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Ziegfeld Jr. Sempre com o rabo do olho num qualquer rabo de saias

Ziegfeld Jr. Sempre com o rabo do olho num qualquer rabo de saias

Afonso de Melo 23/09/2021 22:00

Publicidade e dinheiro foram as duas coisas mais importantes da sua vida. Levou as Folies de Paris para Nova Iorque e transformou por completo a Broadway. Encheu os seus espetáculos de mulheres bonitas e o mais despidas possível.
Morreu sem sequer um escrúpulo...

Tinha um olhar malandro, diziam uns. Outros iam mais longe: qual malandro, qual quê?; o homem era um lúbrico! Um lascivo! Assim à distância, podemos afirmar que poucos como ele puseram à mostra as pernas de tantas mulheres. Mas, como Eduardo III de Inglaterra perante a súbita queda, durante um baile, da liga da amante com quem dançava, a Condessa de Salisbury, fiquemo-nos pela famosa frase, proferida em francês, que era a língua da corte inglesa nesse ano de 1347: «Messieurs, honni soit qui mal y pense! Ceux qui rient en ce moment seront un jour très honorés d’en porter une semblable, car ce ruban sera mis en tel honneur que les railleurs eux-mêmes le rechercheront avec empressement». Traduzido assim, ao correr da pena, Eduardo lançava sobre os trocistas que o viam debruçar-se para apanhar a peça de lingerie da sua amiga um repto que perdurou para a História: «Aqueles que se riem agora com malícia ficarão um dia profundamente orgulhosos de poderem usar um símbolo como este». E, de imediato, instituiu a Ordem da Jarreteira, ainda hoje a mais prestigiosa condecoração do Reino Unido, e cujo símbolo é precisamente uma liga azul sobre um fundo dourado. As estatísticas referem que, nestes dias mais recentes, estavam vivos apenas 25 condecorados por essa ordem.

Florenz Edward Ziegfeld Jr. nunca foi um dos distinguidos, mas não por falta de conhecimento sobre a matéria em causa, isto é, as ligas, ou jarreteiras. Teve tempo de sobra ao longo da vida para ver muitas e, se calhar, de apanhar uma ou outra caída distraidamente, se a malícia não rondava o gesto. Ele foi, ao fim ao cabo, o maior de todos os empresários da história da Broadway, responsável por um infinito número de revistas que ganharam o nome de Ziegfeld Follies, com este follies a ter, também ele, origem francesa, já que a ideia de implantar esse tipo de espetáculo nos_Estados Unidos nasceu das muito parisienses Folies Bergère.

Explique-se, já aqui de entrada, que as Folies Bergère começaram por ser uma sala de espetáculos antes de a expressão ganhar o tamanho do espetáculo em si, indiferentemente do local onde fosse levado a palco. Situada no 9éme Arrondissement, no nº 32 da Rue Richer,  foi desenhada para ser uma casa dedicada à representação de óperas. O homem responsável pelo seu aparecimento chamava-se Plumeret e era um arquiteto de gostos duvidosos. A inauguração teve lugar no dia 2 de Maio de 1869, com o espetáculo anunciado a luzes fortes: Folies Trévise! Esquecessem lá a ópera! Quanto muito, aqui e ali uma opereta, mas na sua maior parte algo de bem mais popularucho, com canções e cançonetas, sessões de ginástica, raparigas em barda com as pernas ao léu. Não tardou a mudar o nome, ganhando a designação da rua vizinha, a Rue Bergère, a partir de 1872. Durante os anos-80 e 90 desse século tomaram a dianteira na preferência dos espetadores. Na Belle Époque de 1920, os fatos extravagantes e as mulheres nuas ganharam o seu lugar. As sensações misturavam-se com os eflúvios do champanhe, uma rapariga de origem africana mas nascida nos Estados Unidos abafou por completo quando subiu ao palco com pouco mais de meia-dúzia de bananas a tapar-lhe as intimidades, a sua voz rouca fez fileiras de homens alimentarem paixões impossíveis. Chamava-se Josephine Baker.

