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Pedro Casinha. "A primeira competição internacional caiu-me como uma bomba"

Pedro Casinha. "A primeira competição internacional caiu-me como uma bomba"

José Miguel Pires 22/09/2021 21:51

Aos 18 anos, Pedro Casinha é campeão mundial júnior em K1 200 metros, e acumula já vários importantes títulos internacionais.

Portugal tem brilhado nos últimos meses, no mundo da canoagem. Ainda antes de Fernando Pimenta, medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio’2020 e vice-campeão europeu, se ter tornado campeão mundial em K1 1000 metros, nas camadas jovens, havia já quem fizesse manchetes. Pedro Casinha, de apenas 18 anos, tornou-se, no início do mês, campeão do mundo de juniores em K1 200 metros, em Montemor-o-Velho.

Qual foi a primeira coisa que te passou pela cabeça quando soubeste que eras campeão mundial?

Foi um misto de emoções. Muita felicidade e emoção, senti que verdadeiramente todo o trabalho que fiz até à altura deu resultado. Foi uma das minhas maiores felicidades.

Ao entrar nesta competição, tinhas a confiança que ias tornar-te campeão mundial, ou foi uma completa surpresa?

Foi mesmo uma surpresa. Pensava lutar pelas medalhas, mas nunca o primeiro lugar. Havia pelo menos duas pessoas que achava que estavam a um nível bastante forte, então não estava certo se ia conseguir conquistar a vitória.

O facto de conheceres bem Montemor-o-Velho, onde participaste em outras provas, de alguma forma ajudou a conquistar esta vitória?

Acho que sim. Não só por conhecer a pista e o meio em que estávamos, e não só por “jogar” em casa, mas também porque consegui ter mais apoio de amigos e familiares. Acho mesmo que competir em casa me ajuda sempre.

O que conseguiste nesta edição que faltou em 2019, quando ficaste em segundo lugar no “Olympic Hopes”?

Foi muita coisa. Comecei a trabalhar muito mais do que trabalhava naquela altura, até com a ajuda do meu treinador. Comecei a levar o desporto muito mais profissionalmente, e comecei a perceber que para ser mesmo bom nisto, tinha de sacrificar algumas coisas. Agora, acho que esses sacrifícios que fiz para ficar mais forte valeram a pena.

Como foi a reação e dos atletas que ficaram em segundo e terceiro lugar? O Danil Platash conquistou o ouro no Mundial de sub-16, e agora ficou com a prata… não houve aí tensão?

Não. Estamos sempre a brincar. Há aquela rivalidade normal, e na altura ele comentou exatamente isso. Como tenho facilidade com inglês, mantenho contacto com americanos e canadianos, mas também com o Danil. É nestes mundiais que nos cruzamos mais.

Com que idade começaste a viajar para o estrangeiro para competir? Essa parte do trabalho foi difícil ou adaptaste-te bem?

A minha primeira prova internacional foi em 2018, na regata dos Olympic Hopes, na Polónia, em Poznan. Senti-me estranho, no mínimo, em ir para fora de casa fazer uma prova. Mas foi uma experiência bastante boa. A partir daí, as provas internacionais foram sempre um bocadinho melhores. Na altura também ajudou o facto de ter ido comigo o selecionador da equipa, André Coelho.

Alguma vez te contactaram de um clube internacional?

Nunca tive nenhuma proposta. Era uma ideia gira, mas também gosto muito do meu clube, o Amora, que é muito bom, está no topo. Faz o que pode com as instalações que tem, que vamos mudar, e o meu treinador, Nuno Henriques, é excelente. Mesmo trabalhando com tanta gente, ele consegue ajudar todos.

Há quantos anos treinas, e o que te levou a entrar nesta modalidade?

Comecei a treinar há 8 anos, portanto à volta dos 10 anos de idade. A minha escola teve uma parceria com o clube e experimentei. No início, gostei por ser uma modalidade de Verão.

Em que momento começaste a sentir que podias fazer uma carreira no desporto?

A minha primeira competição internacional caiu-me como uma bomba. Nunca pensei ser chamado para a seleção… nunca estive muito à espera de ser o topo do país, mas foi nessa altura, em 2018, que pensei que se calhar conseguia fazer isto à séria e ser dos melhores do mundo.

