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Zahra Joya. "Os talibãs não conhecem os direitos humanos. Tive medo de morrer"

Zahra Joya. "Os talibãs não conhecem os direitos humanos. Tive medo de morrer"

Maria Moreira Rato 01/09/2021 14:24

Aos 28 anos, a jornalista afegã tenta reconstruir a vida no Reino Unido, mas continua a temer o regime dos talibãs.

Nasceu em 1993 e, entre 1996 e 2001, os Talibãs, grupo fundamentalista islâmico, controlaram o Afeganistão. Como foi crescer neste clima de medo?
Nasci no distrito de Waras, no sul da província de Bamyan. A primeira reação da minha família ao meu nascimento não foi de felicidade, mas tristeza. Se eu nascesse menino, os meus familiares teriam comemorado. Quase amaldiçoavam a minha mãe por ter trazido uma mulher ao mundo e, durante a minha infância, os talibãs estiveram no poder.

Apesar de o grupo não ter uma presença direta em Waras, as suas leis eram implementadas e estritamente aplicadas. Na minha aldeia, que era muito pobre, as pessoas preocupavam-se com a sobrevivência e não com a educação, especialmente naquilo que dizia respeito as mulheres ou meninas.

Os talibãs contrataram coletivamente o imã da mesquita local para educar os meninos. Dois membros da minha própria família, os meus tios, estudaram numa mesquita. No entanto, as normas sociais tradicionais ditavam que as meninas não podiam estar nas salas de aula dos meninos.

Além disso, os talibãs proibiram a escolarização das meninas. Um dos meus desejos de infância era estudar como os meus tios. Com a ajuda de um deles, consegui encontrar uma maneira, mas a solução não era simples. 

Foi aí que decidiu vestir-se com roupas tradicionalmente associadas ao género masculino e adotar uma nova identidade?
Eu não só tive que mudar as roupas que usava, mas também a minha atitude. Aos cinco anos, decidi reescrever o meu destino e tornei-me num menino para conseguir ir à escola. Pelos padrões ocidentais, uma criança de cinco anos é inocente, mas, com essa idade, eu já tinha visto com os meus próprios olhos como a minha mãe tinha sofrido e isso acabou por me aproximar mais da idade adulta do que da infância.

Percebi que se não tivesse acesso à educação, permaneceria ignorante relativamente aos meus direitos e enfrentaria o mesmo destino que a minha mãe, a minha avó e tantas outras mulheres da minha aldeia. Os meus familiares e vizinhos não reagiram bem à minha decisão, mas admito que o facto de ter uma tenra idade ajudou-me a ignorar as críticas de terceiros. Tive de tomar esta decisão para aprender. 

E, assim, durante seis anos, foi Mohammed.
Sim, porque, para mim, as roupas masculinas simbolizavam esperança num futuro melhor. Desde o meu primeiro dia na escola, fui conhecida como um menino. Eu sabia que se alguém descobrisse a minha verdadeira identidade, seria um escândalo. Por causa do meu novo amor pela educação, estava aparentemente feliz, mas aquilo que ninguém sabia é que a minha luta mais íntima não terminou.

Em que medida?
Muitos afegãos comportam-se com violência. Com o objetivo de me adaptar a um ambiente mais masculino, digamos assim, fui forçada a manter as minhas emoções controladas. Durante seis anos, não foram seis dias, contrariei aquilo que parecia natural para mim: eu só não me vestia como um menino, mas também falava e caminhava como um.

Apesar dos repetidos pedidos da minha família, recusei usar roupas femininas, mesmo fora da escola. A razão para isso prendia-se com o facto de que eu queria que chegasse o dia em que as meninas pudessem ir à escola... Talvez naquele dia tão esperado eu voltasse a ser menina! E, finalmente, chegou a hora.

Quando frequentava o sexto ano do Ensino Básico.
Exatamente, porque os talibãs foram derrubados. As escolas sob o comando do presidente Hamid Karzai reabriram as suas portas às estudantes do sexo feminino, mas os pais ainda estavam com medo de enviar as suas filhas para as instituições. Por existir essa renitência, várias organizações começaram a estabelecer programas de incentivo para persuadir as famílias, incluindo através da oferta de cestos de alimentos. 