De olhos bem abertos

Nascido em Chicago, Illinois, no dia 21 de Março de 1827, Florenz bem cedo absorveu tudo o que pôde sobre a moda da diversão parisiense. O pai,  Florenz Edward Ziegfeld, tal e qual como ele (ou vice-versa, que é mais correto), emigrante alemão, era o diretor do Chicago Musicall College, que não resistiu ao grande incêndio de 1871. Depois da terrível experiência, e perante a profunda embirração da mulher, abriu um nightclub chamado Trocadero e escolheu para trabalhar consigo e atrair, sobretudo, freguesas de posses, um tipo tão alemão como ele, Friedrich Wilhelm Müller, que usava a alcunha de Eugen Sandow, uma espécie de Mr. Mundo da altura, de musculatura perfeita, que tanto se exibia pura e simplesmente como aceitava dinheiro para combates nos quais muitos dólares rolavam entre apostadores.

A mãe de Ziegfeld Jr. ficou mortificada com o rumo que a vida da família estava a levar. Muito católica-apostólica-romana, Rosalie (Hez de nome de solteira), nascera na Bélgica e era sobrinha neta de um general que acumulava galões: o conde Étienne Maurice Gérard. Predispôs-se a fechar os olhos às tendências libertinas do marido em troca do dinheiro que ia entrando a rodos lá em casa. Ziegfeld Jr. tornou-se rapidamente sócio do Trocadero e ensaiou uma deslocação à Europa em busca de algo de deixasse a América de olhos arregalados. O seu primeiro triunfo foi conquistado em Londres, falava francês com sotaque polaco e não tardou a atingir os pináculos na fama internacional: Helene Anna Held. Franz demorou o seu tempo, mas conseguiu levá-la consigo para Nova Iorque onde as histórias mais mirabolantes corriam de boca em boca sobre os seus espetáculos – alguém jurara a pés juntos que Anna removera cirurgicamente todas as costelas para exibir malabarismos inconcebíveis para qualquer mulher normal. As primeiras atuações que realizou nos Estados Unidos foram arrasadas pela crítica jornalística, mas os Ziegfeld, pai e filho, estavam-se positivamente a borrifar para as críticas. Que as levasse o diabo enquanto enchiam o_Trocadero noite após noite.

Bons conselhos

Anna era uma mulher com experiência na área dos espetáculos e não era, certamente, nenhuma patega. Foi ela que enfiou na cabeça de Florenz Jr. a ideia de importar as Folies para Nova Iorque e Florenz Jr. já andava com a cabeça tão à roda por via do sucesso que não demorou dois segundos a comprar o seu futuro. Desde garoto que lhe eram conhecidas trafulhices menores – uma vez cobrou a uns colegas de escola umas moedas para assistirem a um espetáculo com um peixe invisível e deixou-os puramente apatetados em frente a um tanque com água e nada mais. E aplicou esse jeito para o negócio oferecendo à noite nova-iorquina aquilo que lhe faltava e estava ansiosa por consumir: uma mistura fatal de divertimento à base de muito fumo, muitas borbulhas de champanhe e muito sexo, mais ou menos explícito. Era de tal forma um homem predisposto a tudo que, por exemplo, no final de um espetáculo repleto de canções se aproximou da beira do palco para dizer, com o ar mais sério do mundo: «Lucky Strike cigarettes most assuredly protect the voice». Não admirava que andasse sempre com os bolsos cheios de Lucky Strikes e notas de dólar.

Rei da extravagância!

Anna não ficou barata a Ziegfeld Jr. As Folies Bergère parisienses exigiram-lhe 1500 dólares pela quebra de contrato. Antes de abandonar a Europa, já Florenz espalhara pelos jornais de Nova Iorque cartazes anunciando espetáculos imperdíveis – Daisy Bell (também chamado de A Bicycle Built for Two), e Won’t You Come and Play With Me? Para assegurar a boa forma da sua menina de ouro, Florenz obrigava-a a tomar banhos de leite. De repente, rebentou a notícia de que acabara de avançar para tribunal contra um fornecedor que lhe entregara umas centenas de litros de leite estragado. Apenas mais uma manigância. Truques publicitários. Ou a verdade segundo Ziegfeld.

