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Reino Unido. Pandemia poderá mascarar efeitos reais do Brexit

Reino Unido. Pandemia poderá mascarar efeitos reais do Brexit

Dreamstime Daniela Soares Ferreira 06/09/2021 14:16

Supermercados com prateleiras vazias e falta de mão de obra são problemas reais e atuais no Reino Unido. Pandemia ou Brexit? Quais os principais culpados? “Ambos”, defendem especialistas. O i falou com portugueses residentes no Reino Unido para tentar perceber o ponto de situação.

Prateleiras de muitos supermercados vazias, falta de funcionários para fazer face ao trabalho e produtos sem stock. Assim vai o Reino Unido numa altura em que a crise pandémica ainda faz estragos no país. Mas será apenas culpa da pandemia?

O i falou com portugueses residentes no país para tentar perceber um pouco da situação. Rita Ferreira tem noção de que a situação não está fácil, principalmente para algumas cadeias. “Sei que algumas cadeias como o McDonald’s, Nando’s ou Gregg’s tiveram que fechar lojas por falta de matéria prima”, começa por dizer ao i a portuguesa residente na zona de Ealing, noroeste de Londres.

Informação confirmada pelo português Euclides Semedo, residente em Birmingham, que trabalha na Gregg’s. “Já se sente o efeito secundário da saída do Reino Unido da UE e nota-se pela falta de comida”, diz ao i. “Na empresa onde trabalho há quase um mês que andamos com problemas no stock a nível de comidas e bebidas”, confessa. Mas o problema não existe só nestas cadeias. “Tenho um amigo que é engenheiro numa empresa de construção e estão com obras em atraso por falta de mão de obra”, alerta.

Ainda em relação ao nível dos supermercados ou das cadeias alimentares, Rita fala-nos do que vai ouvindo: “Dizem também que os stocks para o Natal podem estar afetados e algumas pessoas já começaram a comprar perus para congelar para ter no Natal”.

Problemas relacionados com o Brexit ou com a pandemia? “Primariamente teve a ver com o Brexit mas com a pandemia e os lockdowns, muitos cidadãos europeus que ocupavam estes cargos decidiram abandonar de vez o país e voltar para junto das suas famílias”, conta Rita Ferreira. “Neste momento há muita falta de motoristas de pesados mas outros setores como o dos trabalhadores agrícolas e de fábricas de produção alimentar estão a ser muito afetados”, detalha. Neste momento, “para uma pessoa começar uma vida do zero na Inglaterra não é nada fácil porque para entrar tem que se ter um visto de trabalho e um contrato de trabalho de, no mínimo, 25k anuais. E estes trabalhos estão taxados bastante abaixo desse valor”, explica.

A opinião de que a culpa desta situação seja tanto do Brexit como da pandemia é corroborada por Euclides, que lembra que “muitas das pessoas perderam os seus trabalhos e tiveram que voltar ao seu país”. E nota: “Mas aqui este assunto não está a ser muito falado nas notícias de modo a não alarmar ou não se dar parte fraca de que as coisas poderiam ter sido diferentes se não se tivesse saído da UE”, diz.

Já Joana Gomes, residente no centro de Londres, diz não notar grandes faltas nos supermercados. Apenas falta de mão de obra. “Muitas empresas despediram pessoas no ano passado e agora não há staff suficiente”, detalha. “Procuram mão de obra barata com com o Brexit… não há”, garante.

A falta de mão de obra A escassez de trabalhadores no Reino Unido é justificada mais pelo Brexit do que pela pandemia. Isto porque os emigrantes eram muito importantes neste aspeto. “O Reino Unido é conhecido por, durante muitos anos, acolher imigrantes de várias partes do globo. No entanto, neste momento, a entrada a novos emigrantes acaba por ser limitada e bastante burocrática”, explica o i Henrique Tomé, analista da XTB. No entanto não tem dúvidas que a pandemia também é responsável pela situação atual.

Já Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, defende que “no que concerne aos fluxos migratórios, a atual escassez de mão de obra no Reino Unido resulta de uma mistura de Covid e Brexit”, lembrando que “a escassez de mão de obra não será apenas um efeito Brexit, mas é um facto que a saída do Reino Unido do mercado único europeu contribuiu, também, para essa mesma escassez”.

