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Novo Banco com lucros de 137,7 milhões de euros no primeiro semestre

Novo Banco com lucros de 137,7 milhões de euros no primeiro semestre

Sónia Peres Pinto 02/08/2021 16:40

Já no primeiro trimestre do ano, a instituição financeira tinha apresentado um lucro de 70,7 milhões de euros.

O Novo Banco registou lucros de 137,7 milhões de euros no primeiro semestre do ano. Um valor que compara com as perdas de 555,3 milhões de euros registados em igual período do ano passado - o pior resultado da sua história. Já no primeiro trimestre do ano, a instituição financeira tinha apresentado um lucro de 70,7 milhões de euros. Este lucro recorde surge sete anos depois do banco ter sido alvo de resolução e surge em terceiro lugar em termos de resultados positivos dos maiores bancos. A tabela é liderada pela Caixa, com lucros de 294 milhões, seguida pelo BPI. Já o Santander aparece em quarto lugar com 81,9 milhões e em quinto o BCP, com 12,3 milhões.

O Novo Banco explica estes números relativos aos primeiros seis meses do ano com a margem financeira, que apresenta “um crescimento de 13,1% face ao período homólogo. E também com os resultados de operações financeiras (que aumentaram 129,1 milhões), contribuindo para uma melhoria do produto bancário comercial”.

Já as imparidades para crédito totalizaram os 84,7 milhões, que incluem 35,2 milhões de imparidade para riscos relacionados com a covid-19, apresentando, no entanto, uma redução de -69,9% ou -196,4 milhões face ao período homólogo.

O Novo Banco fechou o semestre com um rácio de malparado de 7,3%, que compara com o de 8,9% que apresentava no final do ano passado, além de apresentar agora um rácio de cobertura de créditos em incumprimento de 78,4%. No entanto, há ainda uma percentagem abrangida por esta modalidade. “Em junho de 2021 totalizavam 5,6 mil milhões de euros (contra 6,9 mil milhões em dezembro de 2020), representando cerca de 22% da carteira de crédito a clientes, juntamente com 1,3 mil milhões de euros de linhas de crédito garantidas concedidas a empresas, dos quais cerca de 97% já desembolsados”.

O Novo Banco reduziu 112 trabalhadores e fechou 10 agências no primeiro semestre, segundo as contas apresentadas.

Em junho, o grupo Novo Banco tinha 4448 funcionários em Portugal, menos 112 do que em dezembro do ano passado. Já os balcões eram 348, ou seja, menos 10 do que no final de 2020.

O caso do Novo Banco (que entre final de 2014 e 2020 reduziu 2.200 funcionários) tem um programa de propostas de reformas antecipadas e rescisões por mútuo acordo (que garantem acesso a subsídio de desemprego), segundo fontes dos trabalhadores.

Mais de 3 mil milhões de dinheiros públicos

O Novo Banco já consumiu até ao momento 3.293 milhões de euros de dinheiro público ao abrigo deste mecanismo de capitalização.

No entanto, a instituição financeira revela que o Fundo de Resolução lhe deve 277,4 milhões de euros e vai acionar os mecanismos legais para receber esse valor, segundo a apresentação de resultados.

Relativamente a 2020 (ano em que teve prejuízos de 1.329 milhões de euros), o Novo Banco tinha pedido ao Fundo de Resolução 598 milhões de euros para se capitalizar, ao abrigo do mecanismo acordado com o Estado português em 2017. O pagamento desse valor cabe ao Fundo de Resolução bancário (entidade da esfera do Estado).

Em junho, o Fundo de Resolução considerou que só devia pagar 429 milhões de euros devido a divergências com o Novo Banco (relacionadas com a provisão para a venda da sucursal em Espanha, a valorização de ativos e prémios atribuídos aos administradores), considerando que o valor devido era 429 milhões de euros.

No entanto, só pagou 317 milhões de euros e fez depender 112 milhões de euros de uma "averiguação suplementar" sobre a política de cobertura do risco de taxa de juro de dívida pública de longo prazo. E, como tal, o banco considera que o Fundo de Resolução lhe deve o valor total pedido, pelo que falta receber 277,4 milhões de euros dos 598 milhões de euros solicitados.

