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Carlos Gouveia Martins 09/09/2021
Carlos Gouveia Martins

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O novo Mundo faz 20 anos.

Incontornável. Este sábado assinalamos 20 anos sobre o 11 de setembro de 2001. Recordaremos sempre esta data como o “dia 1” de um Novo Mundo. Um mundo menos tolerante, menos cooperante, mais dividido e eternamente mais desconfiado. É uma dinâmica evolutiva igual a qualquer outra passada: É única.

Nunca é demais recordar os números que sustentam o medo persistente de pessoas que ficou associado a esta data fatídica. Falamos de um conjunto de atentados terroristas, levados a cabo por uma organização fundamentalista islâmica, coordenados contra os Estados Unidos da América. A história marcou como sendo 19 o número de terroristas que sequestraram 4 aviões comerciais de passageiros. Começando pelo fim, o pior, dizer que não houve nenhum sobrevivente em qualquer um dos voos sequestrados.

Intencionalmente, estes ataques suicidas levados a cabo pela al-Qaeda (fundada em 1988 por Osama bin Laden) foram embater contra as duas Torres Gémeas do icónico World Trade Center, em Nova Iorque, sendo que o segundo avião sequestrado embateu as 9:03 dessa manhã. Desses dois embates, duas horas depois apenas, caíram ambos os arranha-céus.

O terceiro avião sequestrado colidiu contra o Pentágono, a sede da Defesa Nacional Americana, perto de Washington DC, enquanto o quarto avião caiu em campo aberto, perto de Shanksville, na Pensilvânia.

Nesta série de ataques suicidas perderam a vida quase 3.000 pessoas. A esmagadora maioria, claramente, eram simples civis, estimando-se o impacto em 70 nacionalidades diferentes. Também a nacionalidade portuguesa.

Estavam no local errado à hora errada 5 portugueses, mais precisamente no World Trade Center, tendo perdido a vida: António Rodrigues, Carlos da Costa, João Aguiar Costa, Manuel da Mota e António Rocha.

O mais novo tinha 30 anos e o mais velho tinha apenas 43 anos de idade.

Mas não era sobre relatar factos, já conhecidos, que devíamos refletir.

Deve o mundo pensar sobre o “muro da intolerância” que se agigantou e que muitos ajudaram a construir ainda mais a partir desse dia. Até pode ser, com base nas reivindicações ideológicas, algo mais crente que ficou nas nossas vidas, mas será sempre algo muito menos religioso. Disso não há dúvida, sejamos ocidentais ou orientais.

Outros dirão, com natural base histórica de suporte, que esse dito “muro” se levantou três décadas antes com a invasão soviética (1979-1989) em solo afegão e com o surgimento posterior, após a saída das tropas soviéticas, de organizações como os Talibãs.

Recordemos que esse movimento nacionalista-fundamentalista se difundiu no Afeganistão (e Paquistão) após 1994 sendo, inclusive, posteriormente Governo Afegão (com resistência em cerca de 25% do país) entre 1996 e 2001. (Nota para dizer que este governo Talibã apenas foi reconhecido por três países: Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Paquistão.)

O papel dos Estados Unidos da América nesse “muro de intolerância”? Foi quem, através da CIA e de uma operação chamada Ciclone, decidiu carregar de forte armamento os mujahidins do Afeganistão. Juntamente com os serviços secretos do Paquistão, a CIA Americana combateu os soviéticos até à sua saída a 15 de fevereiro de 1989. Acabou a invasão, mas não acabou bem a história afegã.

Entre uma guerra civil posterior de 1992 e um autêntico estado de caos em 1994, nasceu de boa vontade (acabar com os grupos organizados criminosos, desarmar os pequenos grupos e combater o crime) os então modestos Talibãs. Quanto ao que praticaram, esses fundadores (cerca de 50 estudantes muçulmanos), veio a revelar-se o oposto do que apregoaram na sua criação, algures entre as localidades de Khandahar e Sansigar.

Creio que o resto da história, até aos episódios mais recentes já de 2021, todos conhecemos. Ficamos agora no novo capítulo, registado neste dia 17 de agosto de 2021, após duas décadas afastado do poder, quando os Talibãs retomaram o controlo do Afeganistão ao conquistarem pela força a capital Cabul, derrubando o governo central afegão.

Como vemos, o 11 de setembro de 2001 não foi apenas uma data isolada sem história envolvente. Teve e tem muito que ler, perceber e tolerar.

Mas faz 20 anos, agora, a data mais marcante para o novo mundo em que vivemos.

20 anos sobre os ditos “valores ocidentais” que advogam ao Ocidente a liberdade, os direitos humanos, a democracia e o Estado de Direito. 20 anos em que acreditamos todos que estas coisas positivas surgiram sobretudo no Ocidente e, sobretudo, que era isso que “nos” distinguia de todos os “outros”.

Mas há um grande “mas”, há muita história de nós próprios que também nada mais é que a história do nosso próprio tempo.

Basta vermos, descontando todos os erros e lacunas inerentes à história escrita, que durante a Guerra Fria os estudantes americanos aprendiam que a inspiradora Civilização Ocidental, bem a montante da Grécia e da Roma Antiga, passava pela difusão do cristianismo na Europa, o Renascimento, o Iluminismo, as Revoluções (Inglesa, Americana e Francesa) e o posterior desenvolvimento do Capitalismo... o sufrágio universal... as duas Guerras Mundiais e a Guerra fria... e... A “Comunidade Atlântica” (!) liderada, claro, pelos Estados Unidos da América! Ou seja, essa história da história desenvolve uma civilização ocidental que começava outrora na Europa e terminava nas mãos Americanas aos dias de hoje.

A história, diz a própria história, termina nas mãos dos quase 8 mil milhões de habitantes que temos, em todas as crenças que conhecemos e na igualdade e tolerância dada a cada liberdade individual.

Mas isso cabe a cada um estudar, aprender, perguntar e concluir o que a história deixou. O mundo livre também nos deu essa liberdade de adquirir conhecimento e não engolir tudo “porque sim”. 

Só se formos livres, de facto, é que poderemos trabalhar e crescer com outros povos livres na criação do mundo livre que a história americana “vendia” durante a Guerra Fria e que o Ocidente “comprava” até 10 de setembro de 2001.

Não está tudo errado, mas se estivesse tudo certo não seria tão intolerante o mundo em que vivemos.

O maior travão da humanidade, como se assinala - em jeito de conclusão - sobre os 20 anos do “11 de setembro”, são os muros da ignorância, do preconceito e do egoísmo.

Esses são os muros que separam os homens e as mulheres livres uns dos outros, aqueles que são livres dos que não o são.

Os muros da intolerância sempre existiram, mas cresceram muito e tornaram-se mais altos desde o 11 de setembro de 2001. Da mesma maneira, pelo mundo que vivemos, pela cooperação global que até ao nível pandémico existiu, no novo mundo que nos “prende”, e conecta a todos, não tenho dúvidas que nunca tantos foram tão livres neste mundo como hoje.

Saibamos ver o lado certo, derrubar os muros que devemos deixar em escombros e agarrar as oportunidades de criar uma história que agrade a todos.

Sobretudo, saibamos respeitar a história dos que a perderam, por intolerância ou terrorismo, por incapacidade de diálogo ou ausência dele.

Saibamos fazer diferente em 2021 e não viver iguais ao que ficou em 2001.


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