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3 de agosto de 1932. Barcos ferrugentos rangiam podres amarrados aos cais

3 de agosto de 1932. Barcos ferrugentos rangiam podres amarrados aos cais

Afonso de Melo 03/08/2021 21:26

A Marinha Mercante Portuguesa batera no fundo. Mais de 70% da sua frota era composta por navios velhos e relhos que se arrastavam sobre as ondas dos mares que haviam sido nossos. O Império custava caro. E os sonhos de grandeza pareciam transformar-se em pesadelos.

A marinha mercante portuguesa batera no fundo. A preocupação era geral, mas havia um homem mais preocupado do que todos os outros: José dos Santos, presidente da Liga dos Oficiais da Marinha Mercante. De toda a parte recebia más notícias. De todos os comandantes recebia queixas. Não tinha mãos a medir. Portugal, o país dos navegantes, espalhava pelos mares barcos podres e ferrugentos, candidatos a acidentes trágicos. A Classe dos Oficiais e Maquinistas, dos Operários Maquinistas Fluviais e do Sindicato Único dos Fogueiros, reunia-se quase diariamente para discutir os problemas mais prementes e procurava encontrar soluções. A crise tomava aspetos alarmantes.

Uma Comissão de Defesa entregou um manifesto ao ministro da Marinha. Nele se expunha o estado a que a nossa Marinha de Comércio se encontrava reduzida e as medidas que seriam obrigatórias para a pôr a funcionar de forma urgente. O manifesto seguiu até às instâncias superiores: presidente do Conselho e Presidente da República.

Sublinhava-se: este é um caso de supremo interesse nacional!

Podia ler-se no documento: “A Marinha Mercante Portuguesa conta, hoje, com cerca de duzentas mil toneladas. Mas, dessa tonelagem, a verdade é que a parte mais importante, cerca de setenta por cento, é constituída por barcos com mais de vinte anos de existência que deviam ser imediatamente substituídos. Apenas quatro por cento corresponde a barcos novos, com menos de quatro anos”. Claro que, em seguida, se apelava ao orgulho nacional:_“Entretanto continuamos a ser a terceira potência colonial, com uma grande tradição marítima e com as necessidades que ela nos impõe. Não vale a pena estarmos a fazer comparações com grandes países, como a França ou a Itália, nem com aqueles como a Grécia ou a Suécia, que não têm as nossas obrigações de ordem histórica e colonial”.

 

Exigências!

O mote estava dado. Portugal acabara de vender dois dos seus principais navios mercantes, o Pedro Gomes e o África. Pelo caminho estavam mais oito que, apesar de continuarem a navegar, já tinham sido negociados. Algo que deixava José dos Santos de cabelos em pé. Se a sangria continuava neste ritmo, não tardaria a não ter nada para fazer.

Numa entrevista concedida a um vespertino lisboeta, punha o dedo na ferida purulenta: “As companhias encontram-se exaustas de um ponto de vista financeiro, não tendo capacidade para renovar o material ou de substituir as unidades que desaparecem por unidades novas. O número de funcionários entretanto despedidos já ultrapassou o milhar. É preciso tomar medidas urgentes e essas medidas só podem partir do poder público”.

E não se eximia em expor as suas ideias em relação às tais medidas a que o governo se via obrigado: manter intransigentemente as disposições dos decretos protetores, especialmente no que se refere ao bónus alfandegário de 10% para os produtos de importação transportados nos barcos portugueses, um bónus que estava na altura nos 8% e que os dirigentes da Marinha Mercante consideravam inaceitável. Exigir subsídios de construção e créditos hipotecários que aliás, já tinham sido aprovados pelo Conselho da Marinha Mercante. Nacionalizar o transporte de mercadorias importadas quando elas se destinassem aos serviços do Estado, facilitando às companhias de navegação as importâncias que continuavam retidas em Angola e Moçambique. O Império tinha custos. E as desmedidas ambições de grandeza também. O mar parecia ter deixado de ser, há muito, um desígnio nacional. Os barcos, estragados, já não saíam dos cais...

 

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