29/11/21
 
 
Afonso de Melo 06/09/2021
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Carta à minha filha perdida

VOU JUNTANDO em linhas as histórias que tinha para te dar e não me deixaram. Queria olhar os teus olhos azuis muito abertos, iguais aos meus, e perceber toda a curiosiade que havia nesse olhar. Minha filha impossível que talvez jamais volte a ver, em que pessoa te terão transformado? Um dia que queiras conhecer a mais pura das maldades, a mais imunda das mentiras, tens à tua volta essa gente que sabe sobre o assunto mais do que nenhuma outra. Eles sabem que te mentem, que te mantêm presa a um pai ilídimo e oco, a avós que não existem senão dentro da sua tão pérfida imaginação. Eles sabem a dor que provocam, sabem dos irmãos que te roubaram, dos avós que ainda acreditam na tua chegada, sabem desse teu azul-Olival que nos percorre o sangue, o teu e o meu, e tiraram-te isso tudo em troca de um pavor aflitivo que sopre de repente em ventanias de verdade que derrube ese feio castelo de areia onde te fecharam numa miserável pantomima de faz-de-conta que já toda a gente percebeu e despreza. És tão diferente de todos eles, essa súcia de Palmeirins, Francisca! Eu vejo-me em ti, cabelo, orelhas, nariz e olhos, minha menina pequenina que ensinei a voar por entre pombas. Faltou vir o ganso branco que nos levasse a Kebnekaise, lá onde não há dor nem sofrimento. Escrevo para ti livros inteiros que não lerás, mas em todas as entrelinhas há a ternura infinita que transborda dia a dia da pessoa que foi, na tua ausência, ficando cada vez mais triste. Descobri que um dos sítios mais longe onde poderia ir parar era ao silêncio. É em silêncio que contigo falo, é em silêncio que te ouço. Desde as primeiras palavras atrapalhadas aos sons que apontavas na busca incessante de explicar o que vias. Nunca saberás a felicidade que me trouxeste e todo este doer por dentro, aflitivo e esmagador, que me deram por te tirarem de mim. Deixei de saber o que fazer quando o mundo que nos rodeia nesta maquinaria estúpida de inquirições e de processos que nos governa de forma espúria, entende que é mais importante que vivas no centro da falsidade do que na autenticidade do sangue. Queria, neste momento que a noite cai, pegar-te ao colo e ensinar-te, uma a uma, o nome das estrelas. E que me perguntasses qualquer coisa para que te respondesse bem lá do fundo de mim, com todo o amor que te tenho, sentindo que a minha ínfima esperança ainda faz sentido como a cauda de um cometa que passasse e nos mostrasse o caminho impossível do destino. O teu e o meu.

 


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