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The White Lotus. Uma série de verão para acabar de vez com a conversa da silly season

The White Lotus. Uma série de verão para acabar de vez com a conversa da silly season

Diogo Vaz Pinto 27/08/2021 12:49

A mini-série da HBO transformou-se no grande fenómeno deste verão, com uma sátira tão divertida quanto devastadora que, sem nunca se servir de estereótipos, espreita as vidas de um bando de hóspedes ricos a passar férias num resort de luxo.

O mais desconfortante dos enigmas no nosso tempo é sem dúvida o dinheiro. Este exerce uma força de atracção só comparável, entre as leis da física, à da gravidade, e a sua influência sobre nós pode produzir todo o tipo de distorções e até mesmo levar à loucura. Já alguém notou que hoje se fala de dinheiro “como outrora se falava de Deus”, até pela sua omnipresença, o seu inescapável poder de estruturar e hierarquizar as relações, a forma como nos intima, como reina ou se intromete em tudo. Todos vivemos de algum modo entre o deslumbramento e a ressaca dos efeitos que este produz. E discutir a nossa época passa, necessariamente, por entender a forma como este crescente polo magnético domina as nossas vidas, seja na dinâmica social, política ou cultural. O escritor francês J.K. Huysmans vê em acção “uma lei orgânica atroz”, tendo descortinado como o dinheiro “torna lúbrico o indigente mais casto, actua de uma só pancada no corpo e na alma, e a quem o possui sugere um egoísmo baixo, um orgulho ignóbil, aconselha a gastá-lo apenas consigo próprio, do mais humilde faz um lacaio insolente, do mais generoso um larápio”. E acrescenta que, “sendo assim tão senhor das almas, o dinheiro ou é diabólico ou não tem explicação”. Seria de esperar, por isso, que os elementos dessa mecânica, nos seus aspectos mais subtis ou grosseiros, se fizessem sentir como o vento forte das tragédias dos nossos dias, mas o lado diabólico do dinheiro prende-se com a forma como, sendo a sua força constante, parece desaparecer, e, no fundo, quase ninguém se sente à vontade em falar disso.

Nos últimos tempos, apesar de tudo, tem-se notado da parte de algumas produções televisivas o desejo de reconhecer o poder desta divindade terrena, e sinal disso é um conjunto de séries que um canal como a HBO tem exibido e que exploram a função de status que o dinheiro confere, o privilégio nessa degenerada lógica desses que se comportam de forma intolerável com aqueles que não gozam das mesmas graças. Alguns exemplos são séries como Sucession, The Undoing, Big Little Lies, lista à qual se junta agora a delirante sátira de seis episódios The White Lotus, que foca aqueles que se situam no topo da cadeia alimentar, o chamado 1%, e isto quando vão de férias. Coagulando as tensões que atravessam esta mini-série, escrita e realizada por Mike White (criador com Laura Dern da série Enlightened, exibida há uma década no mesmo canal), The White Lotus explora esse regime de distorções e patologias que o dinheiro provoca, e o género de delírios ou as estratégias defensivas dessa elite de ricos, brancos, norte-americanos. Com uma trama que se safa de forma exuberante enchendo o prato num buffet digno do mais luxuriante dos resorts, os elementos trágicos misturam-se aos cómicos naquela que se impôs como a série deste verão e, talvez até, do ano, numa obra que nos faz ver como o Inferno planta a sua semente viciosa até na mais edénica das paisagens, levando o Paraíso a ficar de joelhos. Ao mesmo tempo cativante e reflexiva, a série vai registando notas de hilaridade enquanto consegue provocar-nos sem, no entanto, resvalar para o tom da pregação moral.