Conta-nos como são os teus dias. Quantas horas treinas, que cuidados tens…

Acordo por volta das 5h da manhã, para ir treinar às 6h. Depois teria a escola, e agora vou mesmo ter com a faculdade. 

Vais agora entrar na faculdade, é?

Sim, vou estudar Biomédica na NOVA.

Mas na altura da escola, como eram os hábitos?

Treinava cerca de três horas por dia. Depois de sair da escola ia sempre fazer mais duas sessões de treino, e só lá para as 22h é que chegava a casa. Em relação às medidas que tomo para manter o nível, tenho muito cuidado com a alimentação e com o que tomo para o meu corpo, e muita atenção e cuidados com a minha sanidade e saúde mental.

Como é que cuidas da saúde mental?

A minha saúde mental é muito afetada, desportivamente, pela desmotivação. Manter-me constantemente motivado para fazer melhor nos treinos, durante tanto tempo, é difícil. Mas para isso tenho ajuda de psicólogos.

Como equilibras a vida de atleta profissional com a escola?

É muito difícil organizar tudo, mas acho que com a ajuda tanto da minha família e de toda a gente que me tem apoiado, tenho conseguido. A minha família e os meus amigos são os meus maiores fãs.

Quais são os teus sonhos neste momento, agora que és campeão mundial?

Tenho na mira conseguir ir aos próximos mundiais sub-23, e claro que o objetivo mais longínquo e um dos meus maiores sonhos é ir aos Jogos Olímpicos.

Como é que um atleta que atinge o sucesso tão jovem consegue manter essa fasquia tão alta ao longo dos anos?

Acho que é manter o trabalho árduo, acima de tudo, e continuar com a motivação de querer fazer melhor e ser mais forte. Eu gosto pelo menos de dizer a mim mesmo que tenho de ser melhor do que fui no ano passado. E tento bater os meus recordes a cada prova que faço. Neste Campeonato do Mundo cheguei a bater o meu recorde pessoal, e estive bastante perto do recorde de mundo. Gosto genuinamente do meu desporto e de me sentir bem e livre nele, que é uma das maiores sensações que tenho.

Em casa, como foi a reação quando decidiste dedicar-te profissionalmente à canoagem?

O meu pai praticou muitos desportos mas nunca “à séria”, e a minha mãe, não tenho ideia que tenha feito algo também assim parecido. Ainda assim, acho que eles nunca duvidaram de mim, apoiaram-me sempre. Para eles é difícil conciliar o trabalho com os nossos treinos. Ir às seis da manhã é bastante cansativo… mas é mesmo isso que eles fizeram por mim, além de me ajudarem tanto psicologicamente como fisicamente.

És praticante de algum outro desporto?

Já fiz outros desportos, como futebol, futsal, karaté e natação. Estou mais virado para os desportos de água. Na natação, comecei muito cedo, então cansei-me rapidamente… e na canoagem, nunca tive esse cansaço.

Como te aguentaste durante estes últimos dois anos com a pandemia? Treinavas em casa? Como mantiveste a forma?

No início da pandemia e nas primeiras quarentenas, estivemos mesmo parados, e foi muito difícil manter o nível, mas depois com a abertura e os primeiros desconfinamentos pudemos voltar a treinar, e aí voltamos mais frequentemente. Para manter a forma foi muito difícil, tive que fazer treinos mais em casa, comecei a realizar treinos mais de ginásio, tipo cross-fit. Comprei também uma máquina de remo e fui mantendo isso. Mentalmente, essa altura foi bastante difícil, porque sem ir treinar ou sem me deslocar para a Amora foi difícil… mantive-me focado pelo facto de querer conquistar algo maior, e acho que foi isso que manteve a chama acesa durante essa altura.

Olhando à tua volta, o que sentes que consegues melhorar sobre ti e sobre o teu desempenho como atleta?

Confesso que não sei… nós tomamos mais ou menos conta de nós próprios, portanto não é tanto à minha volta mas interiormente. Se fosse melhorar algo, seria algo técnico...

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