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Pedro Vaz 27/07/2021
Pedro Vaz

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Empatia

Só o desconhecido, que vivemos dia após dia, poderá ajudar a explicar o discurso exacerbado de alguns protagonistas políticos, com uma linguagem permanente ofensiva e para lá de muitos limites de sã convivência democrática.

Apenas consigo imaginar a dor que foi para milhares de portugueses perder alguém para a Pandemia, a angústia sentida para muitos, também milhares, que tiveram COVID e para os que hoje continuam a contrair a doença e as dificuldades sentidas por tantas e tantos com a perda de emprego acompanhada da incerteza de não saber se conseguirão ter os rendimentos suficientes para conseguir pagar as suas despesas no mês seguinte.

Não consigo sequer entender como os adolescentes e jovens têm aguentado, de forma estóica e com grande solidariedade, sem poderem vivenciar o que todas as outras gerações que os antecederam tiveram a oportunidade de viver, numa altura tão especial da vida. Tempo que não voltará atrás.

Só quando nos colocamos no lugar dos outros conseguimos perceber esta paradoxal inquietude que se sente neste ambiente de estranha letargia, que inunda o nosso quotidiano.

Só o desconhecido, que vivemos dia após dia, poderá ajudar a explicar o discurso exacerbado de alguns protagonistas políticos, com uma linguagem permanente ofensiva e para lá de muitos limites de sã convivência democrática.

Os protagonistas, acolitados por um pequeno exército anónimo das redes sociais, querem fazer crer que a democracia capitulou, que todas as instituições da República sucumbiram a um qualquer projeto de poder obscuro dos socialistas portugueses, que não há liberdade de expressão e liberdade de imprensa, quando nunca tanto se invetivou para lá dos limites da boa educação.

Depois do medo que todos sentimos, vemos hoje setores da sociedade, que a coberto da defesa da liberdade de todos, lançam uma ofensiva sem paralelo àquilo que temos de decente na nossa sociedade - a proteção dos mais frágeis.

Tempos profundamente complexos e aos quais ainda não me habituei.

Sabemos que o berço onde se nasce determina, em demasia, a vida que teremos. É a sociedade em que vivemos e continuo a acreditar que enquanto comunidade teremos de trabalhar ainda mais para que esta desigualdade de partida seja cada vez menor. Há quem não acredite nisso, estarão obviamente, também, no seu direito. Agora, esta luta por visões diferentes da sociedade deverá fazer-se dentro daquilo que são os instrumentos da democracia e parece que muitos pretendem que a soberania do voto popular seja substituída por um qualquer outro poder.

Espero que este verão nos traga mais tranquilidade e esperança num futuro melhor. Todos precisaremos de forças redobradas para construir um “novo” país que vença os seus crónicos atrasos estruturais e onde os mais desprotegidos consigam mais que apenas sobreviver.

(o autor regressa em setembro)

 


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