Rodada durante a pandemia no Four Seasons Resort da ilha Maui, no Havai, esta sátira social encabeça uma lista crescente de apostas que contornam os constrangimentos da pandemia, com os canais de streaming a darem luz verde a produções que possam ser filmadas em autênticas bolhas. Assim, embora não haja referências à crise que o mundo enfrenta, há uma sensação de apocalipse iminente nesta série, mas também em certas alturas tempos a sensação de que os hóspedes ricos desta estância são sobreviventes de um cataclisma que persiste alhures. E em grande medida a atracção desta série liga-se a um tom zombeteiro como disseca esse cenário paradisíaco que alimenta a era do Instagram, em que através de instrumentos ao alcance de qualquer um, toda a gente no planeta parece investida em provar que habita o seu recanto de esplendor e goza de uma certa beatitude.

Mike White foi acordado do estupor em que a maioria de nós foi precipitado ao fim de meses de confinamento por uma proposta de uma executiva da HBO que lhe perguntou se seria capaz de esticar um orçamento de três milhões de dólares para filmar qualquer coisa de excitante numa localização fora do mundo. Obcecado com a chamada reality tv, tendo participado em programas como The Amazing Race e Survivor, White aproveitou a sua experiência nesse género, e soube traduzir a sensação de claustrofobia e paranoia na forma como hóspedes e funcionários circulam e se cercam como animais numa jaula. The White Lotus serve-se de todos os ganchos possíveis, de uma banda-sonora que consegue ser simultaneamente enervante e espirituosa, e instala-se desde a primeira cena um hipnótico registo que promete deixar-nos em pulgas, não apenas pela acção constante, com um elenco de estrelas de segunda que atingem todas o ponto alto das suas carreiras, servindo diálogos selvagens e carregados de segundas leituras, nessa mistura de comédia negra e drama perpassada por uma sensação de ameaça em pano de fundo. White traz a lição muitíssimo bem estudada, e nutre-se dessa tendência hoje comum a tantas série e que foi beber a Agatha Christie aquele esquema de abertura que começa com uma morte e depois nos faz recuar e ver como aquele desfecho foi engatilhado, isto enquanto a audiência assiste e anota certos detalhes e os examina à lupa tentando adivinhar a resolução. Essa abertura leva-nos a uma sala de embarque, onde Shane (Jake Lucy) é interpelado por um casal que passou uma semana de férias num outro resort e quer digerir o tempo de espera numa sessão de cavaqueira, e ele não demora a deixar claro que está do outro lado do espectro, e viveu na verdade uma semana de férias infernal. Livra-se depressa dos dois, e chega-se às janelas, para observar um caixão a ser elevado para o avião que os levará dali. Momentos antes, soubéramos por essa conversa interrompida que Shane (agora sozinho) estava na sua lua de mel no resort que dá nome à série e que ali ocorreu um homicídio. Apesar deste gesto de ilusionismo que nos chama a atenção para uma zona de mistério, a série não demora a evidenciar que o dinheiro é a sua verdadeira força motriz, quando tudo cheira a dinheiro, e parece dar-se a inversão daquele verso bíblico que nos diz ser mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus. Aqui até a luz do sol, naquela densidade que banha tudo a ouro, parece um privilégio dos ricos. “Sempre quis fazer uma série sobre um casal em lua de mel. Algo sobre dinheiro, alguém que se casa com um endinheirado e percebe o que pode ter perdido”, disse White numa entrevista à New Yorker. “A troca faustiana que acontece quando se quer um estilo de vida, mas também se quer manter a independência. Só que em vez de me concentrar apenas na lua de mel de um casal, constelei a série com muitas pessoas a debaterem-se com ideias sobre dinheiro. Quem o tem pode realmente criar a dinâmica de um relacionamento, o relacionamento em si, o sentido de identidade. O dinheiro pode perverter as nossas relações mais íntimas, além da relação funcionário-hóspede no hotel.”

