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Tenochtitlán. A ferida da Cidade do México que ainda não cicatrizou

Tenochtitlán. A ferida da Cidade do México que ainda não cicatrizou

Dreamstime Sara Porto 23/08/2021 22:33

Como uma ferida que ainda não cicatrizou, os restos da grande cidade de Tenochtitlán, que caiu nas mãos dos espanhóis há 500 anos, ainda são visíveis na atual Cidade do México. No dia 13 de agosto completaram-se os 500 anos da queda da outrora “cidade esplendorosa dos Astecas”.

Esta história podia começar com: “Era uma vez...”. Há 500 anos, ocorreu um dos episódios mais transformadores da história do México. No dia 13 de agosto de 1521 a cidade indígena Tenochtitlán, considerada a capital do Império Asteca durante o período Pós-Clássico da Mesoamérica, foi “conquistada” pelos espanhóis, aliados a milhares de indígenas, depois de ter presenciado batalhas sangrentas que se prolongaram por três meses. O seu cabecilha? O espanhol Hernán Cortés.

A CHEGADA DOS ESPANHÓIS A conquista dos astecas aconteceu entre 1519 e 1521 e foi um dos episódios da invasão e colonização da América pelos espanhóis. O grande Império Asteca havia sido construído por povos mesoamericanos a partir do século XIV e, com a conquista destes, os espanhóis iniciaram a colonização da região que hoje corresponde ao México.

Foi a partir de um empréstimo que Cortés organizou uma expedição com 500 homens, que partiram em onze embarcações na direção da Península do Iucatã (atual México). Ao chegar à localidade, o explorador espanhol e os seus homens instalaram-se nas proximidades de Cempoala, uma cidade habitada pelos totonacas e cedo começaram a receber uma série de emissários dos indígenas interessados e curiosos em conhecer estes “forasteiros”. Entre eles, estavam os emissários astecas enviados pelo imperador Montezuma. Os seus primeiros contactos foram considerados pacíficos, já que os dois “povos” trocavam presentes entre si. Contudo, durante as conversas, Cortés começou a transparecer o seu interesse em conhecer o imperador asteca na sua cidade e as respostas foram sucessivamente negativas (Montezuma não tinha interesse em deixá-los entrar em Tenochtitlán): “Terminado o banquete, Hernán Cortés chamou o seu intérprete, e não sem alguma inteireza disse-lhe: ‘Que a sua vinda era [para] tratar com o imperador Montezuma da parte de don Carlos da Áustria, monarca do Oriente, matérias de grande consideração, convenientes não apenas à sua pessoa e estados, mas a bem de todos os seus vassalos, para cuja introdução necessitava de ser levado à sua real presença e nela esperava ser admitido com toda a benignidade e atenção que se devia à mesma grandeza do rei que o enviava’”, lê-se na Historia de la conquista de Mexico, de Antonio Solis (1610-1680). Apesar desse pedido, segundo o historiador, “torceram o semblante ambos os governadores a esta proposta, aparentando ouvi-la com desagrado, e antes de responder (...), ofereceram roupas delicadas de algodão, plumas de várias cores, e uma caixa grande em que vinham diferentes peças de ouro primorosamente lavradas. Fez o seu presente com desenvoltura e urbanidade, e depois de o ver admitido e celebrado, um dos emissários voltou-se para Cortés e disse: ‘Que recebesse aquela pequena demonstração com que o brindavam os escravos de Montezuma, que tinha ordens para oferecer aos estrangeiros que chegassem às suas costas, mas que tratassem logo de prosseguir a sua viagem”.

A FORMAÇÃO DAS ALIANÇAS Mas Cortés não desistiu e começou a “estudar” a balança da estrutura de poder existente na região, para usar a diplomacia desequilibrando-a a seu favor. Depressa percebeu que o poder dos astecas era baseado no controlo militar e, que inúmeros povos subjugados, eram obrigados a pagar severos impostos – a maneira “perfeita” de conseguir aliados. O primeiro povo que se aliou aos espanhóis foi o totonaca. O explorador convenceu-o de que essa aliança oferecia a vantagem de não haver mais obrigação de pagar esses pesados impostos. Após garantir o apoio destes, Cortés fundou uma cidade na região – Veracruz – e, juntamente com os guerreiros totonacas, iniciou uma marcha pelo vale do México.

