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Carlos Alves. E no bolso dos calções estavam as luvas daquela menina de olhos doces

Carlos Alves. E no bolso dos calções estavam as luvas daquela menina de olhos doces

Afonso de Melo 03/08/2021 23:00

Foi o neto, João Alves, que espalhou a fama dos Luvas Pretas. Mas o avô foi o primeiro a usá-las. Num jogo entre o Carcavelinhos e o Benfica. Nunca mais voltou a tirá-las

É do João, o neto, jogador finíssimo, com pés de belbutina, que nos lembramos quando falamos em luvas pretas. Não tranças pretas, como no fado de Vicente de Câmara, mas há sempre algo que junta o fado com o futebol: “E as raparigas d’alta roda que passavam/Ficavam tristes a pensar no seu cabelo/Quando ela olhava, com vergonha, disfarçavam/E pouco a pouco todas deixaram crescê-lo”.

Foi uma menina da alta roda que convenceu o Carlos. O Carcavelinhos – que mais tarde, numa fusão com o Fósforos deu o Atlético – jogava contra o Benfica no Campeonato de Lisboa. O Carlos estava nos seus exercícios de aquecimento, concentrado, disposto a fazer o melhor que pudesse contra um adversário superior. Depois distraiu-se. E como não? Um moça belíssima acenava-lhe da bancada. Suplicava-lhe para ir ao seu encontro. O Carlos não resistiu aos seus olhos escuros e meigos. E foi.

Estávamos em novembro de 1930. Carlos Alves começara a sua carreira de futebolista pouco antes, em 1927. A rapariga ofereceu-lhe um par de luvas leves, de pelica, femininas como nenhumas outras. Sussurrou-lhe ao ouvido: “Vai e joga com elas por mim, faz-me a vontade, quero reconhecer-te no meio de todos os vinte e dois que estarão em campo”:

Carlos embatucou. Não que fosse um tímido, pelo contrário. Era atrevido nas alturas de o ser e tinha, em seu redor, um grupo de meninas e de mulheres que apreciavam a sua cara lisa que parecia talhada na pedra. Que não, que não podia ser, quer era uma vergonha, um motivo de chacota, era o que faltava entrar em campo com luvas de madame, toda a gente iria comentar e dizer que ele estava louco de todo. E assim, decidido na sua inequívoca negativa, entrou em campo de mãos nuas.

Carlos Alves viveu no tempo das lendas e talvez tudo não tivesse passado para lá das lendas. Benfica e Carcavelinhos batiam-se denodadamente por uma vitória que poderia cair para qualquer lado. Ao intervalo, na cabina, Carlos Alves meteu a mão ao bolso dos calções – que ao tempo ainda tinham bolsos – e retirou dele um par de luvas pretas ligeiramente amarrotadas. Decidiu que era um gesto do Destino. Envolveu as mãos com elas, entrou em campo e fez um golo. Nascia o Luvas Pretas como se estivéssemos a falar de um livro de Ponson du Terrail.

As luvas O Carcavelinhos ganhou ao Benfica, Carlos Alves contemplou o céu à espera de algum sinal divino, e depois as mãos negras de luvas. A partir de aí tomou a decisão de jogar sempre com elas.

Carlos Alves Junior nasceu em Lisboa, a 10 de outubro de 1903. Quando começou a jogar no Carcavelinhos, em 1925, era um back. Tanto back-ao-centro como back-direito, para usar os anglicismos da altura. Jogador de categoria e técnica apurada. Não tardou a fazer parte dos habituais selecionados para a equipa de Portugal. Viveu entre o final de maio e o princípio de junho de 1928 a extraordinária aventura lusitana do torneio dos Jogos Olímpicos de Amesterdão, que pode ser considerada como primeira demonstração internacional de valor da Equipa-de-Todos-Nós, como lhe chamou Ricardo Ornellas.

Depois de ter deixado o Chile fora da prova, numa eliminatória preliminar, com uma retumbante vitória por 4-2, Portugal eliminou a Jugoslávia (2-1) e perfilou-se entre os apurados para os quartos-de-final com compreensíveis ambições de poder chegar às medalhas. O_Egipto, adversário seguinte, era tão desconhecido que não metia medo. Talvez um desgraçado excesso de confiança tenha tomado conta dos nossos jogadores, embora os jornais portugueses avisassem antecipadamente que a linha avançada dos norte-africanos era composta por quatro terríveis faraós que corriam como se tivessem asas nos pés. Debalde. Portugal perdeu por 1-2. Mas isso não retirou o entusiasmo com que a equipa foi recebida no regresso a Lisboa com os adeptos agradecidos pelas suas boas exibições.

Carlos Alves era um dos indispensáveis, nesse tempo. Manteve-se fiel ao Carcavelinhos até 1933. Depois, deixou-se encantar pelos ares do norte e passou duas épocas no Académico do Porto antes de, em 1935-36, ter completado uma época como jogador do FC Porto. Voltou ao Académico para fechar a carreira em 1938. Instalou-se em Albergaria-a-Velha, trabalhou para as fábricas Alba, uma metalúrgica impressionante que tinha a sua própria equipa de futebol, o Sport Club Alba, e foi treinador do clube durante vários anos.

Foi em Albergaria-a-Velha que nasceu o seu neto, João Alves que, como seria de esperar, deu os seus primeiros pontapés, ainda como junior, no Alba do avô Carlos que sempre considerou uma espécie de pai. Daí sairia para o Varzim, para o Montijo, para o Boavista, para o Salamanca, para o Benfica e para o Paris-Saint-Germain, sempre de luvas pretas calçadas, como o avô, sempre naquele estilo de amar a bola como se ela fosse, e era, o centro da sua vida.

Carlos Alves, o primeiro luvas pretas, que se deixou enfeitiçar pela rapariguinha que lhas deu num jogo contra o Benfica, morreu em 1970, no dia 12 de novembro. Talvez tenha sido uma das razões que fez com que o neto, João, abandonasse Albergaria-a-Velha para conquistar o mundo. Em homenagem ao avô jogou sempre com as luvas que fez dos dois Alves figuras únicas do futebol em Portugal. Uma moda de luvas pretas só deles, de mais ninguém, como as tranças da violeteira do Chiado que deixou saudades e foi-se em embora pela tardinha. Alves e Alves. Avô e neto. Luvas pretas como as deles ninguém as tinha. E as primeiras de todas, esquecidas num bolso dos calções durante 45 minutos. Luvas de pelica que encheram o coração de uma menina que só tinha olhos para o Carlos. E ele, orgulhoso, vencedor de luvas calçadas...

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