Depois daquela cena inicial, há uma variação mordaz do tom com que éramos recebidos noutras produções televisivas em tempos mais afáveis, menos cínicos e também muito menos acutilantes. Vemos a equipa dos funcionários perfilados e a acenar à chegada de um barco que traz o grupo de oito hóspedes VIP em torno dos quais se centrará a trama. São os escravos no paraíso, aqueles de quem se espera que antecipem todas as necessidades dos clientes, permanecendo sempre a um gesto de distância sem, no entanto, se fazerem notar. Como explica o gerente do resort Armond (Murray Bartlett) a uma estagiária: “É bom que a tua presença e identidade não se tornem demasiado específicas. O que queres é ser o mais genérica possível.” Na sua instrução à funcionária nativa do havai (como tantos outros elementos do staff), este personagem que funciona como o pivô da acção, exibe aqui uma noção profunda das regras do jogo, lembrando que os convidados contam com uma espécie de suave e agradável subalternidade, para que o seu comando se exerça sem qualquer tipo de remorso. “É-nos pedido que desapareçamos por trás das nossas máscaras”, vinca ele. “É uma espécie de Kabuki tropical!”

Armond instrui ainda esta estagiária para que se dirija aos hóspedes de modo a fazê-los sentirem-se como pequenas crianças a cargo do resort cujos caprichos devem ser satisfeitos sempre que possível. Nesta cena do primeiro episódio é desvelado um organigrama que nos mostra como, apesar de sustentar um regime absolutamente vergonhoso, o dinheiro funciona como uma razão em estado exasperado, uma forma de loucura, que, por não ter nada que lhe seja exterior, exerce a sua ficção de forma totalitária, disciplinando severamente quem quer que ouse pô-la em causa, e, como ninguém ali é parvo, todos sabem o papel que lhes cumpre, ficando também claro que, por mais mimados, auto-envolvidos e neuróticos que sejam os personagens, White tem afecto por cada um deles, e recusa-se a servir-se de meras caricaturas para organizar este espelho paródico mas bastante fiel da nossa sociedade. Assim, cumpre ao capitão deste barco em terra, garantir que estas crianças mimadas que, pela virtude do dinheiro que possuem foram confiadas aos seus cuidados, são preservadas do tédio. E a sua receita é simples: sempre que se enfadam, há que recordar-lhes as coisas maravilhosas que já têm, isto porque todos eles são como pequenas crianças, e o resort são os seus pais, diz ele, e a sua tarefa é lembrá-los de que todos eles são especiais. Apesar de um horizonte bastante limitado, o olhar sobre o dinheiro que esta série nos oferece ressoa amplamente, e, como escreveu a crítica de televisão do El País Laura Fernández, traça uma radiografia de uma sociedade enferma de ego, de um eu estratosférico e que se impede de ver o outro, mesmo quando o outro está a passar por um momento de crise profunda ou vulnerabilidade à nossa frente. E se neste lugar ao qual chegámos, onde uns gozam férias sobre a invisibilidade dos outros, ninguém consegue ver o outro é porque, no fundo, já ninguém tem coragem de se encarar a si mesmo. Mesmo os traços mais odiosos não nos repugnam simplesmente, porque não se ficam por aí. O vazio que ronca como um estômago e que faz as vezes da alma destes personagens, atrai-nos como um abismo que, de forma estranha, não deixa de ser comovedor. White pinta através de camadas, e se o tom sardónico é aquele que serve de verniz no acabamento final, não apaga a sinceridade com que estima estas existências mesmo se estão para lá da redenção. E o grande triunfo nesta penetrante e perturbadora análise da nossa época revela-se no apurado ouvido que ele tem para a forma como hoje as pessoas transformam o que lhes resta de idealismo numa arma, numa atitude defensiva que parte cedo para a agressão. Como escreve James Poniewozik, crítico televisivo do The New York Times, White entende como a linguagem da auto-preservação e da auto-ajuda pode esconder uma forma embotada do bom velho egoísmo. “Mas o reverso da moeda, é que ele é um escritor suficientemente generoso para descobrir a vulnerabilidade até mesmo nos seus personagens mais irritantes.”

 

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