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Literatura feminina. Escreverão as autoras apenas para mulheres?

Literatura feminina. Escreverão as autoras apenas para mulheres?

DR Sara Porto 05/08/2021 11:49

Os números não enganam. Além de ser mais difícil verem as suas obras publicadas, as escritoras são muito menos lidas por homens do que por mulheres. A que se deve o fenómeno?

Ao longo dos séculos, as escritoras mulheres foram sistematicamente excluídas do cânone literário. Dizia Virginia Woolf que o problema começa antes, com a exclusão da mulher do mundo das letras e artes. Para o exemplificar, a escritora britânica gostava de contar a história da irmã de William Shakespeare, Judith, igualmente talentosa. William frequentou a escola, teve a liberdade de se mudar para Londres para perseguir a sua paixão pelo teatro, conseguiu trabalho e hoje é reconhecido como o maior escritor da língua inglesa. Enquanto isso, a sua extraordinariamente dotada irmã permanecia em casa e seria forçada a casar. Tempo depois, revoltando-se contra os “deveres” da mulher na época, mudou-se para Londres, mas, ao contrário do irmão, nunca conseguiu trabalho no teatro, pois o ofício da representação estava vedado às mulheres. A história acaba com Judith grávida suicidando-se.

Não seria correto afirmar que, no passado, as mulheres não escreviam. As poucas que tinham o privilégio de serem alfabetizadas escreviam cartas – e algumas mais do que isso, mas não partilhavam e muito menos publicaram os seus textos. Com algumas exceções. No século XIX Charlotte Brontë assinava com o pseudónimo Currer Bell e Mary Ann Evans como George Eliot. E mesmo já no século XX Karen Blixen publicou África Minha sob o nom de plume Isaak Dinesen.

OS HOMENS NÃO LEEM AS MULHERES? Mas, algo que nos parece tão distante, ainda hoje se vê e sente. Por muito que as mulheres já escrevam, publiquem, e sejam reconhecidas no mundo inteiro, o seu percurso profissional e o seu estatuto dificilmente se igualam ao de um homem. Continua a existir um estigma relativo à literatura “feminina” e são poucos os homens que a leem. Um ensaio realizado pela autora, jornalista, apresentadora de rádio e ex-editora assistente do The Times, Mary Ann Sieghart, revelou que as dez escritoras mais vendidas no Reino Unido são lidas quase exclusivamente por mulheres.

Sieghart já suspeitava que os homens leem muito poucos livros escritos por mulheres. Contudo, para perceber de que números se tratava, decidiu encomendar um estudo sobre preferências de leitura por sexo à empresa Nielsen Books, que fornece uma gama de serviços para a indústria do livro a nível internacional, auxiliando na descoberta e compra, distribuição e medição de vendas de livros. O resultado, não só corroborou as suas suspeitas como superou todas as suas piores expectativas: entre as dez escritoras mais vendidas no Reino Unido (onde se encontram Jane Austen, Danielle Steel ou Margaret Atwood), apenas 19% dos seus leitoras são homens e 81% mulheres. Já quando se fala nos dez escritores mais vendidos em Inglaterra (como Charles Dickens, Stephen King e JRR Tolkien), 55% dos leitores são homens e 45% mulheres. Ou seja, “as mulheres são muito mais inclinadas a ler livros escritos por homens do que o contrário e os homens parecem importar-se muito pouco com o que a “outra metade da humanidade” lhes pode dar a conhecer.

“Porque há um preconceito de uma misoginia fundamental: as mulheres não têm nada de interessante para dizer… Não são levadas a sério”, explica a escritora Inês Pedrosa, ao telemóvel com o i. “Há um preconceito à partida com a literatura escrita por mulheres... Nem lhes dão hipótese. E há uma coisa de que todas nós [escritoras] nos rimos... Quando uma mulher escreve um romance de amor (e todos os romances em geral passam pelo amor ou pela morte), é, muitas vezes, referido logo como ‘um romance sentimental’ ou ‘de amor’. Se for um homem a escrever exatamente o mesmo tipo de romance, é ‘um romance sobre a condição humana’. Isso existe! E eu sinto isso no dia-a-dia”, revela. “Já fui apresentada muitas vezes como uma escritora que escreve sobre os sentimentos, ou o amor. Nunca apresentariam o José Luís Peixoto ou o Lobo Antunes dessa forma… Mesmo que escrevam também sobre sentimentos”.

Apesar disso, há fenómenos de grande sucesso. Um dos casos mais recentes é o da escritora italiana Elena Ferrante “que me dá um bocadinho de ‘respiração’”, adianta Inês Pedrosa. “Eu, por exemplo, tive dois livros que foram traduzidos e publicados nos EUA, precisamente porque houve editoras que, inspiradas no “movimento” da Ferrante, começaram a perguntar se não haveria mais mulheres do sul da Europa que contassem histórias sobre esses sítios. No meu caso, fez uma grande diferença”. Pedrosa explica que sente estes exemplos como “uma espécie de ‘respiradouros’ que não apagam a realidade, mas que nos mostram que estamos a caminhar”.

