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José Cabrita Saraiva 27/07/2021
José Cabrita Saraiva
Opiniao

jose.c.saraiva@ionline.pt

Bem-aventurado aquele que passa férias na Sardenha

Não é novidade que, enquanto o país está de tanga, com um défice brutal, uma economia de rastos e uma dívida impagável, há quem possa fazer a sua vida como se nada fosse. Aliás, é excelente que assim seja, pois significa que alguns bem-aventurados podem escapar à penúria geral. Mas não deixa de ser um pouco chocante que uma das pessoas que mais contribuíram para arrastar Portugal para o fundo do poço se passeie alegremente pela tal ilha outrora pobre que se tornou um destino de luxo. 

“Economia primitiva e predominantemente pastoril”, “continente em miniatura”, “território sitiado” pelo mar, com planícies interiores que são um “cenário de desolação”, escreveu Fernand Braudel sobre

a Sardenha no seu clássico sobre o Mediterrâneo.

Esta ilha italiana historicamente pobre, inóspita e parcamente habitada, que deve o seu nome à abundância de sardinha (também um peixe pobre) na sua costa, acabou curiosamente por se tornar um refúgio de eleição para os muito ricos e os seus mega-iates.

Não é novidade que, enquanto o país está de tanga, com um défice brutal, uma economia de rastos e uma dívida impagável, há quem possa fazer a sua vida como se nada fosse. Aliás, é excelente que assim seja, pois significa que alguns bem-aventurados podem escapar à penúria geral. Mas não deixa de ser um pouco chocante que uma das pessoas que mais contribuíram para arrastar Portugal para o fundo do poço se passeie alegremente pela tal ilha outrora pobre que se tornou um destino de luxo. O Correio da Manhã anunciou em grandes parangonas e outros meios não puderam ignorar o facto: “Ricardo Salgado passa férias de luxo com família em ilha italiana após falhar julgamento”.

Aquilo que noutras circunstâncias seria apenas um fait-divers de verão, uma fofoquice, assume contornos de insulto, se não mesmo de escândalo nacional. Em primeiro lugar, porque o antigo banqueiro é o protagonista de um dos maiores colapsos financeiros da nossa história, que deixou um buraco de milhares de milhões que os portugueses continuam a pagar. Em segundo lugar, porque Salgado ainda recentemente se escusou a apresentar-se em tribunal no âmbito do processo do BES, apresentando como desculpa o contexto pandémico. Glosando uma máxima cristã, pelos vistos é mais fácil um avião passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar num tribunal no Parque das Nações. Ora aqui está mais um mistério que o Zé Povinho, que ainda anda a pagar a fatura do BES, gostava
de ver esclarecido.


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