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21 de setembro de 1949. Júlio, o motorista apepinador, fez o agente Vidal perder os estribilhos

21 de setembro de 1949. Júlio, o motorista apepinador, fez o agente Vidal perder os estribilhos

Afonso de Melo 21/09/2021 20:52

O polícia levou a vivacidade do motorista que estacionara a camioneta numa das artérias mais movimentadas do Porto. Não descansou enquanto não lhe fez chegar a casa uma contra-fé. O juiz, esse, não estava pelo ajustes.

O guarda Vidal, polícia de trânsito e sinaleiro, não era mau homem mas estava com os azeites. Vai daí pensou que Júlio Rodrigues Raimundo, motorista de cargas e descargas, andava a mangar com ele. A coisa explica-se de uma penada. O sr. Rodrigues entrou com a sua camioneta numa rua estreita do Porto e deixou-a à trouxe-mouxe estacionada à frente de uma mercearia atrapalhando o tráfego. O agente Vidal cerrou os sobrolhos. Deu-lhe um grito de furar tímpanos: “Tire daí essa porcaria imediatamente!!!”. Júlio, fresquinho, bem disposto, tipo de chalaça fácil, continuou a descarregar sacas de feijão: “É um minutinho senhor guarda. Não se aborreça. Um minutinho. Já me despacho!” Na verdade gostava de irritar o próximo. Era um apepinador por natureza. Com um sorriso matreiro, saltou para o volante e arrancou com um aceno.

A irritação do guarda Vidal subiu uns graus no termómetro. Tirou o número da matrícula e dirigiu-se à esquadra para saber quem era o malandro do proprietário. Não estava para enfiar barretes. Eram quatro horas da tarde e a diligência foi rápida. Pouco depois, já o agente Vidal tinha a nome e a morada do tal Júlio Rodrigues Raimundo, apreciador da sua boa palhaçada.

O Júlio despachou-se cedo do serviço e convidou uma malta amiga para jantar lá em casa, um dos petiscos da mulher: carne de porco com migas. Eram cerca das 11 da noite quando tocaram à porta do casal Raimundo, interrompendo a conversa agradável – entregaram a Júlio uma contrafé, dando-lhe ordem e prazo para comparecer perante as autoridades. Já com uns bagacinhos no bucho, eis que o novo prevaricador enche a peitaça de valentia e vai, logo ali, naquele minuto, desfazer o mal entendido. Ora, para a polícia que o recebeu na esquadra, o entendido (e registado) foi que o sr. Júlio Rodrigues Raimundo entrou em desobediência à autoridade, além de se encontrar absolutamente embriagado. Recolhido a uma cela, acordou estremunhado para se ver presente ao sr. dr. juiz Bettecourt da Câmara que procedeu à inquisição. O juiz era um homem pacífico e não esteve pelos ajustes perante a raiva contida do polícia Vidal: “Oiça, não terá o acusado terá entendido a sua ordem de forma literal? Nesse caso não fugiu de si. Limitou-se a fazer o que o sr. mandou. Ou não será assim?” Vidal gaguejou: “Pois, Vossa Excelência... se calhar...” Júlio foi mandado para casa em paz e sossego. Obedecera a duas ordens: tirara o carro do caminho e respondera à contrafé. Apareceu na esquadra a cair de borracho? Sim. senhor. Mas não havia lei para castigar os que se embebedam em casa com os parceiros. Justiça ficasse feita!

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