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Wrapped. Um "presente" para Christo

Wrapped. Um "presente" para Christo

AFP Sara Porto 17/09/2021 11:45

Marco histórico francês, o Arco do Triunfo já se encontra totalmente envolto em 25 mil metros quadrados de tecido. Porquê? Porque quando morremos, não levamos tudo… Deixamos sonhos. Christo imaginou-o, planeou-o, mas não o materializou. Agora, um ano após a morte do artista búlgaro, o projeto tornou-se real.

“Christo e Jeanne-Claude acreditavam que o seu trabalho era basicamente sobre liberdade. Ninguém pode possuir esta nem outra obra de arte! Nem mesmo eles!”, afirmou em entrevista ao The Guardian Vladimir Yavachev, sobrinho do artista búlgaro e responsável pelo projeto L’Arc de Triomphe, Wrapped. E talvez seja precisamente isso que os artistas desejaram em cada uma das suas obras: “Acreditavam que cada um dá o significado que quer à arte e todos os significados são importantes e corretos”, acrescentou.

A instalação Wrapped No dia 12 de setembro, pouco depois de o sol nascer sobre o centro da capital francesa, deu-se início à etapa final da obra póstuma do artista Christo no monumento parisiense construído no início do século XIX para celebrar as vitórias militares de Napoleão. Os preparativos começaram no final de junho e arrastaram-se pelo verão sob a direção de Yavachev com o apoio do Centro de Monumentos Nacionais.

Nessa manhã, a primeira “mancha laranja” avistou-se no cimo do Arco do Triunfo. Era o primeiro dos 95 técnicos envolvidos no projeto, pendurado em cordas – a 50 metros do solo – que começou a fazer rapel no marco, desenrolando uma faixa de tecido azul prateado que brilhava na luz do amanhecer. Segundo o jornal britânico, houve quem batesse palmas, mas a maioria das pessoas que assistiam “simplesmente susteve a respiração” enquanto assistia à operação “lenta” e “meticulosa”. Os rolos de tecido de polipropileno reciclado começaram a ser desenrolados como ondas que, mesmo depois de rebentarem na areia, mantêm o movimento, enquanto as “manchas laranjas” se multiplicavam, como se o espetáculo fosse começar. Ao entusiasmo e emoção, juntavam-se os nervos por se tratar de uma operação que combina arte e engenharia em grande escala. “Será como um objeto vivo que ganhará vida com o vento e refletirá a luz”, explicara Christo ao apresentar o seu projeto final, um ano antes da sua morte, em 2020.

Um projeto antigo O projeto do artista búlgaro e da sua mulher, Jeanne-Claude, começou a ser desenhado em 1962, depois de o casal se ter mudado para um pequeno apartamento situado na avenida Foch, em Paris. Mas acabaria por ser abandonado porque o casal, que passou a assinar em conjunto a partir de 1994, nunca acreditou que conseguiria a autorização necessária das autoridades que gerem o património francês. Após a perda da sua esposa, em 2009, Christo decidiu apresentar o projeto ao Centro dos Monumentos Nacionais francês, que acabou por aprová-lo como “um testemunho do seu envolvimento com a criação contemporânea”, numa operação apoiada pelo Centro Pompidou, que preparava então uma exposição sobre Christo. O artista, mundialmente conhecido pelos seus emblemáticos “embrulhos”, já havia feito uma fotomontagem na década de 60, de como desejava ver o projeto realizado, mas a ideia ficou em stand by até 2017.

Depois da sua morte o trabalho estava, por isso, facilitado: Christo deixou os desenhos minuciosamente detalhados e instruções que cobriam todos os aspetos visuais e artísticos de como queria que o arco ficasse. Só faltava realizá-lo.

“Esta é a visão de Christo e Jeanne-Claude e é muito importante prestar atenção a cada detalhe, tal como eles desejavam”, sublinhou o sobrinho do artista. “Foi totalmente desenhado por ele até ao último detalhe e tivemos de mantê-lo assim. Se as pessoas o virem e disserem que é igual aos seus desenhos, isso significa que fizemos um bom trabalho”. Vladimir Yavachev acrescentou que “uma coisa muito importante é a possibilidade das pessoas poderem ir até ao local e tocar no material”, valorizando o facto de ser uma “obra viva que dança com o vento”.

Também ao Guardian, em 2019, Christo adiantou que tinha sido convidado a fazer “alguma coisa” fora do Centro Pompidou para coincidir com a sua exposição. Porém disse ao museu: “Nunca farei nada aqui. Se fizer algo, será envolver o Arco do Triunfo, mas nada mais”.

