28/9/21
 
 
José Paulo do Carmo 10/09/2021
José Paulo do Carmo

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O novo escritório

Se antes da pandemia já se ensaiavam alguns conceitos de trabalho remoto e de flexibilização do horário de trabalho, agora depois de todas estas restrições e da alteração de hábitos a que fomos sujeitos, o caminho já não se fará para trás.

Dizia-me há uns tempos um amigo diretor de uma grande multinacional, que aproveitou o confinamento para comprar uma casa junto à praia, agarrou na sua família e por lá ficou até agora. Um ano e meio de qualidade de vida no Algarve, com espaço ao ar livre para os filhos brincarem e o mar mesmo ali ao lado. Agora já não quer voltar ao antigamente. Diz mesmo que se o obrigarem a voltar ao escritório a full time, como fazia, despede-se na hora e vai à procura de algo que o preencha mais e em que possa equilibrar as necessidades financeiras com esse usufruir do tempo, que nunca se tinha apercebido ser tão importante. Quando muito aceita um modelo híbrido, em que vai à sede quando for essencial mas que lhe permita trabalhar a partir de casa sem prejudicar o seu rendimento.

Não sou utópico ao ponto de pensar que todos temos dinheiro para de repente arrancar por aí e comprar uma casa na praia. Essa capacidade, sobretudo no nosso país, está ao alcance de muito poucos. Mas que o mercado de trabalho e o conceito de escritório nunca mais serão os mesmos, disso acho que ninguém tem dúvida. Se antes da pandemia já se ensaiavam alguns conceitos de trabalho remoto e de flexibilização do horário de trabalho, agora depois de todas estas restrições e da alteração de hábitos a que fomos sujeitos, o caminho já não se fará para trás. Algumas empresas, como a Google, já permitem o trabalho a partir de casa e começam a dar também a sexta-feira como início do fim de semana, prolongando o período de descanso de dois para três dias. Mas o que promete verdadeiramente vir a mexer com o mercado é o conceito de nómada digital.

Um nómada digital não é mais do que um trabalhador que usa a tecnologia para viajar e trabalhar ao mesmo tempo. Que só precisa de um laptop para executar o seu trabalho, e que por isso lhe é indiferente se está sediado aqui ou na China, desde que tenha internet rápida e estável. E é nesse sentido que já existem, um pouco por todo o mundo, ofertas em destinos paradisíacos que permitem estadias médias, para quem não se queira fixar no mesmo sítio e prefira ir conhecer vários destinos, sem deixar o seu trabalho. Com condições de excelência para que estes possam usufruir de uma qualidade de vida até aqui quase inimaginável, na expectativa de que aproveitando melhor o tempo a qualidade do que se faz possa também subir e por conseguinte a produtividade.

Desde aplicações que nos permitem trabalhar um dia em cada hotel de uma determinada cidade, às incubadoras criativas que se desenvolvem em rede e através de uma fidelização oferecem espaços em diversos países, a verdade é que o conceito de escritório mudou. Claro que para muitas profissões isto será irrealista. Não dá para imaginar um empregado de um restaurante, ou o proprietário de um talho ou da frutaria, a trabalhar à distância. Mas na realidade cada vez existem mais empregos que dependem única e exclusivamente de um computador. Estes para quem a vida é dinâmica têm agora a oportunidade de viver de uma forma mais consentânea com aquilo que sempre desejaram ou idealizaram. De poder fazer o que gostam, onde quiserem, às horas que lhes apetecer. Desde que o trabalho apareça feito, parece-me que todos têm a ganhar.


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