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José Cabrita Saraiva 04/08/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Deitar abaixo tudo o que se faz de novo

Ouço com frequência pessoas dizerem que a cidade de Lisboa está bonitinha mas que isso não basta. Não bastará – mas também não é coisa de pouca monta. Para quem se lembra das centenas de edifícios desabitados em pleno centro histórico, talvez não seja exagerado dizer que foi invertido o processo de decadência acelerada que estava em curso.

Fernando Medina ficará para sempre ligado a essa renovação, em que teve como aliado precioso o boom do turismo. Com certeza haverá sempre quem prefira apontar os aspetos negativos do fenómeno, mas é inegável que o turismo trouxe vida, animação, sangue novo e recursos nunca antes vistos. O presidente da Câmara aproveitou-os bem para deixar a sua marca. O final deste mandato autárquico fica ligado a duas obras de grande escala e dimensão simbólica: a requalificação da Praça de Espanha e o fecho do Palácio da Ajuda.

A primeira, como se sabe, foi inaugurada de forma despudoradamente precipitada, tendo sido dada como completa quando ainda faltava muito para fazer. Quanto à segunda, não faltaram as críticas à obra. Pode discutir-se a maior ou menor felicidade do projeto, mas tem o grande mérito de colocar o ponto final num romance – se não uma novela – de dois séculos. Ou será que preferiam como estava antes, um palácio com as paredes escalavradas, com as traseiras dando para uma espécie de terra de ninguém? Mas nos últimos dias surgiram factos novos, quase anedóticos. As obras deixaram algumas casas na calçada da Ajuda com a entrada a um metro e meio do chão. Terão os residentes de entrar de escadote? Falso alarme: “Informo que as casas são da GNR, estão desocupadas e a entrada é pelo outro lado, pelo pátio do quartel”, disse Medina em resposta a um tweet de Rui Rio.

No bate-boca da arena política, o presidente da Câmara marcou pontos. Temos o péssimo hábito de deitar abaixo tudo o que aparece de novo, seja a nova ala do Palácio da Ajuda, seja a Praça de Espanha, seja outra obra qualquer. As críticas são legítimas, necessárias. Mas a maledicência é outra coisa. 


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