22/10/21
 
 
Imagine. Cinco décadas a imaginar a utopia de John Lennon

Imagine. Cinco décadas a imaginar a utopia de John Lennon

Hugo Geada 14/09/2021 22:56

Criado na fase conturbada do fim dos Beatles, “Imagine” tornou-se um hino à utopia. Cinquenta anos depois, pode dizer-se que cumpriu os desígnios do músico.

Há quem venere a canção e conheça a sua letra, acordes e melodias de cor. Há quem a odeie, a considere sobrevalorizada, exageradamente comercial e até contraditória com as ações do seu autor. Mas a verdade é que quando ouvimos a palavra “Imagine”, mesmo que não seja seguida de “there’s no heaven” ou “all the people”, é impossível não nos lembrarmos da música de John Lennon e do disco homónimo que celebrou o seu 50º aniversário no passado dia 9 de setembro.

“O John Lennon é a palavra imagine”, disse, 49 anos depois do lançamento do single, Noah Lennox, de nome artístico Panda Bear, ao músico inglês Pete Kember, ex-membro da influente banda dos anos 1990 Spacemen 3 e que atualmente cria música com o nome artístico Sonic Boom, que recordou esta conversa ao i, em junho do ano passado, numa entrevista feita sobre o seu último disco, All Things Being Equal, questionado se o título da música Just Imagine era inspirado no trabalho do ex-Beatle.

Além de Panda Bear, Kember recordou que também a sua esposa, Sam, estava reticente com o uso da palavra que se tornou sinónimo de John Lennon e disse-lhe que ele “não a devia usar” no título da canção, um conselho que o músico inglês ignorou.

“Penso que o John e a Yoko Ono não se atreveriam a intitular-se donos da palavra imagine, isso seria contra tudo aquilo que a música representa”, explicou. “Todas as pessoas conhecem a Imagine, mas não sabem o que se está a passar com a letra”, acrescenta.

É importante recordar esta conversa para perceber como, apesar de Kember possuir uma carreira com quase 40 anos de atividade e de ser uma referência para inúmeras gerações de músicos, o impacto de “Imagine” continua a influenciar o seu trabalho e as suas decisões.

“Dizer em 1971 ‘Imagine there’s no heaven/ It’s easy if you try’ é muito poderoso, tendo em conta que, anos antes, ele tinha dito que os Beatles ‘eram mais populares que Jesus’ e as pessoas ameaçaram-no de morte”, afirmou Kember. “Ou dizer ‘Imagine there’s no countries/ It isn’t hard to do’, acho que é uma ideia brilhante. Eu não acredito em territórios soberanos, acho que não faz sentido, nós vivemos num único planeta e temos de parar de nos dividir e de lutar por territórios. Sinto que os Beatles, mesmo a solo, lançaram álbuns muito bons e espirituais que colocaram muita magia na vida das pessoas e, para mim, foram uma grande influência”, confessou.

“Imagine” foi interpretada e reinventada pelos mais variados músicos, desde os Queen a David Bowie, de Madonna a Lady Gaga, até chegou a ser interpretada por Bill Clinton no aniversário de um ministro dos negócios estrangeiros israelita, mas o legado do single vai muito para lá da música. Surgiu no filme Forrest Gump (as más-línguas dirão que foi o personagem interpretado por Tom Hanks que deu a ideia para a letra a Lennon) e tornou-se uma das músicas oficiais da Amnistia Internacional.

Incrível as repercussões que uma música inutilizada de uma sessão de gravação do álbum Let It Be teve no mundo.

“Foi como encontrar ouro” Tudo começou em 1966, Lennon visitou uma exposição da mulher que viria a ser sua futura esposa, Yoko Ono, e quis estrear uma obra de arte chamada “um Martelo e um Prego”, espetando um prego. Mas a artista, que queria que tudo estivesse intocado para a inauguração no dia seguinte, resistiu.

A realidade é que Ono nem sequer reconhecia Lennon, uma das maiores estrelas do mundo na altura. “Eu já tinha ouvido falar dos Beatles e conhecia o nome Ringo (quer dizer maçã em japonês), mas não sabia exatamente quem ele era. Conhecia os Beatles como um fenómeno social, mas o rock ‘n’ roll passou-me ao lado”, disse numa entrevista para o livro Imagine John Yoko. Por fim, resolveu aceitar se ele lhe comprasse um quadro.

“Eu disse: pago-te em xelins imaginários e uso um martelo com um prego imaginário, pode ser?”, recordou Lennon, uma brincadeira que foi bem recebida por Yoko, que também entrou no jogo.

Este seria um momento-chave na vida de Lennon: tinha acabado de conhecer a pessoa que o fez voltar a interessar-se em arte.

Um trabalho em particular, um poema do livro ‘Grapefruit’, publicado em 1964, seria essencial na criação de “Imagine”. “Imagine the clouds dripping, dig a hole in your garden to put them in; Imagine letting a goldfish swim across the sky; Imagine one thousand suns in the sky at the same time”, pode ler-se no livro.

