hora».

 

Detestava a estupidez e a lentidão

«Gosto do pão francês grelhado, cortado muito fino, e de [vinho] Bourgueil em boa temperatura. Detesto, acima de tudo, a estupidez, e por isso a censura e a publicidade […], a lentidão (e os lentos), e, de factos históricos, todas as ditaduras – e, consequentemente, como agente da história, o Salazar, que foi o único ditador que pratiquei», declarou José-Augusto França nas páginas finais das suas Memórias. Ele, que se definia como um «ateu de cultura católica» dizia com naturalidade, comentando os amigos desaparecidos: «Qualquer dia sou eu que me vou embora. Não tenho pressa nem angústia. Não sou otimista nem pessimista. Como dizia o Almada, ‘não há qualquer mal-entendido entre mim e a vida’». Em todo o caso, dizia que gostaria de morrer «com um pré-aviso de nove meses». E, embora não acreditasse no céu, tinha como divisa: ‘O céu pode esperar’.

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