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José Paulo do Carmo 27/08/2021
José Paulo do Carmo

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Atletas naturalizados

Quando é do nosso clube achamos muito bem que vá à seleção e indignamo-nos com a crítica fácil dos outros mas quando é ao contrário somos os primeiros a achar mal e a tecer comentários pouco abonatórios tentando sempre explicar o inexplicável. 

Em Portugal não existe cultura desportiva, existem três clubes. Benfica, Porto e Sporting. E é esta guerra permanente entre eles, alimentada muitas vezes por gente sem qualidade, que seca tudo à volta. Começa no fanatismo que é muitas vezes incutido em casa e continua numa aposta deficitária no desporto escolar onde falta claramente uma visão estratégica e uma política de descentralização e de educação para o desporto e para a diversificação das modalidades.

Sempre nos conheci assim, mas agora cada vez pior, com as horas de programação semanal nas televisões, em que o tema é única e exclusivamente o futebol e o mesmo é dizer, os denominados três grandes. Gente sem qualidade, muitas vezes com poucos valores e nada para ensinar vai destilando ódio e passando essa imagem para os nossos jovens.

É por isso natural que quando se fala de naturalização no desporto ela seja vista mais uma vez consoante os olhos enviesados da clubite reinante e não numa lógica estratégica ou legal. Não existe qualquer tipo de coerência. Quando é do nosso clube achamos muito bem que vá à seleção e indignamo-nos com a crítica fácil dos outros mas quando é ao contrário somos os primeiros a achar mal e a tecer comentários pouco abonatórios tentando sempre explicar o inexplicável. Foi assim com o nosso recém-medalhado Pablo Pichardo mas também com Deco ou mais recentemente Otávio. O que de um país que sempre foi de emigrantes e de imigrantes, de aventureiros e viajantes que foram por esse mundo fora custa mais ainda a entender. Mas lá está, é conforme nos convém.

Parece-me no entanto que reina a confusão nas próprias instituições que regem o desporto e quando há confusão há sempre espaço para que os artistas do costume arranjem forma de contornar as regras. Jogadores que jogam por várias seleções como o caso recente de Ivan Cavaleiro, que depois de ter sido internacional por Portugal vai jogar agora por Angola ou países com maior poderio económico que acabam por aliciar os atletas a naturalizarem-se fortalecendo as suas seleções à custa do pagamento de valores astronómicos como é o caso da Rússia no futsal, que tem a sua equipa composta quase exclusivamente por brasileiros.

Será que um desportista deve poder optar intencionalmente por uma outra seleção quando percebe já em idade sénior que não consegue chegar à do seu país de nascimento? Devem os atletas poder representar um país e pouco depois mesmo cumprindo todas as normas legais representar livremente outro? Parece-me importante serem definidas regras para que os mais ricos não passem a naturalizar os melhores atletas o que seria uma subversão do conceito da competição entre seleções mas ao mesmo tempo não deve ser impedido a um jovem que vai viver desde cedo para outro lado poder representar a seleção desse país. Esta é uma reflexão que tem de ser feita também por cá, sem olhar a oportunismos circunstanciais e acima de tudo tentando evitar essa clubite que nos está entranhada.


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