Durante essa marcha, as forças de Cortés entraram em guerra com os tlaxcaltecas (povo indígena, de etnia Nahua que habitava o reino de Tlaxcala situado no atual estado de Tlaxcala). Esse era um dos povos que não havia sido conquistado pelos astecas, porém, era consecutivamente atacado por eles (aprisionavam os seus guerreiros para sacrifícios aos deuses nos rituais religiosos). Ao serem derrotados pelos espanhóis auxiliados pelos totonacas, os tlaxcaltecas tornaram-se também eles aliados na luta contra os astecas. “O que os uniu foi um inimigo comum, a cidade de México-Tenochtitlán”, disse o historiador Miguel Pastrana, investigador do período colonial indígena da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM) à BBC News, na passada sexta-feira. Segundo Pastrana, Cortés foi o grande articulador de uma aliança compreendida de outra forma pelos indígenas naquele momento. “Na época, eles não sabiam que a ação conduziria ao domínio espanhol na América”, esclareceu.

Até a queda de Tenochtitlán, “os indígenas consideravam os espanhóis apenas mais um grupo” e “não perceberam a magnitude das mudanças que estavam por vir”, ressaltou o historiador. Contudo, uma coisa é certa, “queriam mudança”: “Os povos indígenas da região eram muitos e cada um agia de acordo com seus próprios interesses. Havia os feudos, cada um dos quais com seu próprio governante, o seu povo e território”, explicou o investigador. Na prática, os feudos funcionavam como cidades-estado e, cada um deles, estabelecia alianças para expandir-se e defender-se. O problema era que a Tríplice Aliança, formada pelos feudos de México-Tenochtitlán, Texcoco e Tacuba, controlavam dezenas de povos vizinhos, fazendo-os pagar impostos e fornecer apoio militar, administrativo e até religioso, segundo explica Pastrana. “Havia muitos povos que estavam ressentidos com os astecas devido à política expansionista e às reformas de Montezuma (o governante da Tríplice Aliança)”, contou.

A aliança de alguns grupos com os espanhóis foi, por isso, fruto de mais uma dessas combinações de forças para combater um rival poderoso. Isso deixou os povos mexicanos com origem indígena, como os tlaxcaltecas, com o estigma da “traição”. Porém, “uma revisão fiel dos fatos” mostra que o ocorrido há 500 anos não foi um “esforço épico dos espanhóis, nem uma traição indígena, mas sim o produto de uma aliança muito pragmática”. Segundo Pastrana, não havia um grupo comum que teria sido traído de acordo com a conceção que vigora.

A ENTRADA NA CIDADE ASTECA Antes de entrarem na cidade asteca, a marcha dos espanhóis e os seus aliados indígenas seguiu e, em Cholula, houve um grande massacre – o chamado Massacre de Cholula – resultado de um suposto desentendimento entre astecas e espanhóis do qual resultaram milhares de mortos astecas. Esse evento fez com que Montezuma autorizasse a entrada dos espanhóis na cidade de Tenochtitlán, a 3 de novembro de 1519.

Os espanhóis foram recebidos pelo imperador Montezuma de uma maneira bastante amistosa. Os seus relatos retrataram o enorme encantamento diante da “grandiosidade da capital asteca”, que possuía 200 mil habitantes (maior do que qualquer cidade europeia da época). A cidade foi fundada em 1325, numa ilha do lago salgado de Texcoco, no que agora compreende o Planalto Central Mexicano. Numa carta, Bernál Diaz de Castillo, soldado de Hernán Cortés, descreveu a cidade de Tenochtitlán, afirmando que esta era abastecida por um sistema de água potável que provinha de aquedutos localizados nas montanhas; ligada a regiões próximas por estradas de linhas retas; com canais labirínticos, palácios e templos, e a disposição dos bairros residenciais refletia a estratificação social.

