18/10/21
 
 
José Cabrita Saraiva 02/08/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Comissão de inquérito do BES: a fraude, a balbúrdia e uma conclusão terrível

Esperávamos que a Comissão de Inquérito às perdas do BES pudesse ter esclarecido o que se passou para que assim fosse, mas parece que afinal os partidos limitaram-se a empurrar culpas uns para cima dos outros. 

Quando anunciou a ideia de separar o antigo BES em dois bancos, Carlos Costa, então governador do Banco de Portugal, explicou que tinha sido criteriosamente estabelecido um perímetro, uma espécie de cerca sanitária: do lado de dentro desse perímetro protegido ficava o “banco bom” (Novo Banco), com os ativos e a “parte saudável”, por assim dizer; do lado de fora ficava o “banco mau”, com as dívidas, os créditos incobráveis e os problemas. Parecia uma ciência exata.

Acontece que rapidamente se começou a perceber que afinal o banco bom não era apenas o “bife do lombo”, como os ingénuos poderiam ter pensado. Além dos ativos, havia também créditos malparados, imparidades, buracos bem profundos.

Ao ponto de o primeiro-ministro António Costa ter dito em 2019, com bastante graça e muito acerto, que “quando se fez a separação entre o chamado banco mau e o chamado banco bom, verdadeiramente o que ficámos foi com um banco mau e um banco péssimo”. Nem mais.

Esperávamos que a Comissão de Inquérito às perdas do BES pudesse ter esclarecido o que se passou para que assim fosse, mas parece que afinal os partidos limitaram-se a empurrar culpas uns para cima dos outros. O que deveria ter sido uma tarefa de colaboração transformou-se num todos contra todos: o PS diz que o PSD enganou os portugueses, o PSD diz que foi o governo do PS que fez mal a venda, o PCP diz que foi uma “fraude política”.

Enfim, uma balbúrdia inacreditável. Ao ponto de o deputado Fernando Anastásio, do PS, ter renunciado à função de relator por não se rever no relatório final...

Os portugueses, entretanto, continuam sem saber muito bem onde foi parar o dinheiro dos impostos que o Estado, com a maior “cara de pau”, lhes foi extorquindo o melhor que podia (sabiam que os combustíveis voltaram a subir hoje?) para tapar o buraco...

E o mais triste no meio disto tudo é que um dia ainda vamos chegar à conclusão terrível de que teria sido preferível emprestar uns milhões valentes a Ricardo Salgado para disfarçar as contas, manter as aparências e continuar tudo como se nada fosse.


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