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Chamadas de valor acrescentado. A roleta perigosa

Chamadas de valor acrescentado. A roleta perigosa

DR Joana Mourão Carvalho 30/07/2021 19:55

Canais de televisão bombardeiam telespetadores com os passatempos e o i assistiu aos programas. Psicólogo defende regulamentação específica.

O i esteve a assistir aos programas de entretenimento dos três principais canais de televisão em sinal aberto – RTP, SIC e TVI – para tentar entender como é que as chamadas de valor acrescentado são direcionadas ao público. Entre as três estações televisivas há diferenças que as distinguem. No caso da RTP, que reduziu a sua aposta nesta estratégia de angariação de lucros, e falando especificamente sobre o programa e concurso 7 Maravilhas da Nova Gastronomia, apresentado por José Carlos Malato e Sónia Araújo, estas chamadas não envolvem propriamente um prémio para quem liga, mas funcionam como um sistema de voto para eleger um vencedor escolhido pelo público. Aqui as chamadas têm um custo de 0,60 euros mais IVA.

Já a estação de Paço de Arcos, relativamente ao programa Casa Feliz, apresentado por João Baião e Diana Chaves, continua com o sorteio de prémios em dinheiro. Mas o apelo à participação no passatempo começa por ser subtil, com o aparecimento de um pequeno retângulo no canto superior direito do ecrã onde é discriminado o prémio do dia, o valor do jackpot em jogo, o número para o qual o público deve ligar para se inscrever e ainda em letras pouco visíveis o custo da chamada, que neste caso é um euro, acrescido de IVA.

Depois desta abordagem, o único apelo direto por parte dos apresentadores é feito nos últimos 5 a 10 minutos do programa e durante os quais vão insistindo e repetindo de forma constante o número de telefone e o valor do prémio. Ainda assim, deixam um aviso: “Dá para ligar mais de uma vez, mas atenção que uma chamada é suficiente para ficar inscrito no sorteio”.

Também a TVI, no programa Dois às 10, apresentado por Cláudio Ramos e por Maria Botelho Moniz, mantém este formato, com a diferença de que durante grande parte da emissão não há referência ao sorteio, nem com grafismos visuais nem por parte dos apresentadores. A aposta é feita apenas nos cinco últimos minutos do programa, em que os apresentadores incentivam de forma ininterrupta a ligar para o número que aparece no fundo do ecrã juntamente com os valores do prémio do dia e do prémio em jogo em letras garrafais. Além disso, utilizam argumentos como “com este dinheiro os seus problemas financeiros deixam de existir” e “hoje pode ser o seu dia de sorte, só tem de arriscar”, nunca fazendo qualquer pré-aviso dos custos da chamada ou referência de que basta uma chamada para ficar inscrito no sorteio.

Além destes formatos, a SIC e a TVI também se munem da telepromoção, com a venda de produtos e serviços como o Calcitrin Rapid e o Medicare.

“É uma forma de jogo” Os sorteios em programas de entretenimento têm vindo a perdurar no tempo graças à sua importância como fonte de lucro para as estações televisivas, mas há uma face desta questão que é muitas vezes ignorada. Note-se que só recentemente é que a Provedora de Justiça, Maria Lúcia Amaral, veio recomendar a proibição dos concursos televisivos que utilizam números de telefone de valor acrescentado de forma a proteger os grupos mais predispostos a participar nestes passatempos.

Em declarações ao i, o diretor do Instituto de Apoio ao Jogador, Pedro Hubert, explica que esta “é uma forma de jogo”, uma vez que “funciona como uma espécie de roleta em que a pessoa telefona e pode ou não sair prémio.”

Se entendermos estes sorteios como jogo, então “as populações de risco para problemas de jogo são jovens, adolescentes e jovens adultos até aos 24, por causa do controlo de impulsos e da imaturidade”, mas também “os idosos, os reformados e os pré-reformados, que têm muito tempo, liquidez financeira e que sonham em ter mais algum dinheiro para viver melhor, porque as pensões são curtas ou porque querem ajudar a família e vêm nisso uma hipótese de ajudar os outros ou de obter mais rendimento”, aponta o psicólogo, reforçando que estes programas de entretenimento “são frequentemente destinados a pessoas de maior idade”.

Além de serem o público alvo, Pedro Hubert lembra também que apresentam dificuldades cognitivas, que vão aparecendo com a idade e que por essa razão também “são uma população mais facilmente manipulável” e “aí a vulnerabilidade ao jogo é maior’’.

Apesar de nunca ter lidado com um caso de vício relacionado com este tipo de sorteio, o diretor do IAJ diz, no entanto, que já recebeu “relatos de familiares de jogadores que passam o dia todo a telefonar para esses número e que têm gastos muito significativos neste género de apostas”.

Neste sentido, defende uma revisão na regulamentação deste tipo de sorteios. “As pessoas que têm problemas com o jogo têm de ser defendidas do apelo ao jogo. Tudo aponta para que este tipo de jogo possa ter características perigosas, no sentido de provocar danos nessas pessoas que já têm predisposição para o jogo. O jogo para uma minoria de pessoas pode ser potencialmente perigoso e se há legislação para a raspadinha e para as apostas desportivas, eu penso que também deveria haver para este género de jogo”, argumenta.

“Outra coisa importante é a forma como o jogo é apresentado e isso também tem a ver com a legislação. Os apresentadores incentivam para que a pessoa continue a apostar. Isto é a mesma coisa que termos alguém a incentivar a apostar no casino, a fazer mais apostas desportivas, a jogar mais na raspadinha. Isso não me parece muito ético”, critica.

Além de uma legislação mais musculada, o psicólogo realça que “seria importante também haver mais investigação com uma componente mais científica sobre o número de pessoas que participam e quantas pessoas têm problemas de abuso e de dependência” em relação a estes passatempos.

“Em Portugal não há investigação a esse nível, mas eu sei que isso traz muitos rendimentos às televisões, logo deve haver muita gente que joga”, acrescenta.

De acordo com as estatísticas nacionais, 0,6% da população acima dos 16 anos tem problemas de dependência de jogo e 1,2% de pessoas têm problemas de abuso, ou seja, em Portugal quase 2% da população acima dos 16 anos tem problemas com o jogo.

 

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