“Sempre tive o sonho de conhecer uma mulher artista por quem me apaixonasse. Foi como encontrar ouro”, recordou Lennon. “Ver a sua exposição desbloqueou algo em mim. Foi aí que voltei a interessar-me por arte, apenas através do seu trabalho”.

Yoko foi uma peça chave para escrever aquela que viria a tornar-se uma das mais famosas músicas de Lennon. Embora tenha colaborado, nunca recebeu créditos pela canção.

“A Imagine nunca poderia ter sido escrita sem a Yoko. Ela ajudou-me imenso a escrever a letra, mas não fui homem suficiente para lhe dar crédito. Apesar da música ter sido escrita por ambos, fui demasiado invejoso e inconsciente do seu contributo para reconhecer o seu trabalho”, disse o músico, citado na BBC.

“A música expressa tudo aquilo que aprendi quando estive com a Yoko e os meus sentimentos sobre a nossa relação. Ela devia ter recebido os créditos para a música porque contribuiu imenso para a canção”, refletiu Lennon, durante a entrevista para o livro. Este desejo acabaria por ser realizado décadas depois da sua morte – em 2017, Yoko finalmente seria incluída nos créditos da música.

Manifesto “com um pouco de mel” Outra figura decisiva para o nascimento da música foi o comediante e ativista pelos direitos civis norte-americano, Dick Gregory. Gregory ofereceu a Lennon um livro de preces cristãs que se focava no conceito de orações positivas.

“O conceito de oração positiva passa por imaginar um mundo em paz sem denominar religiões, sem a ideia de que ‘o meu Deus é maior que o teu Deus’”, disse Lennon numa entrevista à Playboy, em 1980. “Uma vez a Igreja Mundial ligou-me e pediu-me: ‘Podemos usar a letra da Imagine, mas mudar a letra para ‘imagina uma religião’?’. Isso mostrou-me que as pessoas não compreenderam a música. Isso iria derrotar todo o propósito da canção, toda a sua ideia”.

Mas não nos adiantemos demasiado. Estávamos a falar da conceção da música e do disco. A letra de “Imagine” começou a ser escrita quando Lennon ainda era membro dos Beatles, durante as sessões do malogrado disco Let It Be, o álbum que assinalou o final dos Fab Four, em 1970, mas só viria a ser concluída um ano depois.

John estava a trabalhar no seu segundo álbum a solo. O primeiro disco, John Lennon/Plastic Ono Band, tinha sido recebido com enorme sucesso e é considerado por alguns especialistas como o melhor disco a solo do músico. Quando Lennon se sentou no piano branco que tinha oferecido à sua esposa, montado numa sala da sua propriedade em Tittenhurst Park, no condado de Berkshire, em apenas três tentativas criou o seu maior sucesso.

Juntamente com o homem que viria a tornar-se baterista dos Yes, Alan White, o antigo colaborador dos Beatles, Klaus Voorman, o pianista Nicky Hopkins e o produtor Phil Spector – que morreu no início do ano, na cadeia, condenado pelo homicídio da atriz Lana Clarkson –, os músicos instalaram-se no estúdio caseiro de Lennon, e gravaram Imagine. A acústica do Tittenhurst Park não agradava ao produtor.

Das três tentativas, uma incluía Nicky a acompanhar Lennon ao piano, mas a tocar uma oitava acima da sua voz. Apesar do estilo maximalista de Spector, muito presente na gravação do primeiro disco a solo, All Things Must Pass, de outro ex-Beatle, George Harrison, os músicos concordaram que quantos mais elementos se adicionassem a “Imagine” mais esta perdia a sua “magia”.

“Nós sabíamos o que íamos fazer. Era o John a criar um statement político, mas muito comercial”, disse mais tarde o produtor. “Sempre imaginei a Imagine como um hino nacional”, confessou Spector.

“Agora compreendo o que tenho de fazer. Passar a minha mensagem política com um pouco de mel”, explicou Lennon sobre aquele que acabou por ser o seu single mais bem-sucedido de sempre.

A carreira de Lennon, apesar de marcada por belas músicas de amor, desde “I Wanna Hold Your Hand”, do álbum Love, estava numa fase em que se destacavam as músicas de intervenção, como “Give Peace a Chance”, “Power to the People” ou “Happy Xmas (War is Over)”, com uma mensagem de revolta bem direta. “Imagine” era a “antítese de uma chamada às armas”, nota o site Genius.

Trata-se de um manifesto utópico do mundo ideal de John Lennon, onde pessoas colocam de lado a religião, os limites geográficos, os seus pertences, a guerra (recordar que o conflito do Vietname estava no seu auge) como forma de finalmente viverem num mundo pacífico.

Milionário sem posses O disco foi lançado no dia 9 de setembro e teve um impacto esmagador que transcendia o sucesso financeiro.

Paul McCartney, que tinha todas as razões do mundo para repudiar este disco, era alvo de fortes críticas na música “How Do You Sleep?”, faixa oito de Imagine, reconheceu que a faixa tinha tudo para “arrasar” quando a ouviu pela primeira vez.

O vocalista dos U2, Bono, confessou que este disco foi a razão para ter iniciado a sua carreira.

