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Raquel Varela. Académicos falam de tentativa de descredibilização e inveja

Raquel Varela. Académicos falam de tentativa de descredibilização e inveja

Mafalda Gomes Sónia Peres Pinto 23/09/2021 11:00

Henrique Oliveira diz que currículo de Raquel Varela “é muito forte e um centro que tenha essa CV tem mais benefícios em termos de financiamento e recebe mais estudantes.

A polémica em torno dos “erros” do currículo de Raquel Varela está longe de chegar ao fim. O i falou com investidores universitários em relação a repetições de artigos e livros, que terão levado o Instituto de História Contemporânea (IHC) a retirar o apoio à sua candidatura à quarta edição do Concurso de Estímulo ao Emprego Científico Individual, promovido pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e a opinião é unânime: trata-se de uma tentativa de descredibilização de quem tem opiniões contrárias e inveja entre o meio académico português que é considerado pequeno.

Henrique Oliveira, matemático, investigador e professor no Instituto Superior Técnico (IST) garante que tem uma opinião contrária em relação à historiadora, em matéria de covid, e aplaude a iniciativa de o jornal Público ter “censurado” o artigo de Pedro Girão, mas afirma que o ataque que está a ser feito em relação ao seu currículo não faz sentido. “Concordo com o que o Público fez relativamente ao Pedro Girão porque o que escreveu é uma coisa completamente infundada do ponto de vista científico, é quase criminoso, mas o ataque que estão a fazer à Raquel Varela é injusto. Conheço muito bem o CV dela e toda esta polémica é completamente disparatada”.

Em relação ao timing deste “ataque” com o lançamento do Manifesto Liberdade de Expressão, o investigador garante que “não acredita em teorias da conspiração”, mas afirma que “acredita que na academia há muita inveja e há pessoas que têm muita pertinência mediática que depois suscitam nos colegas ressentimentos”. E face a isso não tem dúvidas: “Acredito mais nisso do que haver uma estratégia concertada de ataque, mesmo havendo manifesto acredito que em Portugal há liberdade de expressão, se calhar sou ingénuo”, confessa ao i.

No entender do professor estamos a assistir a uma “perseguição muito injusta e mal intencionada”, mas chama a atenção para a inveja que existe no meio académico. “O nosso meio académico é pequenino e o CV dela é bom. Esse é que é o problema. A quantidade de trabalho dela é invejável, tem uma capacidade de trabalho enorme”. E vai mais longe: “A Raquel tem muita aceitação na universidade. É muito normal uma pessoa sair de um centro e entrar noutro. Não é nada problemático e acho que qualquer centro ficaria contente de a ter porque o seu CV é muito forte e um centro que tenha esse currículo tem mais benefícios em termos de financiamento, recebe mais estudantes”.

Quanto às duplicações, Henrique Oliveira lembra que já editou um livro e juntou mais um ou dois artigos como autor. “Nessas plataformas tenho que citar os artigos e tenho que dizer que sou editor do livro. Caso contrário, a referenciação estaria incompleta”. Uma explicação que já tinha sido avançada por Raquel Varela ao i. “Vou dar uma palestra que se chama “Quem paga o Estado social”, depois publico um artigo que se chama “Quem paga o Estado Social” e depois vou editar um livro que se chama “Quem paga o Estado Social”. A plataforma vai duplicando isso, como se fossem entradas duplas. Nunca aparece em momento algum publicações que não tenho. Pelo contrário, faltam dezenas de artigos, publicações e atividades científicas nesse curriculum porque não tenho paciência para atualizar, o que só me pode prejudicar a mim. Em vez de 50 artigos, na verdade tenho 71. Sou a pessoa que mais publicou na minha área”.

O investigador do IST disse ainda que assistiu a várias defesas de artigos de agregação da historiadora que considerou serem “muito duras”. E acrescentou: “Houve discussão forte mas nunca por esses aspetos formais, foi ‘atacada’ por aquilo que escreveu nos artigos. A Raquel Varela nessas provas defendeu-se e o júri ficou satisfeito com a sua defesa. Mas isso é que é o normal para o júri ver como o candidato se desenvencilha perante as objeções científicas. No caso das ciências exatas é menos assim porque as contas estão certas ou erradas”.

Perseguição Também Duarte Rolo, investigador e professor da Universidade de Paris, lembra que a base da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) vai procurar automaticamente dados que estão sincronizados com outras bases. “É perfeitamente possível haver essas duplicações. Mas isso acontece na FCT como em outras plataformas deste tipo”, diz ao i. 