"O Novo Banco considera o valor de 277,4 milhões de euros como devido ao abrigo do Mecanismo de Capitalização Contingente, estando a espoletar os mecanismos legais e contratuais à sua disposição no sentido de assegurar o recebimento dos mesmos", lê-se nas contas comunicadas ao mercado.

Ainda assim, diz o banco que, tendo em conta que não recebeu esse dinheiro, deduziu o valor ao cálculo de capital regulamentar.

Virar de página

Foi a 3 de agosto de 2014 que surgiu o Novo Banco após o colapso do banco da família Espírito Santo, tendo sido aplicada uma medida nunca antes usada em Portugal: a resolução, após a apresentação de prejuízos históricos no valor 3,57 mil milhões de euros, o maior de sempre na história empresarial portuguesa.

A “nova” instituição financeira recebeu uma injeção de 4,9 mil milhões de euros, dos quais 3,9 mil milhões do Estado. Mas três meses antes já tinha sido alvo de um aumento de capital de 1050 milhões de euros.Pela instituição financeira passaram três presidentes: Vítor Bento, que substituíra Ricardo Salgado no BES, aceitou ficar no Novo Banco, mas acabou por bater com a porta apenas um mês depois. Seguiu-se Stock da Cunha, que liderou a instituição financeira até ao final de julho de 2016, altura em que foi substituído por António Ramalho, que continuam em funções até agora.

A primeira tentativa de venda ocorreu em dezembro do mesmo ano, mas acabou por ser cancelada um ano depois. Estavam em cima da mesa propostas da Fosun, Apollo e Anbang. Na altura, o BdP considerou que as três propostas vinculativas não eram satisfatórias e que o processo foi condicionado por importantes fatores de incerteza. Acabou por ser contratado o ex-secretário de Estado do Governo de Passos Coelho, Sérgio Monteiro, pelo Fundo de Resolução para coordenar a equipa de Carlos Costa que estava a vender o Novo Banco.

Depois de vários anúncios de interesse, nomeadamente do BCP e do BPI, que concorriam em consórcio, assim como do grupo chinês Misheng Banking -, o Banco de Portugal escolheu o fundo Lone Star e o acordo foi assinado em outubro de 2017.

Pelo meio, o banco tem sido alvo de fortes críticas e foi objeto de uma comissão de inquérito que apresentou o relatório final, na semana passada. Um documento que, ainda este fim de semana, foi alvo de críticas por parte de António Ramalho. “A Comissão de Inquérito não pode substituir fatos inexistentes por argumentos, não deve substituir argumentos rebatidos por suspeitas, e nunca substituir suspeitas não confirmadas por dúvidas sugeridas”, disse.

O CEO do Novo Banco falou sobre o resultado final da comissão num artigo de opinião publicado no DN, considerando que no Parlamento foram criados “fatos e verdades alternativas”, ao “cair do pano sem contraditório nem fundamento”.António Ramalho garantiu ainda que a instituição financeira remeteu “mais de um milhão de páginas, dezenas de milhares de documentos que serviram para alguns deputados brilharem com mais informação do que alguma vez tinham tido em processos anteriores”, apontando o dedo à conclusão do relatório: “Não estávamos preparados para, no cair do pano, sem contraditório nem fundamento, se criarem factos e verdades alternativas. Julgávamos que o relatório final de uma comissão de inquérito era escrito com critério, e não um jogo de votos onde cada um busca o seu momento de glória”.

Também este fim de semana, na edição do Nascer do SOL, a deputada centrista Cecília Meireles, que se destacou na comissão de inquérito, lamentou o trabalho final do Parlamento ao considerar que o problema do relatório foi ter nascido de uma maneira enviesada logo no princípio. “O relatório inicial parecia mais uma narrativa do Governo ou um ajuste de contas entre governadores e Governos do que propriamente um documento de uma comissão de inquérito. Isso condicionou toda a discussão que se fez a seguir”, disse a deputada.

Recorde-se que o relatório final da Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução - após dois dias de votações da versão preliminar e das várias dezenas de propostas de alteração - foi aprovado com os votos a favor dos deputados do PSD, BE, PCP, PAN e IL, a abstenção do CDS-PP e o voto contra do PS.

Notícia atualizada

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