Como é que os seus colegas e professores reagiram quando se apresentou como Zahra?
No primeiro dia em que fui para a escola como Zahra, e não como Mohammed, todos os meus amigos ficaram chocados. Curiosamente, foi aí que os meus problemas começaram. As meninas não me aceitavam como uma delas, enquanto os meninos gozavam comigo por acharem que tinha “mudado o meu género do dia para a noite”.

Demorou um pouco para que se acostumassem e entendessem as minhas razões. No entanto, houve um lado positivo: por causa do meu percurso escolar enquanto rapaz, eu estava à frente das meninas da aldeia, que eram analfabetas. Eu poderia ler, escrever e expressar as minhas opiniões. E, assim, continuei a lutar pela minha educação com todas as forças que tinha.

Como é que se processou a sua entrada no Ensino Superior para estudar Direito? 
Num primeiro momento, a minha família não permitiu que fizesse os exames de admissão. Foi um período negro da minha vida, mas o meu pai não aguentou ver-me chorar e, certo dia, disse-me que embora não pudesse pagar as minhas propinas, se eu conseguisse sustentar-me, poderia ir para Cabul e continuar os meus estudos numa universidade privada. Na primavera de 2011, deixei Bamiyan e rumei à capital. Aquando da minha chegada, matriculei-me no departamento de estudos jurídicos do Instituto Gawharshad de Educação Superior.

Como era uma rapariga de um meio rural na cidade, não tinha dinheiro para viver desafogadamente em Cabul. Aliás, eu não podia sequer pagar os bilhetes dos transportes públicos para ir às aulas, então, acabei por fazer o percurso, na maior parte das vezes, a pé. Também havia uma grande sensação de isolamento porque, pela primeira vez na minha vida, estava a morar num pequeno quarto sem ninguém com quem conversar.

Até que conheceu Zahra Yusufi.
Sim! Ela também era do distrito de Waras. Ela sempre foi muito trabalhadora e independente e costumava fazer um part-time num escritório. Quando ela soube dos meus problemas de saúde, pois comecei a sofrer de febre tifoide, emocionou-se e prometeu que me ajudaria.

Temi muito ter de me render à doença e regressar à casa dos meus pais, mas o meu maior medo era ter o mesmo destino que as outras meninas da minha aldeia: casar e não ter um futuro. No momento em que me senti mais vulnerável, a Zahra deu-me um vislumbre de esperança.

Ela ajudou a financiar o meu tratamento e prometeu arranjar-me um emprego no escritório onde estava. Foi assim que me senti forte novamente e entendi que não só poderia prosseguir a minha educação como também embarcar numa carreira no jornalismo com a Zahra como minha mentora. Volvidos quatro anos, consegui levar a minha família para Cabul. Eu queria que as minhas três irmãs tivessem as mesmas oportunidades que eu. 

E, agora, duas delas e um dos seus irmãos estão consigo, num hotel, no Reino Unido. Como conseguiu sair do Afeganistão numa época tão turbulenta?
Estou há sete dias em quarentena num hotel. Foi-nos possível vir para cá porque temos muitos amigos que nos ajudaram. Quando recebi o email da embaixada do Reino Unido em Cabul a informar-me de que teríamos de estar no aeroporto dali a três horas, senti-me extremamente feliz e aliviada, mas muito preocupada com os meus pais. Eles ficaram lá e estou constantemente a ligar-lhes e a mandar mensagens.

Que futuro acredita que os afegãos terão com os talibãs a controlarem o país?
Não perdemos a nossa esperança. Somos fortes e vamos lutar pelos nossos direitos. Estamos juntos e quem se encontra numa situação melhor, como eu, tem de ajudar quem não teve a mesma sorte. É hora de trabalharmos juntos como conseguirmos.