Mas admite que, neste caso, estamos “perante uma perseguição porque a questão de fundo não me parece ser a duplicação de artigos”. Uma situação que, no seu entender, se “resolve quando há relações de trabalho cordiais e corretas entre colegas e internamente”. De acordo com o investigador, a polémica vem mostrar, por um lado, o ponto a que chegou a degradação do funcionamento das universidades. “Têm um funcionamento cada vez menos democrático, cada vez mais competitivo no sentido neoliberal, ou seja, de uma guerra de todos contra todos, também devido ao agravamento da escassez de recursos, em que há uma enorme dificuldade em manter um debate contraditório entre universidades e em aceitar a diferença”. 

E lembra que desse ponto de vista Raquel Varela tem uma posição muito particular. “Reivindicou de forma muito clara e de forma pública a liberdade de criticar e de estar em desacordo não só com as instituições universitárias, mas também em relação a algumas posições do Governo”, acrescentando que, “de uma forma geral, assume uma posição intelectual crítica, reivindicando muito essa liberdade de criticar. E no contexto atual, pelos vistos, é uma coisa que não é aceite. Isso supostamente é o papel dos académicos e dos intelectuais, ou seja, de alimentar o debate público com posições críticas, foi para isso que a universidade foi criada, para se distinguir e para poder criar uma fonte de conhecimentos e um local de produção de conhecimentos de forma independente do poder”.

Duarte Rolo garante que esta polémica em torno do seu currículo “é uma forma de desacreditar e descredibilizar a Raquel Varela”, uma técnica que, no seu entender, é muito usada na política. “Parece-me que é uma manobra retórica. A verdadeira questão não é a integridade moral ou a verdade ou a mentira sobre o seu CV. A verdadeira questão são as posições políticas e sociais que está a defender enquanto intelectual pública”, refere ao i. 

Pergunta & Resposta com Manuel Carvalho - Diretor do jornal Público

“Não violaremos as normas porque um manifesto decidiu confundir a nossa liberdade com censura”

Como vê o manifesto Liberdade de Expressão que claramente é contra a linha editorial do Público? Os assinantes do manifesto têm toda a liberdade para ser contra a linha editorial do Público. Em democracia é bom que haja uma grande diversidade de jornais para que cada cidadão os possa escolher de acordo com os seus valores ou convicções. Mas, que fique claro: o Público não é um albergue onde cabe tudo nem um jornal de parede onde qualquer um afixa a sua opinião. O nosso painel de opinião é abrangente e diversificado – Raquel Varela e muitos dos subscritores do manifesto sabem-no por experiência própria –, mas o jornal tem uma direção editorial para fazer escolhas e determinar o que pode ou não ser publicado. Não temos por isso qualquer pretensão em recolher o favor de quem tenta perverter a racionalidade da ciência, instiga o negacionismo ou fomenta as teorias da conspiração. O Público tem um estatuto editorial e um livro de estilo que alicerça a relação de confiança com os seus leitores. Não violaremos as suas normas porque um manifesto decidiu confundir a nossa liberdade para exercer opções editoriais com censura.

Como reage às declarações de Raquel Varela, não só no caso da peça dos “erros” do seu CV? Os factos falam por si. Sabemos dos “erros” do currículo de Raquel Varela desde julho e esperámos por uma tomada de posição do Instituto de História Contemporânea para os validar. Essa validação ocorreu a 10 de setembro e a notícia surge dez dias depois, ou seja, quando chegou ao conhecimento do nosso jornalista. Raquel Varela, ou qualquer personalidade que concorra a projeto financiados pelo dinheiro público, não está isenta de escrutínio. Apesar das suas intimidações com processos judiciais, era impensável que o Público tivesse acesso a estas informações e as metesse na gaveta. 

E em relação à acusação de terem censurado um artigo de opinião de Pedro Girão? O texto foi erradamente publicado  – e nós pedimos desculpas aos leitores por esse erro – e depois despublicado por ferir o nosso Livro de Estilo, que determina que “os textos de opinião estão também sujeitos ao respeito pela linguagem não insultuosa e não panfletária” das notícias ou reportagens e que “a opinião deverá ser sempre devidamente fundamentada”. Ora, insinuar que, por defenderem a vacinação dos mais jovens, o chefe de Estado está ao serviço de “possíveis interesses” ou que médicos, políticos ou militares que defendem a vacinação de jovens são “cobardes” não cabe na categoria do debate livre que o Público acolhe e estimula. Dizer que os argumentos a favor dessa vacinação são “irracionais, emotivos e políticos” é uma negação grosseira dos factos científicos que sustentaram as decisões das autoridades de saúde da UE ou dos EUA. Por isso, fizemos o que devemos fazer em defesa de um espaço público saudável e de uma opinião pública informada: despublicamos o artigo. Mas não “censuramos” o autor. Depois desse episódio, já publicámos um artigo no qual nos criticava e manifestámos a nossa abertura para acolher outros que cumpram as nossas regras.

 

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