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Vittorio Pozzo. O "alpini" valente com o futuro no fundo do olhar

Vittorio Pozzo. O "alpini" valente com o futuro no fundo do olhar

Afonso de Melo 23/07/2021 15:50

Todos sabem que foi campeão do mundo com a Itália em 1934 e 1938. Mas a história da sua vida tem muito mais do que isso para contar.

Vittorio Pozzo: eis um nome que o futebol, e sobretudo a Itália, guardarão para sempre nas paredes brancas em que se penduram os quadros da memória. Toda a gente sabe que levou os italianos aos dois títulos mundiais de 1934 e 1938 (sendo o único treinador até hoje a vencer dois Campeonatos do Mundo), mas muitos já não saberão que tinha, desde que nasceu, em Turim, no dia 2 de Março de 1886, uma carreira jurídica à sua espera. Derrubou o sonho paterno e entristeceu toda a sua família de classe alta da zona de Ponderano. Mas Vittorio era um testudo. Depois de ter frequentado o Liceu Cavour, decidiu que o melhor era ir para Zurique aprender línguas. Tornou-se hábil no francês, no alemão e no inglês. E resolveu ir desenvolver as suas noções da língua inglesa em Manchester onde se tornou amigo de dois jogadores famosos na altura, Charlie Roberts, do United, e Steve Bloomer, do Derby County. Regressado à Suíça, jogou no Grashoppers; regressado a Itália, jogou no no Foot-ball Club Torino, que ajudou a transformar-se no famoso Torino FC. Cumprida a carreira em campo, saltou para o banco e foi treinador da equipa entre 1912 e 1922. Entretanto recebeu um convite para liderar o comité de técnicos que iria a levar a seleção olímpica da Itália aos Jogos Olímpicos de 1912, em Estocolmo. Um orgulho! Era ainda um jovem de 26 anos com muito para aprender. A campanha foi um desastre: duas derrotas, frente à Finlândia (2-3) e Áustria (1-5), desanimaram-no por completo. Continuou a jogar, foi empregado da fábrica de pneus Pirelli e escrevia crónicas para o jornal La Stampa. Ninguém daria, na altura, um lira furada pelo seu futuro como técnico. Durante a I_Grande Guerra combateu bravamente nos Alpini, a força de infantaria italiana preparada para acções militares em zonas de montanha. Teve tempo de sobra para esquecer a frustração de 1912 e, em 1921, voltou a pertencer a uma comissão técnica responsável pela “squadra azzurra”. Como eles gostam de dizer: “un casino della Madonna!” A dita comissão era composta por treinadores, árbitros, antigos jogadores e jornalistas. Vittorio não tinha paciência para a desorganização, por muito italiano que fosse. Tratou de se pôr ao fresco até que, três anos mais tarde, foi convidado para o cargo de selecionador, sem a respectiva tralha atrelada. E isso, sim, agradou-lhe.

 

O método.

Nos Jogos Olímpicos de França, precisamente em 1924, a Itália foi eliminada nos quartos-de-final pela Suíça (1-2). Nada que abalasse o prestígio de Pozzo mas, entretanto, a morte da sua mulher, fê-lo querer retirar-se durante uns tempos. Treinou o Milan. Em Dezembro de 1929 estava de volta à “squadra azzurra”. Desta vez para cumprir o seu destino. Inventou O Método. Estudioso como era do estilo do WM, alterou-o dispondo a equipa em WW, ou seja, um 2-3-2-3 que permitia à Itália uma ocupação mais consistente do meio-campo. Os resultados foram imediatos. Em 1930, Pozzo levou os italianos à vitória na Taça da Europa Central, disputada entre países como a Checoslováquia, a Hungria, a Jugoslávia, a Áustria e a Alemanha, batendo na final a Hungria por 5-0 em Budapeste. Juntamente com as suas alterações técnicas, implantou uma disciplina férrea na selecção, com treinos duros, militarizados, proibição de fumar, obrigação de recolha a horas decentes e afastando um ou outro jogador mais complicado do grupo que pretendia cada vez mais fechado, como sucedeu com Adolfo Baloncieri, um famoso avançado que vestia a camisola azul há mais de dez anos consecutivos.

Apesar de tudo, Vittorio continuava a dizer que o grande trunfo de um treinador estava na sua capacidade psicológica e não na fáctica. Quando a Itália venceu o Wunderteam da Áustria por 2-1, em 1931, já ninguém tinha dúvidas de que a “squadra azzurra” havia mudado por completo, ainda que a seguinte edição da Taça da Europa Central (1932) não tivesse corrido tão bem, com os italianos a sofrerem a revolta dos austríacos na final. Vittorio Pozzo tinha o futuro no fundo do olhar. A Itália iria ser anfitriã do Mundial de 1934. Envolta por um fanático apoio popular alimentado pela política de Mussolini, tornou-se campeã da Europa, repetindo o título quatro anos mais tarde, em França. Pozzo merecera a eternidade.

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