Em novembro de 2020, recorreu às suas poupanças para recrutar cinco mulheres jornalistas e iniciar o projeto Rukhshana Media. Qual é a missão deste órgão de informação?
Queríamos percorrer o país e contar histórias de mortalidade materna, violência doméstica e saúde reprodutiva das mulheres. Desde então, publicámos reportagens sobre o tabu da menstruação, o casamento infantil, o assédio nas ruas, a discriminação de género e o que significa viver como uma sobrevivente de abuso sexual.

Atualmente, estamos todas separadas porque umas ficaram no Afeganistão e outras tiveram a oportunidade de fugir. Também realizei uma campanha de angariação de fundos online que foi muito promissora e, claro, a minha meta é que tenhamos o nosso site em Inglês.

Decidiu recorrer a um apelo virtual porque os seus primeiros esforços não resultaram?
Infelizmente, muitas organizações não-governamentais rejeitaram a nossa proposta e decidi lançar a campanha. Eu não podia acreditar que pessoas espalhadas pelo mundo inteiro nos apoiariam tanto! E foram principalmente mulheres que nos seguem nas redes sociais.

E conseguiu arrecadar um montante muito superior àquele que havia pedido.
Pedi 20.000 dólares canadianos (aproximadamente 13 mil euros): 9600 para pagar o salário durante um ano a quatro repórteres, 4800 para pagar o salário durante o mesmo período de tempo a um editor-chefe, 2400 para alugar um escritório, 5000 para criar o site e mantê-lo e 1200 para assegurarmos o pagamento da Internet. Até agora, chegámos aos 274.955 (o equivalente a cerca de 184 mil euros).

O nome Rukhshana não foi escolhido em vão.
Escolhi-o porque era o nome de uma jovem que foi apedrejada até à morte no centro do Afeganistão, em 2015, depois de ser acusada de adultério. Desde que vi o vídeo de 30 segundos das agressões, que foi veiculado online, não esqueci aquela vítima. As imagens mostravam-na num buraco, no chão, cercada por homens de turbante que lhe atiravam pedras.

O homem com quem ela foi acusada de fugir foi chicoteado. Assim, esta mulher, batizada de Rokhshana e com uma idade compreendida entre os 19 e os 21 anos, podia ser ouvida repetida e desesperadamente a professar a sua fé muçulmana enquanto as pedras a atingiam brutalmente. O assassinato ocorreu nos arredores de Firozkoh, a capital da província central de Ghor.

Arrepende-se de ter enveredado pelo jornalismo num país que, segundo os Repórteres Sem Fronteiras, é um daqueles em que a liberdade de imprensa é mais escassa? No 2021 World Press Freedom Index, encontra-se no 122.º lugar entre 179 países analisados.
Quando comecei a trabalhar como jornalista, foi muito difícil porque o meu pai queria que eu fosse juíza em Cabul. Ele perdeu o emprego e o dinheiro, mas não ficou zangado quando se apercebeu de que este era o meu sonho. Ele está orgulhoso de mim. Ser jornalista é perigoso, ainda para mais numa sociedade patriarcal em que temos muitas pessoas tradicionais com valores igualmente tradicionais.

As pessoas respeitam-me, tal como ao ofício que levo a cabo, mas, infelizmente, guardam muita raiva por causa dos Talibãs e de outros grupos terroristas e isso acaba por se repercutir - e muito - na mentalidade. A comunidade internacional ajudou o Afeganistão durante 20 anos e estamos muito gratos por isso, mas não nos podemos esquecer de que, neste preciso momento, não temos governo, presidente, polícia ou exército. É horrível constatar este retrocesso.

Está preocupada com as mulheres jornalistas que ficaram no Afeganistão?
É claro. Temos a nossa rede de contactos, conversamos no WhatsApp e Messenger sobre tudo, mas não estou lá e não as posso auxiliar presencialmente. Vamos lutar pelos nossos direitos. Como é que alguém pode acreditar que os Talibãs mudaram ou que estão mais moderados? Eles são pessoas insurgentes.

Toda a comunidade internacional vê-os como um grupo terrorista e, por isso, não me digam que julgam que eles possam ter-se modificado um bocadinho que seja. Basta irmos ao aeroporto de Cabul para entendermos que tudo continua igual. Devemos perguntar-nos: se tudo mudou, porque é que os afegãos fogem? Os talibãs não conhecem os direitos humanos ou, se calhar, conhecem mas não os aceitam. Não pude continuar o meu trabalho lá. Tive medo de morrer.