E deixa o alerta: “Alguns setores precisam perceber que os dias em que tinham mais disponibilidade de mão de obra podem ter acabado e os empregadores terão de pagar mais para garantir pessoal disponível. Salários mais elevados poderão redundar num acréscimo de inflação indesejável”. Para o economista, é claro que “o Brexit causou problemas em áreas como transporte, hotelaria e construção e os empregadores britânicos lutam contra a pior escassez de pessoal dos últimos 25 anos”.

E as prateleiras vazias? KFC, McDonald’s, Nando’s ou outras cadeias têm relatado problemas nos stocks e falta de alguns produtos. E o mesmo acontece nos supermercados onde se veem muitas prateleiras vazias. Henrique Tomé avança que esse é um problema real no Reino Unido e que “as cadeias de distribuição continuam a enfrentar sérios problemas e os custos nos transportes têm subido substancialmente nos últimos anos devido à pandemia”.

Já o economista sénior do Banco Carregosa diz que existe falta de funcionários nos supermercado “devido ao isolamento depois de entrarem em contacto com uma pessoa infetada com covid”. Mas não é só: “Os camionistas são considerados o cerne do problema e há uma crescente falta destes trabalhadores. Ademais, por causa do Brexit, novos motoristas vindos da Europa não conseguem trabalhar no Reino Unido com a mesma facilidade com que o faziam antes”.

O real problema Então o problema é da pandemia ou do Brexit? “De ambos”, defende Paulo Rosa, enquanto Henrique Tomé considera que é “sobretudo resultado da pandemia”.

“A pandemia tem afetado a economia do Reino Unido, penalizada pelas restrições à circulação de pessoas, e poderá estar a mascarar algumas consequências do Brexit”, diz Paulo Rosa. No entanto, tanto a pandemia como o Brexit são até “similares”. “Há uma certa similaridade entre o Brexit e a pandemia, desde o mercado de trabalho às dificuldades do lado da oferta e respetivos bottlenecks. Ambos promovem de certa maneira o distanciamento social”, acrescenta.

Para Henrique Tomé não há dúvidas de que “as consequências negativas do Brexit, na verdade, até acabaram por não ser tão graves quanto se pensava, uma vez que a União Europeia continua a lutar para que as relações entre ambas as partes permaneçam, no mínimo, saudáveis”, avança. Mas uma coisa é certa: “a pandemia acabou por agravar esta situação”.

A economia britânica Ao i, Paulo Rosa faz um pequeno resumo da economia britânica ao lembrar que, nos primeiros seis meses do ano “o comércio do Reino Unido com a União Europeia (UE) caiu significativamente, penalizando a economia britânica”. Ora, ao Brexit somam-se ainda as restrições devido à pandemia “que representaram um duro golpe na economia britânica”.

“O quadro sobre o comércio foi inundado pelo impacto económico da pandemia de covid-19, e esta poderá mascarar o real impacto do Brexit na economia do Reino Unido, nomeadamente no comércio”, defende o economista, acrescentando que “apesar da incerteza no comércio, outra mudança importante até agora tem sido a circulação de trabalhadores, com novas restrições introduzidas a limitarem os direitos dos cidadãos da UE que querem ir para o Reino Unido trabalhar, levantando preocupações sobre a escassez de mão de obra”.

Defendendo que “é ainda muito cedo para uma leitura definitiva do efeito do Brexit na economia do Reino Unido”, Paulo Rosa lembra também que “a atual baixa taxa de desemprego no Reino Unido deve-se, em parte, aos subsídios de desemprego, mas este esquema deve ser descontinuado até ao final de setembro. Mas a baixa taxa de desemprego também se deve em parte ao aumento de trabalhadores que não procuram emprego, portanto, excluídos dos cálculos para a taxa de desemprego”.

Cresce então a necessidade de mão de obra no país “e enquanto as demissões caíram para níveis pré-pandémicos, as vagas de emprego atingiram um recorde histórico em junho”, finaliza.

 

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