Segundo Jorge Pedro Uribe, historiador da Cidade do México, a cidade que Cortés encontrou ao chegar a Tenochtitlán em 1519 era muito diferente da atual capital mexicana. “Era uma cidade anfíbia porque havia ruas de água e ruas de terra e isso impressionou muito os espanhóis. … Era uma cidade de fantasia”, disse Uribe à EFE, na passada quarta-feira. “Era um local onde se podia subir simbolicamente aos níveis celestiais ou descer ao submundo”, sublinhou.

O GOLPE DE CORTÉS Tudo parecia estar a correr bem, no entanto, num golpe de ousadia, Cortés sequestrou o imperador, fazendo dele seu refém. Em seguida, ao ter de abandonar Tenochtitlán para resolver questões urgentes em Veracruz, Montezuma deixou a cidade asteca na posse dos seus homens. Quando regressou, encontrou a cidade em guerra e as forças astecas organizadas e prontas para atacar os espanhóis que lá estavam. Isso fez com que tivessem de fugir da cidade asteca e durante a confusão, o imperador Montezuma foi morto após ser apedrejado acidentalmente no crânio. Essa fuga da cidade, terminou em desastre, em 1520, pois os espanhóis foram atacados por guerreiros astecas, o que resultou em muitos mortos – pelo menos metade dos homens de Cortés morreu nessa luta – que ficou conhecida como La Noche Triste. Segundo a lenda, após a batalha, o líder espanhol ter-se-ia sentado debaixo de uma árvore para chorar a morte de grande parte de seus soldados, daí o seu nome. Contudo, a vitória hispano-indígena foi gradual, com avanços e retrocessos dia após dia, até maio de 1521. Segundo o relato do frade franciscano espanhol Bernardino de Sahagún, os astecas conseguiram “sair vitoriosos algumas vezes com a captura de espanhóis que foram mortos e tiveram as suas cabeças colocadas em locais visíveis para intimidar os inimigos”.

Depois da La Noche Triste, as tropas espanholas retornaram a Veracruz para reorganizar suas forças e, mais tarde, retomar à cidade. Cortés deu-se conta de que deveria criar uma maior aliança indígena para avançar sobre um inimigo comum: a poderosa Tríplice Aliança. E foi precisamente isso que aconteceu, um ano depois.

A CONQUISTA PELOS ESPANHÓIS A aliança estabelecida incluía ainda povos como os Cempoala, Quiahuiztlán, Texcoco, Chalco, Xochimilco, Azcapotzalco e Mixquic e foi fundamental para o ataque, entre maio e agosto de 1521, à cidade de Tenochtitlán. “Era um exército enorme e imponente, com muitos soldados, sobretudo indígenas. Para cada espanhol, havia 10 ou 15 indígenas, além das forças de apoio”, contou Pastrana à BBC. Segundo o historiador, os espanhóis mandaram construir 13 navios e “essas embarcações foram fundamentais para vencer as canoas utilizadas pelos astecas no passado (para defender o lado que rodeava a cidade)”. Após vários confrontos, o exército de Cortés conseguiu posicionar-se em três das calçadas que ligavam a ilha de Tenochtitlán e sua cidade-irmã, Tlatelolco, à terra firme, pondo fim a todo o fornecimento de alimentos e apoio militar, tendo ainda cortado o fornecimento de água potável. O resultado do cerco a Tenochtitlán foi a vitória espanhola. O novo imperador, que se chamava Cuahtemoc, foi feito prisioneiro e, a partir daí, os espanhóis passaram para a conquista das outras cidades menores controladas pelos astecas. Com a conquista desse povo, estabeleceram-se na região que foi inicialmente administrada pelo próprio Cortés.