Até porque, segundo o seu relato ao The Guardian, as profissionais do Rukhshana Media corriam risco de vida devido ao alto risco de assassinato de mulheres jornalistas.
Espero que a situação da ocupação - é este o termo que gosto de usar - do Afeganistão pelos Talibãs seja resolvida o mais rápido possível. Eu não sei como é que isto acabará. Vivemos na incerteza porque não sabemos aquilo que vai acontecer na próxima hora sequer. Eles seguem uma ideologia errada e não querem aceitar o conceito de liberdade porque estão presos ao passado.

E o que acontece aos homens jornalistas?
Nesta profissão, a situação deles não é muito diferente da nossa. Tal como nós, só podem trabalhar os temas que os Talibã querem. Aliás, em todos os meios de comunicação que sigo, não vejo, leio ou oiço uma única peça em que eles sejam mencionados. E, quando tal acontece, são enaltecidos. Portanto, diria que todos os afegãos, e não somente os jornalistas, devem ter cuidado.

Isso significa que o verdadeiro jornalismo afegão terminará?
Os meus colegas são e devem continuar a ser capazes de contar histórias de todo o país. Espero que possamos proteger esta nossa conquista. Para isso, não podemos perder o investimento internacional.

Como funciona o sistema de comunicação e propaganda dos talibãs? Trabalham com jornalistas ou até com técnicos de comunicação formados no Ocidente?
Penso que não tenho dados suficientes para responder a esta pergunta, mas creio que têm pessoas com saberes de diversas áreas a apoiá-los. Por isso, não descarto a eventual ajuda de jornalistas.

As mulheres afegãs com estudos estão a tentar deixar o país?
A minha geração estudou e trabalha, tem conhecimento de tudo graças às novas tecnologias mas, infelizmente, nem todos temos a hipótese de sair do Afeganistão. 

Agora, tal como há 25 anos, a música é proibida. Que posição estão os artistas a tomar?
O que posso dizer sobre isto? Eles pensam sempre que estão certos. A música é proibida no Islão. Por exemplo, Fawad Andarabi, um famoso cantor de música tradicional afegão, foi assassinado na sexta-feira passada. Por aquilo que li, terá sido morto a tiro depois de arrastado para fora da sua casa, na vila de Andarab, perto de Panjshir Valley, a norte de Cabul, onde parte da população rejeita a liderança dos talibãs.

Assusta-a pensar no impacto da Sharia, a lei islâmica, nas mulheres?
As mulheres não podem trabalhar fora de casa, à exceção de um número reduzido de médicas e enfermeiras e apenas em alguns hospitais de Cabul. Também não podem sair de casa se não estiverem estarem acompanhadas pelo marido ou um parente, homem.

Nem sequer podem ser observadas por um médico e não nos podemos esquecer de que, quando não há profissionais de saúde do sexo feminino para socorrer as mulheres, muitas morrem porque não têm assistência médica. As mulheres não podem frequentar a escola ou mostrar qualquer parte do corpo em público e são obrigadas a usar burca.

Se forem acusadas de ter relações sexuais fora do casamento, são apedrejadas como a Rokhshana. Os cosméticos são proibidos e há mulheres cujos dedos foram cortados pelos Talibã porque usaram verniz. Podia continuar esta lista, mas acredito que já dá para entender que qualquer mulher fica assustada perante o domínio dos Talibãs.

Continuará a fazer jornalismo sobre o Afeganistão estando no Reino Unido?
Planeio ficar cá, mas as minhas ideias ainda não são muito claras, pois não sei absolutamente nada acerca do meu futuro. Vir para cá foi a última chance que tive. Temos muitas histórias de mulheres afegãs para contar. Ganhei uma bolsa para tirar o mestrado em Administração Pública em Tóquio, no Japão, mas agora, como estou no Reino Unido, tentarei melhorar o meu Inglês primeiro e, depois, decidirei que mestrado será mais indicado para mim.

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