O ESTUDO DA NIELSEN O estudo da Nielsen faz parte do ensaio The Authority Gap (Knopf), onde Sieghart explica porque é que as mulheres ainda são levadas “muito menos a sério do que os homens” e de que maneira isso torna o seu trabalho menos valorizado, menos promovido e menos bem pago, “embora o seu desempenho seja igual ou superior ao dos seus colegas homens”.

Através da recolha de anedotas e de entrevistas a vários detentores de cargos de decisão, tais como o presidente da Câmara de Washington DC, o primeiro-ministro da Croácia, a secretária do Tesouro dos Estados Unidos Janet Yellen e a diretora do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, Sieghart conseguiu detalhar a forma como continua a associar-se o conceito de autoridade ao sexo masculino. O estudo da Nielsen indica ainda que as mulheres têm 65% mais probabilidade de ler um livro de não ficção escrito pelo sexo oposto do que os homens.

Mas não é tudo. Inês Pedrosa acrescenta que os homens leem muito menos ficção do que as mulheres, “porque ainda são educados para uma cultura do ler ‘imediato’, ler para saber alguma coisa em concreto que os possa ajudar na vida profissional, ou que os possa ajudar a brilhar num fórum qualquer. Há um preconceito contra a ficção por parte dos homens, talvez por ser uma arte considerada muito ‘de mulheres’. ‘Não tenho tempo para ler romances’, pensam, achando que um romance não é tão útil como um livro de história, ou um livro técnico”, defendeu a escritora.

E não é que os homens não gostem do que as mulheres escrevem. Se atentarmos às classificações dadas por leitores de livros escritos por mulheres no Goodreads, a pontuação é mais alta, 3,9, do que a dos escritos por outros homens, 3,8.

OS PSEUDÓNIMOS A história da literatura está repleta de escritoras que ocultaram a sua identidade ou disfarçaram a seu nome com iniciais ou pseudónimos para evitar tais “preconceitos”. O exemplo mais conhecido é o de Johanne Rowling, autora da saga Harry Potter, que, para ser publicada, recebeu o “conselho” de assinar como J.K. Rowling. O acrónimo tinha um duplo objetivo: não só mascarar o seu género, como também assemelhar-se a J.R.R. Tolkien, autor de Senhor dos Anéis, um dos mais celebrados livros de fantasia jamais escritos. Harry Potter veio a ser um bestseller estrondoso a nível mundial e Joanne Rowling a primeira escritora a entrar na lista de bilionários da revista Forbes.

“Eu tenho um agente literário que é americano e que diz que, atualmente, quando tem dois autores, um homem e uma mulher, tendo de optar por um deles, opta pela mulher porque é a ação cívica dele, o seu ativismo, porque ao longo do tempo se apercebeu de que as mulheres têm muito mais dificuldades. Como os agentes vivem de parte dos direitos dos autores, tendem a escolher os homens. É mais fácil, é um ciclo vicioso com muita dificuldade em se quebrar”, revela Inês Pedrosa. E acrescenta: “Aqui em Portugal eu conheço mulheres que concorrem com livros a prémios ou concursos, com pseudónimo, optando sempre por um nome masculino. Porque sentem que têm mais possibilidades de ser selecionadas. Têm medo que o nome seja posto de lado, assim que vir que é uma mulher”.

Já em 2014, a escritora Joanna Walsh havia levantado a questão da falta de visibilidade das escritoras mulheres e lançou a campanha #ReadWomen2014 (#LeiaMulheres2014), com o intuito autoexplicativo de fazer as pessoas lerem mais livros escritos pelo sexo feminino. Num artigo redigido por si e publicado no portal virtual do jornal The Guardian intitulado “Will #readwomen2014 change our sexist reading habits?”, Walsh pondera se o problema não irá muito para além da questão das mulheres serem ou não serem publicadas, mas sim a forma como isso é feito. “Existe uma noção dentro do mercado editorial, que se estende também a outros mercados relacionados com a arte, como o mercado audiovisual, de que a literatura produzida por uma mulher é primordialmente dirigida a mulheres, e não é interessante para os homens”, nota o artigo.

A autora relatava também uma experiência pessoa. “Uma vez, aconteceu-me uma cena cómica. Em 2019, num festival, ia apresentar um excerto do meu livro O processo violeta. Escolhi o excerto que fala de uma violação de um aluno a uma professora e o apresentador apresentou-me como ‘uma escritora que escreve sobre afetos’, qualquer coisa muito florida. Depois ficou muito surpreendido quando me ouviu ler, não estava à espera daquela brutalidade… Porque há esse preconceito à partida e isso não faz avançar as coisas”.

 

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