UMA TRAIÇÃO? “Definitivamente não se pode falar de traição porque os povos não eram amigos. Não eram grupos que tivessem uma aliança pacífica, uma relação entre iguais. Eles tinham uma série de conflitos”, ressalta ainda o historiador, a propósito da aliança entre os espanhóis e indígenas, que ajudaram à queda dos astecas. De facto, a aliança foi originalmente uma proposta dos indígenas de Cempoala e Quiahuiztlán, reforçada pelos tlaxcaltecas, mas era compreendida em termos distintos. “Para Cortés, os povos indígenas eram considerados vassalos da Igreja Católica. Para os indígenas, tratava-se de uma relação entre iguais, entre amigos que estabelecem um pacto de apoio político-militar mútuo. Eles não sabiam o que era um rei, muito menos o que é ser católico”, elucidou. A partir daí, a história mostra que, apoiando a conquista espanhola, os indígenas perderam todo o poder que tinham, “eles não sabiam disso naquele momento”, ressaltou.

O QUE RESTA DE TENOCHTITLÁN? A partir da conquista da cidade asteca, a expansão espanhola começou na América, estendendo-se pela América Central e do Sul nas décadas seguintes. “Dia 13 de agosto de 1521 foi o primeiro capítulo importante da construção do mundo moderno”, ressalta Pastrana, defendendo que os povos da região mesoamericana – à qual pertencia México-Tenochtitlán – não acabaram em 1521, “começaram sim a transformar-se”, declarou. “Foi o início de uma enorme experiência cultural, que é a Nova Espanha”, acrescentou o historiador.

Depois de conquistada, “começou a destruição dos templos e edifícios, mas também o reaproveitamento de muitos materiais”, acrescentou à EFE, o arqueólogo Eduardo Matos Moctezuma, que foi incumbido no final dos anos 70 de investigar o templo num dos principais estudos de marcos arqueológicos do México. Além disso, os costumes, odores, incensos e pratos continuam vivos. “Se viajássemos ao passado, cinco séculos atrás, havia coisas muito semelhantes”, admitiu o historiador. É um legado que vai muito para além disso, já que o antigo México-Tenochtitlán acabou por dar o seu nome a um país inteiro, deixando de fora muitos outros povos que se estabeleceram na região. Hoje, o símbolo asteca de uma águia está no escudo nacional do México. “Por ter enfrentado as forças de Cortés, o povo asteca assume uma grande relevância no México independente”, frisou Matos Moctezuma.

Posto isso, o governo de Andrés Manuel Lopez Obrador preparou as celebrações para o 500.º aniversário da conquista, muitas vezes chamado de início da “resistência indígena” e até organizou datas para que fosse possível comemorar simultaneamente o 700.º aniversário da fundação de Tenochtitlán.

O QUE FICOU POR SABER? A data é motivo de lançamentos de livros, conferências e encontros que debaterão as distintas linhas de abordagem historiográfica sobre o passado pré-hispânico, a transformação daquele território em colónia europeia e, mais tarde, no México que conhecemos. A conquista de Tenochtitlán também foi tema de uma rica programação por parte da Universidad Nacional Autónoma de México que, entre os seus destaques, inclui um dos principais estudiosos do tema, precisamente o antropólogo Eduardo Matos Moctezuma. Um dos temas presentes nos debates está assente na questão da urbanização. Não se trata de querer voltar ao passado, mas de formular soluções para que a cidade volte a ter alguma da harmonia existente naquele tempo entre o centro urbano e a natureza. Caiu Tenochtitlán, desapareceram os templos, as praças, os edifícios. E, o que era um belo sistema de canais interconectados ficou por baixo de uma megalópole construída sem nenhum planeamento que, até hoje, convive com o lago debaixo de si em muitas partes.

A atual Cidade do México (superpovoada) vive em constante risco num território lodoso e, ainda por cima, dado a terramotos. As últimas ideias românticas de reviver pelo menos parte de seu passado aquático, foram sepultadas quando se construiu o anel rodoviário que a circunda e que leva, de um lado a outro da cidade, um mar de carros. Também estará em discussão o que de fato ocorreu em 1521: Foi uma invasão? Um ataque? Ou uma conquista baseada em traições e intrigas diplomáticas da época?

 

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