No entanto, apesar de uma grande massa estar completamente siderada pelas utopias de Lennon, havia (e há) quem desvalorizasse por completo a tentativa do músico de criar este manifesto pacifista e não-materialista.

“Was it a millionaire who said imagine no possessions?”, pode ouvir-se na letra de “The Other Side of Summer” de Elvis Costello, confesso admirador do trabalho de Lennon, mas que apontou a hipocrisia de um homem cantar sobre não ter posses quando se deslocava num Rolls-Royce personalizado e vivia numa mansão.

Esta crítica levou o músico a mudar a letra da canção várias vezes em palco, em vez de apontar o dedo aos outros com “Imagine no possessions / I wonder if you can” o músico passou a falar no plural: “Imagine no possessions / I wonder if we can”.

Críticos mais conservadores também repudiavam a canção pelos seus ideais comunistas, algo que o músico sempre rejeitou. “Imaginar que não existem mais religiões, mais países, mais políticas é virtualmente o Manifesto Comunista, apesar de eu não ser particularmente comunista e não pertencer a nenhum tipo de movimento”, disse à NME.

Até o facto de a música não ser uma convocatória mais direta para assumir a revolução, como algumas músicas do seu passado, foi alvo de críticas a Lennon, comentário que críticos costumam remeter para outras faixas deste disco como “I Don’t Wanna Be a Soldier Mama”, sobre o sofrimento que os jovens americanos sofrem ao ser chamados para combater na guerra do Vietname, ou “Gimme Some Truth”, música utilizada de forma eximia no final da série The Loudest Voice, sobre o controverso ex-presidente da Fox News, que pede a verdade a todos os “neuróticos, psicóticos, políticos com cabeça de porco”, referindo diretamente Tricky Dicky, alcunha de Richard Nixon, e que conta ainda com um impressionante solo de guitarra do ex-companheiro dos Beatles, George Harrison.

Esta não foi a única música alvo de críticas. “Imagine” foi escrita durante o conturbado final da banda, com Paul McCartney a colocar os Beatles em tribunal, por isso Lennon usou o seu ressentimento para escrever “How Do You Sleep?”, uma faixa que serviu como resposta a “Too Many People”, do disco Ram de McCartney, também editado em 1971, que criticava Lennon e Yoko.

Em “How Do You Sleep?”, Lennon acusava o baixista dos Beatles de ser um “menino da mamã”, de a única boa composição ser “Yesterday”, de ser apenas uma cara bonita e chega inclusive a dizer que os conspiracionistas que afirmavam que McCartney estava morto tinham razão, ele já tinha morrido criativamente.

Apesar de Harrison contribuir novamente nesta faixa, nem todos os Beatles concordavam com esta música. Numa visita ao estúdio para ouvir o disco, o ex-baterista dos Beatles, Ringo Starr disse a Lennon que ele tinha ido “longe de mais” e aconselhou-o a “limpar” um pouco a música.

“Músicas que vão viver mais tempo que eu” Apesar de todas as críticas, das mudanças em concertos, John sempre defendeu a sua criação como apenas um exercício de imaginação positivo. “O George Orwell e todos estes escritores projetaram uma visão bastante negativa do futuro”, explicou Ono.

“Imaginar uma projeção é um poder mágico muito poderoso. Foi assim que a sociedade foi criada. Por isso, enquanto alguns criam sociedades através de imagens bastante negativas, nós tentámos fazer o mesmo, mas com mais imagens positivas o que irá criar algo completamente diferente”, disse a artista.

“Tudo o que queríamos fazer era dizer: vamos imaginar um belo futuro”, afirmou numa entrevista Lennon, e a verdade é que, apesar de não ter conseguido materializar a sua utopia, a sua música inspirou pessoas em todos os cantos do mundo.

Desde 2006, em todas as passagens de ano em Times Square, na cidade de Nova Iorque, ouve-se “Imagine”; nas cerimónias de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, assim como no encerramento da edição de 2018, em Pyeongchang, foi esta a música que marcou os certames; no dia depois do atentado terrorista no Bataclan, em 2015, onde morreram 137 pessoas, um pianista arrastou o seu instrumento e tocou “Imagine” perto do local onde aconteceu o ataque.

A utopia de John Lennon continua um sonho atual, apesar de, por vezes, continuar a ser mal interpretada. No ano passado, um grupo de celebridades abastadas, como Gal Gadot, Natalie Portman, Kristen Wiig, Will Ferrel ou James Mardsen, decidiu que publicar um vídeo nas redes sociais a cantar esta música era a melhor maneira de ajudar as pessoas em dificuldade durante a pandemia de covid-19.

Mas é justo dizer que a música cumpriu os desejos do ex-Beatle.

“O meu maior prazer é escrever músicas que continuem a viver passado um par de anos”, pode ler-se em Imagine John Yoko. “Músicas que todos possam cantar. Músicas que, provavelmente, vão viver mais tempo que eu. Esse é o meu maior prazer. É o que mais me motiva”.

 

Ler Mais


Especiais em Destaque

×

Pesquise no i

×