Extravagante, predisposto a ser visto e ouvido a qualquer hora de qualquer dia de qualquer mês, Florenz Edward explorou a sensualidade de Anna Held até ao tutano com os mais diversos números. Quando, ao fim de duas semanas em cartaz, sentia que a bilheteira de Nova Iorque estava à beira de esgotar, lançava-se em tournées pelo país, precedido da fama e da popularidade que ganhara na Broadway. Além disso, ofereceu a Anna um grupo de coristas, o chamado The Anna Held Girls, que não precisavam verdadeiramente de cantar se tivessem bustos e pernas suficientemente atrativos para deixar o público masculino a babar na gravata por entre as fumaças dos charutos.

Anna nascera em Varsóvia, no dia 19 de Março de 1872, filha de um modesto fabricante de luvas de pelica de nome Shimle. A perseguição levada a cabo contra as famílias judias na Polónia que fazia, nessa altura, parte do Império Russo, levou a família até Paris onde, perante a bancarrota paterna, se viu metida em bares cantando para aguentar os gastos lá de casa. Vivaça, esbelta, atrevida, sabia perfeitamente como embeiçar homens e levou na conversa um dos grandes playboys da Paris de então, o uruguaio Maximo Carrera, com o qual casou a despeito de ele ter mais vinte cinco anos do que ela, tendo tido uma filha em comum, Lianne, uma atriz frustrada que se anunciava, de vez em quando, como Anna Held Jr. Foi Lianne que escreveu nas suas memórias que Anna ficara grávida de Lorenz em 1908, precisamente um ano após ter lançado o nome tonitruante de Ziegfeld Follies por toda a América, tendo este obrigado Anna a abortar com medo que ela perdesse a aura tão custosamente construída em Nova Iorque de Miss Innocence, precisamente o nome da sua próxima série de espetáculos.

A verdade é que Florenz e Anna tinham como destino ficarem juntos e foi isso que sucedeu em 1897, quando ela obteve o divórcio do cada vez mais cadavérico Carrera. Ficaram juntos, mas não chegaram às vias de facto de se casarem. Viverem sob o mesmo teto parecia bastar a ambos até ao dia que Ziegfeld contratou um par de meliantes para roubarem as jóias de Anna e provocar com isso um terrível escarcéu na imprensa de toda a espécie. A confiança de Anna no parceiro desvaneceu-se como nevoeiro matinal, mas não provocou grandes estragos em Florenz que, entretanto, se enrabichara por uma garota chamada Lillian Lorraine e estava na grelha de partida para uma carreira barulhenta, e barulhenta é o termo certo pois com o seu feitio apeixeirado tratou de enfiar o amante nas colunas de mexericos dos jornais dia sim dia não.

Ziegfeld Jr. não queria nem saber. A única coisa que verdadeiramente o entusiasmava era publicidade e dinheiro. Pelos seus espetáculos passaram as mulheres mais sensuais do universo, desde Billie Burke a Marilyn Miller, de Jean Ackerman, a Jean Audree, de Myrna Darby a Evelyn Groves. A sua frase favorita em relação a si próprio era: «Eu glorifico a mulher americana». Isto quando, na maior parte dos casos, as tratava como simples objetos decorativos para os seus espetáculos, ignorando o talento de muitas delas que acabou desperdiçado em troca de se apresentarem em palco quase como tinham vindo ao mundo.

Em 1927, o Ziegfeld Theatre, construído na parte oeste da 6ª Avenida, entre as ruas 54ª e 55ª, custou dois milhões e meio de dólares. Tinha 1600 lugares sentados e abriu com a exibição de Rio Rita, um espetáculo que teve mais de 500 repetições. A vida não podia correr-lhe muito melhor se não surgisse a Grande Quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Billie Burke, com quem casara depois da separação com Anna, viu-se e desejou-se para pagar as dívidas que herdou e deixar o seu nome limpo para a posteridade. Que lhe chamassem de devasso era uma coisa._Caloteiro já era algo de bem diferente. E Billie conheceu-lhe todas as facetas...

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