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A caminho do Qatar com o Qatar pelo caminho...

A caminho do Qatar com o Qatar pelo caminho...

AFP Afonso de Melo 06/09/2021 19:39

Depois da vitória sobre o Qatar (3-1 num particular), a seleção nacional joga amanhã em Baku frente ao Azerbaijão nas eliminatórias para o Mundial 2022. 

Depois do teste de Debrecen, na Hungria, frente ao Qatar – aquilo foi mesmo um teste ou uma simples oleagem mecânica de jogadores coletivamente enferrujados? –, com mais uma vitória (3-1), por muito pouco espetacular que fosse, Portugal defronta esta terça-feira, em Baku, pelas 17 horas de Lisboa, o Azerbaijão. É mais uma jornada que o levará, estou certo disso, com maior ou menor dose de suor, até à fase final do Campeonato do Mundo de 2022, que será precisamente dirimida no pequenino país do Golfo Pérsico de 11.437 km2, que vamos ver como suportará, na sua superfície minúscula – praticamente um terço do Alentejo, 31.603 km2 – as hordas de visitantes vindos de todos os cantos do Planeta se, até lá, não cair sobre os ombros da Terra outra  praga que faça lembrar as do antigo Egito.

Depois de ter iniciado com um ligeiro tropeção, com o empate cedido na Sérvia, convém a Portugal manter a folha limpa e aproveitar o facto de receber em casa os sérvios para se libertar do único opositor do grupo que tem um mínimo de condições para lhe fazer frente. Mas a verdade está aí, coberta pelo seu manto diáfano, e não nos permite, sobretudo a nós observadores e críticos, fugir a uma realidade difícil de entender mas talvez não tão complicada de explicar. Face à  Irlanda, no Estádio do Algarve, um adversário abana-pinheiros que pouco mais tinha para oferecer do que músculo, pulmão e boa vontade, a seleção nacional viu-se e desejou-se para não perder pontos, sendo obrigada a esperar por aqueles dois golpes de cabeça de Cristiano Ronaldo à beirinha do fim, num filme já mais vezes repetido do que o Ben-Hur na televisão em época de Páscoa.

Aceitemos um facto indesmentível – nesses dois lances dos golos portugueses, Ronaldo estava, decididamente, no lugar que hoje deve ocupar na equipa nacional, o de ponta-de-lança, encaixado entre os defesas contrários, infernizando-lhes a vida e provocando-lhes ataques de bexigas doidas durante 90 minutos.

 

A questão Ronaldo

Fernando Santos tem um problema para resolver e talvez apenas a sua fortíssima relação com o capitão de Portugal e o compromisso que parecem ter selado desde o momento em que assumiu o cargo de selecionador parecem impedir a solução tão evidente que entra pelos olhos dentro como uma raio de luz pela manhã. A deambulação constante de Ronaldo por toda a frente de ataque, tentando aparecer das alas para o centro, ora para meter a bola na área contrária, ora para ensaiar  os seus remates assassinos, retiram independência aos outros criativos do conjunto que, ao contrário do que sucedia nos primórdios de Cristiano com a camisola dos cincos escudos azuis, deixou de ter quem seja capaz de lhe dar, se não ordens, indicações específicas.

O tempo transformou Ronaldo fisicamente, tal como o faz a todos nós, e modificou-lhe as características de jogo, como já o tinha feito na passagem do Manchester United para o_Real Madrid. Aqueles Ronaldo de pernas finas, fintas à velocidade da luz e cavalgadas ziguezagueantes deu lugar a um Ronaldo monobloco, uma torre de músculos e tendões, um monstro que se sente no meio dos centrais contrários como um falcão entre pardais. Um ponta-de-lança cada vez mais fixo, menos espalha-brasas, permitindo que os companheiros criativos que gravitam em seu redor, tenham espaço e, sobretudo, à vontade e descaramento para darem asas ao seu futebol que acabará, inevitavelmente por ir desaguar no homem que faz os golos – Ronaldo, pois então. Vê-lo tombar para a esquerda, encolhendo Bernardo Silva, por exemplo, e empurrando para o centro, ou invadir a zona central do ataque, retirando do jogo Bruno Fernandes, não faz nenhum bem ao coletivo de uma equipa que continuará, até ao fim, a prestar-lhe vassalagem, por muito que esta seja merecida.

Obrigar Ronaldo a tornar-se o homem de área da seleção é um trabalho complicado mas, convenhamos, não tem sido aí que ele resolve os problemas que nos têm afligido? E não tem sido a sua volatilidade tática a causa do desaparecimento de tantos jogadores cuja influência nos seus clubes se reduz a pó de cada vez que vestem a camisola da seleção? Hoje não haverá Ronaldo – castigado – em Baku. Pode ser que se soltem outros mágicos. Mas o futuro imediato de Portugal (Campeonato do Mundo) vai ter assentar na disciplinização do melhor avançado-centro do mundo.

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