28/9/21
 
 
Afonso de Melo 14/09/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Na esplanada do Café do Sol

Setembro é um mês estranho. Divide-se entre a nostalgia e o desapego. As pessoas que passam pela esplanada do Café Farol, na praia da Barra, em frente ao cilindro de 62 metros de altura às risquinhas brancas e cor-de-rosa, parecem estar apenas de passagem, talvez em busca de um resto de sol, agora que a nortada vem aí e o céu escurece mais cedo, ameaçando chuva. Estou aqui há dezenas de anos.

Não sei ao certo se é a altura de voltar a partir, em direção ao sul, se de ficar ainda mais um pouco, com a certeza de que, de repente, o sol nascerá glorioso na sua moldura de céu azul perfeito. Sei que, olhando para trás, as minhas vidas, todas elas, acabaram por dobrar, neste lugar mágico, as suas esquinas. Não me lembro de ser feliz por extenso, só a fiapos: pedaços de existência especiais, dias únicos e irrepetíveis, momentos que a memória jamais apaga. A memória dos sentimentos, quero dizer; não a dos factos, que essa trabalha vinte e quatro horas por dia.

O dia vai caindo para lá da praia velha, as ruas ficando cada vez mais vazias, é como se, de repente, eu caísse no preciso centro da solidão. E, no entanto, há o consolo do lugar onde aprendi a crescer, aprendi o significado da camaradagem e do amor. Não, nem todos os amores de Verão se enterram na areia. Há uns que vão escorrendo por entre os dedos de uma mão a fazer de conta de ampulheta. No Café Farol, conheço as pessoas pelos nomes há tantos anos que já podiam estar gastos: o Pedro, o Vasco, o Toni... O tempo veio e foi, e eles aqui numa espécie de garantia de que, quando tomar o lugar ao volante para regressar a Alcácer e a Lisboa, estarão no seu posto da próxima vez que me sentar nesta cadeira da qual, com a ajuda das lembranças, vislumbro toda a minha vida colorida de laranja e de vermelho como o sol que se dissolve no horizonte, seguro de que continuará a fazê-lo até que nada mais reste do que fui e reste apenas o que sou.

 


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