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Lily Allen. A artista que resistiu à heroína e se dedicou às tábuas de madeira

Lily Allen. A artista que resistiu à heroína e se dedicou às tábuas de madeira

DR Sara Porto 19/08/2021 21:10

Aos 36 anos, a cantora britânica regressa, desta vez a palcos diferentes. Depois de dois anos sem consumir álcool nem drogas, Lily Allen estreia-se como atriz no thriller 2:22 A Ghost Story, no Noël Coward Theatre, em Londres.  

onhecemo-la a sorrir, quando partilhou com o mundo o seu primeiro single, ‘Smile’, em 2006. Depois, a vida encarregou-se de lhe mostrar que os sorrisos podem não durar muito: problemas com stalkers, vícios em drogas, distúrbios alimentares, casos com prostitutas, prisão, duas gravidezes que correram mal e a constante luta pela emancipação feminina.

Lily Allen sempre foi muitas coisas e a sua vida com certeza daria um bom documentário feito de conquistas, mas também de escuridão. Há quem ainda tenha presente a imagem das multidões nos seus concertos, com o dedo do meio levantado, enquanto a artista cantava e cativava as energias com a música ‘Fuck You’.

Através dela, as pessoas vibravam, gritavam, gesticulavam e aproveitavam para libertar várias frustrações pessoais, como se a letra tivesse sido escrita para elas mesmas. Talvez seja essa uma das maiores singularidades de Allen que, além de cantora, presenteou os seus públicos com videoclipes que sempre foram muito além da música. 

A estreia no teatro Agora, aos 36, Allen voltou à cena. E, desta vez, literalmente. Dos ecrãs dos telemóveis, televisões, tablets e palcos de música de todo o mundo, a artista salta para as tábuas de madeira do Noel Coward Theatre, no West End londrino, com o thriller 2:22 A Ghost Story. Nas próximas dez semanas interpretará Jenny, a sua primeira personagem enquanto atriz. “Estou a surfar numa onda de constante emoção e terror”, disse à BBC News sobre a sua estreia em palco.

“Mas é muito bom estar aqui neste teatro e ser uma das primeiras coisas que as pessoas têm vindo a ver depois do estranho ano e meio que tivemos”, acrescentou, relembrando que 2:22 é uma das primeiras novas produções lançadas no West End desde 19 de julho (data a partir da qual o governo permitiu que os cinemas reabrissem com capacidade total para o público).

Allen juntou-se à produção no início deste ano, após ter recebido um telefonema de um diretor de casting, enquanto estava a voar para Nova Iorque. “Ele enviou-me o roteiro, eu li, o meu marido [o ator David Harbor] leu, e ficámos os dois maravilhados. Falei com o responsável na noite seguinte e estava aqui seis semanas depois”, contou a artista.

Lily Allen interpreta Jenny, uma mulher convencida de que a sua casa está assombrada. Todas as noites às 2h22, ouve sons vindos de outras partes do prédio, geralmente através do intercomunicador através do qual vigia o seu filho bebé.

Uma noite, enquanto ela e seu parceiro (interpretado por Hadley Fraser) estão num jantar com duas amigas, Jenny convence o resto do grupo a ficar acordado até de madrugada para que todos possam testemunhar aquilo que ela ouve todas as noites.

“É um instinto primordial querer ficar com medo, mas também saber que é apenas ficção”, comentou Fraser a propósito do apetite contínuo do público por peças de teatro assustadoras. “É um conforto saber que podemos sair do teatro no final da noite, depois de termos estado apavorados durante duas horas. Espero que o nosso espetáculo seja um bom equilíbrio entre suspense psicológico, alguns pulos de susto, e um bocadinho de comédia”, disse o ator à BBC. 

De cantora a atriz Esta é certamente uma mudança de cenário para a artista. Como cantora, teve um período áureo no final dos anos 90, com sucessos como ‘Smile’, ‘The Fear’, ‘LDN’ e ‘Not Fair’, que lhe valeram vendas consistentemente altas de álbuns. Contudo, embora possua uma vasta experiência em tocar ao vivo, Allen diz que atuar nas tábuas de madeira é uma disciplina “completamente diferente”. Por um lado, não se consegue envolver com o público.

“Nos concertos, tentamos atrair as pessoas com anedotas ou conversas entre as músicas. E é assim que nos envolvemos com as pessoas”, elucida, explicando que no palco de música as reações podem ser sempre espontâneas e manter-se fiel a si mesma, enquanto no teatro tem de pensar “não, tu não é Lily, és a Jenny”. 

Além disso, a artista teve de aprender a projetar a sua voz e a memorizar o texto, o que se tem afigurado mais complexo do que recordar as próprias letras... Isto, se as soubesse de cor: “Na verdade eu tenho sempre auxílio de uma karaoke quando canto nos concertos. Eu nem sei as letras das músicas que escrevi!”, admitiu à BBC.

A constante pressão dos media A verdade é que os produtores não podiam ter encontrado um nome melhor do que Lily Allen para despertar o interesse tanto do público como dos media. O anúncio da sua participação atraiu uma grande quantidade de elogios e interesse dos tabloides (o que tem sido uma bênção e, ao mesmo tempo, uma maldição para a artista).

“Esta coisa toda é maciçamente opressora, mas tem sido uma experiência incrível. Todos têm sido tão solidários e pacientes, porque eu sou literalmente ‘a idiota da aldeia’. Não faço ideia daquilo que estou a fazer”, admitiu. E o seu envolvimento no espetáculo tem sido “um pau de dois bicos”.

