28/9/21
 
 
Nuno André 10/09/2021
Nuno André

opiniao@ionline.pt

Fogo que arde sem se ver

Por vezes afastamo-nos porque julgamos que já temos o brilho e o calor suficientes para uma vida inteira.

Terminadas as férias a maioria de nós retomou ou está em vias de retomar o seu trabalho.

Estou certo de que não apenas por causa da pandemia que nos afetou, mas também pela pausa que caracteriza as férias, muitos foram capazes de fazer visitas aos que lhes são queridos.

O ato de visitar implica a necessidade de nos inteirarmos do estado de espírito do outro, sendo reconfortante para quem é visitado receber atenção, companhia e, acima de tudo, tempo.

Aristóteles refere-se ao tempo como uma das maiores riquezas de que dispomos, aliás, considera que não é possível termos muitos amigos precisamente porque ter amigos requer tempo, pois é na disponibilidade recíproca que se criam verdadeiros laços e se alcança a intimidade que torna necessárias poucas palavras à compreensão entre os amigos.

 A propósito daquela ideia gostava de partilhar com os leitores uma breve história que, no meu entender, valerá o tempo aqui gasto:

Conta-se que um homem que se reunia regularmente com os seus amigos, deixou de o fazer sem aviso. Algumas semanas passadas, numa noite fria de inverno um dos membros do grupo entendeu fazer-lhe uma visita. Encontrou-o sozinho, sentado diante de uma lareira brilhante e acolhedora. Adivinhando a razão da visita, o homem deu-lhe as boas-vindas, convidou-o para se sentar junto ao fogo e de seguida fez-se um grande silêncio. Os dois amigos só contemplavam a dança das chamas em torno dos troncos que iam crepitando e se consumiam. Após alguns minutos, o visitante – sem dizer uma única palavra – examinou as brasas que se formavam e afastou a mais incandescente de todas, retirando-a para um dos lados do braseiro. Voltou então a sentar-se, objeto da atenção detalhada do seu anfitrião. Em pouco tempo a chama da brasa solitária diminuiu, até que, depois de um brilho momentâneo, o fogo se apagou. De repente, o que era uma amostra de luz e de calor passou a um negro, frio e morto pedaço de carvão. Poucas palavras tinham sido ditas desde a saudação. O visitante, antes de se preparar para sair, pegou no carvão frio e inútil e colocou-o de novo no meio do fogo. A brasa voltou a acender-se de imediato, alimentada pela luz e calor dos carvões que ardiam ao seu redor. Foi então que anfitrião lhe disse: ′′‘‘Obrigado pela tua visita e pela lição. Amanhã volto a estar convosco”.

Por vezes afastamo-nos porque julgamos que já temos o brilho e o calor suficientes para uma vida inteira. Também pode acontecer afastarmo-nos pela vontade de brilhar, para que todos possam ver a nossa luz, o nosso brilho. Porém, não percebemos que eles – luz e brilho – só se formaram por estarmos juntos a outros pedaços de carvão.

É evidente que a madeira tem de ser boa também…

 

Professor e investigador


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