Aquilo que não esperava – reconheceu mesmo ter-lhe sido “difícil acreditar” – foi a autorização para avançar com o projeto. “Na década de 60 fiz vários planos que vendemos para financiar outros projetos. No final da década de 80 até fiz uma edição de colagem muito elaborada com tecido. Pensávamos naquela época que o projeto do Arco do Triunfo nunca veria a luz do dia. Nunca pensei que isso fosse acontecer, mas quero que se saiba que muitos desses projetos podem ser construídos sem mim. Já está tudo escrito”, revelou. Em 1985, o artista plástico já tinha embrulhado a Pont-Neuf, uma das pontes parisienses que cruzam o rio Sena.

Tal como os seus anteriores “embrulhos”, o projeto para Paris, que tem um orçamento de 14 milhões de euros, é inteiramente autofinanciado e não recebe fundos públicos, tal como explica o site dos artistas: “Financia-se através da venda de obras originais de Christo, desde desenhos preparatórios a colagens, pequenas maquetes, passando por litografias”.

A EFEMERIDADE DAS OBRAS DE CHRISTO O casal de artistas conceptuais embrulhou outros monumentos emblemáticos como o Reichstag em Berlim (1995). Outra obra marcante foi a estrutura flutuante, The Floating Piers, uma passagem no Lago Iseo, em Itália, que permitiu a experiência de andar sobre a água.

Estas instalações temporárias são projetos que levam décadas a conceber e a produzir. Apesar de efémeras, perduram anos na memória dos espectadores pela escala e caráter inusitado. Nas palavras de Christo: “Temos de tomar emprestado o espaço [urbano] e introduzir nele metamorfoses suaves por alguns dias”.

L’Arc de Triomphe, Wrapped será oficialmente inaugurado no dia 18 de setembro. A 3 de outubro começarão os trabalhos para remover o embrulho a tempo para as cerimónias do Dia do Armistício, 11 de novembro, que celebra o fim da Primeira Guerra Mundial. Funcionários do monumento de Paris supervisionaram toda a instalação para garantir que não deixasse qualquer marca.

A MEMÓRIA DO ARTISTA Interrogado sobre como foi realizar o projeto sem o seu tio, Vladimir Yavachev afirmou: “De momento, estamos concentrados no trabalho e a adiar os sentimentos para mais tarde. É uma espécie de terapia. Concentro-me em algo para não pensar noutra coisa. Claro que o maior desafio para mim é mesmo o Christo já não estar aqui. Tenho saudades do seu entusiasmo, das suas críticas e da sua energia”, revelou o sobrinho do artista, que trabalhava com ele desde os 17 anos.

Para Bruno Cordeau, administrador do Arco do Triunfo, “acompanhar a instalação de uma obra como esta, nas atuais circunstâncias, é mágico”. “A embalagem da Pont-Neuf foi um momento fora do comum. É isso que vamos vivenciar aqui mais uma vez”, acrescentou. “O Arco do Triunfo não é um monumento como os outros. É o da harmonia nacional. É também um lugar de cultura. A obra de Christo tem a elegância e a humildade de ser efémera”.

Por sua vez, Vince Davenport, consultor de engenharia que acompanhou o artista búlgaro ao longo de 35 anos, sublinhou: “O desafio de qualquer projeto de Christo é que é sempre ‘uma primeira vez’. Isto nunca foi feito antes e nunca será feito novamente”.“É muito emocionante. Só gostaríamos que ele cá estivesse para ver isto”, acrescentou.

A QUESTÃO CLIMÁTICA No sábado, antes de se dar início à fase final da obra, o jornal francês Le Monde publicou um artigo de opinião assinado pelo arquiteto Carlo Ratti, amigo dos artistas, intitulado “Para honrar Christo, desempacotem o Arco do Triunfo!”. Apesar de homenagear o trabalho do artista lembrando “como os seus olhos bondosos brilharam” ao partilhar o projeto do monumental trabalho “flutuante” embalado pelas águas do Lago Iseo, Ratti apela a que se reflita sobre estes objetos artísticos que “glorificam o empacotamento, um símbolo da sociedade de consumo”. O amigo do casal interroga se, no plano ambiental, nos podemos permitir desperdiçar 25 mil metros quadrados de tecido: “A indústria da moda é responsável por 10% das emissões mundiais de carbono e o processo de produção de tecidos é o segundo maior consumidor de água do mundo onde o stress hídrico afeta 2,7 mil milhões de pessoas”. Frisava que apesar de o Arco do Triunfo estar envolvido em tecido reciclado, isso “não é suficiente”. Ratti sublinhou ainda que ao contrário das grandes guerras do século XX, a crise climática deste século ainda não conseguiu “agitar mentes”: “Enquanto procuramos escapar de uma sociedade de consumo excessivo no Ocidente, devemos abandonar também a estética de embalagens com alto teor de resíduos”, defendeu.

 

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