Embora traga uma enorme visibilidade que resulta numa consequente avalanche de bilheteira, a produção preocupa-se com a pressão de que a artista possa ser alvo, já que há muito tempo que é um íman para os media: “Ela está sob um escrutínio que ninguém mais enfrenta”, observou o dramaturgo Danny Robins.

“Todas as noites, quando sai do teatro, há manchetes no dia seguinte sobre o que tinha vestido. É tudo ‘Lily sai do teatro com um top casual’ ou ‘Lily usa estes sapatos’. Por que é que estamos a julgar uma mulher que está a estrear de forma brilhante no West End, mas só se fala daquilo que usa ou não?”, interrogou o responsável pelo espetáculo. A sua “relação” com a comunicação social é longa e já fez correr muita tinta. 

O passado de Allen Lily Rose Beatrice Allen nasceu em Hammersmith, oeste de Londres, em 1985. Filha do ator Keith Allen e da produtora de cinema Alison Owen, teve uma infância conturbada com a separação dos pais. Ao mesmo tempo, o nascimento nesse meio ofereceu-lhe deste cedo com o universo musical e artistico: frequentou 13 escolas, incluindo a Hill House International Junior School, a Millfield School e a Bedales School, mas acabava sempre por ser expulsa por beber e fumar. 

Começou a cantar com onze anos, depois de ser descoberta a cantarolar a música ‘Wonderwall’, dos Oasis, o que impulsionou as suas primeiras “aparições em público”, ainda na escola. Allen aprendeu a tocar violino, guitarra e trompete e foi membro de um coro.

Em 1998, apareceu no videoclipe da música ‘Vindaloo’, dos Fat Les. Aos 15 anos, decidiu deixar a escola para se “concentrar em melhorar suas habilidades performativas e composicionais”. Em 2005, partilhando algumas das suas gravações vocais no MySpace, conseguiu uma aparição na BBC Radio 1 e um contrato com a Regal Recordings.

Um trauma para Allen Depois da sua voz já ser reconhecida no mundo, começou aquele que seria um dos grandes problemas e traumas de Allen e que se arrastou por mais de seis anos. Foi em 2006 que o seu stalker, Alex Gray, estabeleceu o primeiro contacto, enviando uma série de tweets, sob o nome “@lilyallenisRIP” alegando que tinha sido ele a escrever a música ‘The Fear’.

A partir daí começaram as cartas com ameaças, tanto para a sua casa, como para lojas que frequentava, à sua produtora e até mesmo para pessoas que lhe eram mais próximas. Em outubro de 2015, Gray enviou um e-mail para a sua mãe a informar que estava a planear matar a celebridade: passou noites no seu quintal, invadiu o seu quarto enquanto esta dormia e, por fim, forçou Allen a mudar-se.

Em abril de 2016, o homem foi condenado por roubo e assédio. No Tribunal Harrow Crown a 10 de junho, o juiz Martyn Barklem sentenciou-o a uma ordem de internamento por tempo indeterminado. Gray foi também objeto de uma ordem de restrição e proibido de entrar nos bairros de Hammersmith, Fulham, Kensington e Chelsea.

O contacto com as drogas Dia 30 de julho deste ano, a cantora comemorou dois anos de sobriedade, com uma partilha no seu Twitter: “Celebro hoje dois anos livre de drogas e álcool! Ficar sóbria foi a melhor coisa que fiz, e já fiz muitas coisas boas na minha vida”, escreveu.

Apesar de já ter falado várias vezes do seu passado sombrio, só há relativamente pouco tempo a cantora nos permitiu deu acesso “na íntegra” a essa página da sua vida. 

Em 2009, Allen já havia admitido, numa entrevista à revista World, ser contra a imagem negativa que impende sobre as pessoas que consomem drogas pesadas. A artista revelou ainda ter experimentado cocaína numa altura em que sentia “uma criança abandonada” porque “todos à sua volta o faziam” e ela não. “Foi por isso que o fiz, mesmo não gostando”, admitiu.

“Conheço muitas pessoas que consomem cocaína três noites por semana e que no dia seguinte se levantam e vão trabalhar, sem qualquer problema. Nunca ouvimos o outro lado da história. Não tenho de ser eu a comentar mas gostava que não se exagerasse tanto uma coisa que simplesmente existe”, defendeu. “A única coisa que passa é que as drogas são más e te vão matar, que te vais tornar prostituta, criminoso ou ‘dealer’ e isso não é verdade”.

No início deste ano, numa entrevista ao Daily Mail, Lily contou ainda os momentos difíceis por que passou em 2014, quando acompanhou a tournée de Miley Cyrus e começou a consumir heroína. Após ter tido dois abortos espontâneos a cantora foi mãe de Ethel Mary, em 2011 e em 2013 deu à luz Marnie Rose, ambas filhas do decorador e designer Sam Cooper.

Na tournée sentia-se abalada com seu corpo pós-gravidez: “Cerca de seis meses depois da minha filha mais nova nasceu, ficámos sem dinheiro e tive que voltar. Pesava 88,9 quilos e não me sentia sensual”, explicou a cantora ao jornal britânico. 

Para emagrecer, ficou viciada em heroína, “porque me fazia sentir invencível”, reconheceu. Contudo, a artista resistiu à adição, optando pelo sexo em lugar da heroína: “Na época não sabia, mas os vícios podem manifestar-se de todas as maneiras. Há muitas coisas estruturais que podem surgir quando estamos acordados e eu quis focar-me na educação das minhas filhas. Ter filhos desencadeia responsabilidades”, sublinhou.

Em 2019, numa entrevista ao The Guardian por ocasião do lançamento do livro das suas memórias, My Thoughts Exactly, afirmou ter ficado surpresa por não estar “morta” depois de todos os anos de loucura, e revelou que tinha chegado a recorrer a serviços de prostituição.

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