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Chegou o albergue espanhol

Chegou o albergue espanhol

Francisco Camacho 09/09/2021 09:43

Este texto é sobre Portugal e sobre as ameaças aos seus interesses que nos podem arrastar certos cantos de sereia. É necessário desconfiar das promessas daqueles que anunciam o milagre da IV República, quando atraiçoam os interesses permanentes de Portugal à primeira oportunidade.

Algumas visões nacionais mais conservadoras parecem alimentar simpatias pelo Vox. Apesar dos inúmeros problemas e de diversas contradições, é um partido com uma mensagem apelativa e forte. Embora em Espanha isso seja algo difuso, o partido de Abascal faz um apelo claro aos símbolos nacionais, como a bandeira ou a coroa, em oposição aos independentismos e às novas esquerdas. Na verdade, como qualquer canto da sereia, têm um discurso afinado e tentador, prometendo a mudança de um sistema viciado e o combate simplista às elites “progre” corrompidas.

Este não é mais um texto a dar lições sobre a genealogia do “mal”, nem que procura explicar o enquadramento do partido que surge à direita dos populares de Casado – para isso haverá exercícios para todos os gostos.

Este texto é sobre Portugal e sobre as ameaças aos seus interesses que nos podem arrastar certos cantos de sereia. É necessário desconfiar das promessas daqueles que anunciam o milagre da IV República, quando atraiçoam os interesses permanentes de Portugal à primeira oportunidade.

Escrevo sobre o recente anúncio de pré-entendimento do Chega com o Vox para juntos prepararem uma “estratégia europeia comum”. Ora, uma aliança entre portugueses, putativos patriotas, e a cúpula do Vox só se pode justificar por, pelo menos, um de dois motivos: 1) ou ignorância geopolítica e histórica quanto à estratégia vital para a afirmação de Portugal; 2) ou, sabendo-a, trair e apelar ao iberismo.

Só um dos dois fatores explica que o chega queira lançar com o Vox – força política que consciente e deliberadamente se atreveu a divulgar um mapa de Espanha com Portugal anexado – iniciativas conjuntas, baseadas em visões europeias comuns. Provavelmente é só ignorância. É só ignorância pensar-se que a História e os interesses externos de Portugal e Espanha são semelhantes.

Não é necessário avivar a memória com factos históricos nacionais, como o célebre 14 de Agosto de 1385 ou a resistência de Frei Heitor Pinto diante Filipe II de Espanha, para compreender que, é uma ilusão portuguesa acreditar num desígnio idêntico entre os países dentro e fora do continente, e, uma ilusion de um certo pensamento espanhol terminar com a dualidade peninsular. Aliás, não é necessário ser de esquerda ou de direita para ter noção de que a política portuguesa não deve estar alinhada com gente, cujo mais íntimo objetivo é o de subtrair a nossa identidade e diluir a nossa soberania e que ainda vibra com o grito “Ni Portugal, ni Gibraltar, España de Mar a Mar”.

À elite política portuguesa consciente cumpre sentir e pensar Portugal, no contexto Atlântico, que não separa mas une, num futuro embalado pelos laços que a história e a língua geraram. Estimar alianças com potências marítimas, dinamizando o triângulo Continente-Açores-Madeira. Assumir posição quanto ao comando e flanco sul da NATO, sem nunca desprezar os nossos amigos e irmãos espalhados pelo globo ao longo de séculos. Embora tudo isto seja possível num quadro europeu, é totalmente incompatível no flamenco que Ventura quer dançar com Abascal.

Depois da incompreensível proposta para uma defesa europeia comum (que só pode culminar com a criação de um exército europeu) ou da rejeição do passaporte lusófono, temos, uma vez mais, o Chega a brilhar no palco dos interesses antinacionais e a dar a mão a quem nos quer ver anexados. Esta não é uma simples jogada de marketing político, de parceria dos “insubmissos” que tanto jeito têm dado para coisa nenhuma a não ser encher o ego dos seus líderes. É, isso sim, mais uma demonstração de que André Ventura está disponível para tudo por mais um par de fotografias: inclusive decompor o futuro de Portugal.

Não é novidade, mas estamos perante mais uma evidência gritante dos desvios de um partido que pouco pensa para Portugal a não ser um conjunto de interjeições com zero soluções. Já sabíamos que o Chega era um albergue espanhol em sentido organizacional, acolhendo inconformados e reciclados de múltiplos quadrantes – só nunca pensámos que o fosse em sentido literal.

 

Presidente da Juventude Popular

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