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Amy Winehouse. O documentário que revela a sua história aos olhos dos pais

Amy Winehouse. O documentário que revela a sua história aos olhos dos pais

AFP Sara Porto 22/07/2021 20:46

Dez anos depois da sua morte, os pais da cantora, decidem contar a sua história de modo a partilharem com o mundo a “verdadeira” Amy. Reclaiming Amy será lançado amanhã no canal britânico BBC 2. 

Há 10 anos que só temos oportunidade de ouvi-la na rádio, nos discos, filmes ou plataformas digitais. O seu nome ficou marcado na história da indústria musical, a sua voz ainda ecoa na memória de muitas pessoas em todas as partes do mundo e a sua experiência serve de exemplo para as consequências nefastas de quem acabou por ser engolido pelas suas próprias escolhas. 

Ficam gravados os seus grandes olhos “exageradamente” delineados, o enorme coque ao estilo pin-up, os vestidos justos, as tatuagens, a rouquidão da voz, o “dom” da composição e os constantes pedidos “silenciosos” por ajuda que serviram manchetes nos últimos anos da sua vida. Amy Winehouse, cantora britânica de soul, jazz e R&B, faleceu no dia 23 de julho de 2011, aos 27 anos. E a verdade é que mesmo agora, passado uma década, esta “alma antiga” dentro de um corpo jovem, continua a emocionar, tocar e suscitar a curiosidade de muitos.

Talvez seja essa uma das razões para os seus pais terem tomado a decisão de partilhar com o mundo “o seu lado da história”: Reclaiming Amy, será lançado na próxima sexta-feira, dia 23 de julho, no canal britânico BBC 2. O documentário desenvolvido pelo próprio canal conta com imagens inéditas da artista e é narrado pela própria mãe.

“Não sinto que o mundo conheça a verdadeira Amy, aquela que eu criei. Estou ansiosa pela oportunidade de oferecer uma compreensão das suas raízes e uma visão mais profunda de quem ela era verdadeiramente”, afirmou Janis, mãe da cantora, à BBC, acrescentando que o seu ponto de vista difere “muitas vezes da narrativa que nos foi contada”.

De acordo com a BBC, Janis foi diagnosticada com esclerose múltipla em 2003 e estava motivada a fazer o documentário antes que a doença “ameaçasse retirar-lhe as memórias da sua filha”. Mas infelizmente o impedimento foi outro… Janis já escreveu sobre a vida de Amy em 2014, no livro Loving Amy: A Mother’s Story e agora, prepara-se para mostrar ao mundo o resultado do seu desejo já antigo.

O documentário também incluirá entrevistas com outros membros da família e amigos próximos da cantora e analisará a vida e carreira antes da sua morte aos 27 anos, devido à ingestão de grandes quantidades de álcool. 

“Amy era um verdadeiro ícone musical, e não poderíamos estar mais orgulhosos de ajudar as pessoas mais próximas dela a recuperar a sua história 10 anos após sua morte”, declarou Dov Freedman, produtor executivo da Curious Films, em comunicado.

Em 2015, Amy, um documentário sobre a vida da artista, valeu um Óscar de Melhor Documentário ao seu diretor, Asif Kapadia. Contudo, a família da artista não ficou feliz, decidindo afastar-se do projeto e chamando-o de “uma oportunidade perdida de celebrar a sua vida e talento realizado de uma forma enganosa que contém algumas inverdades básicas”. Depois de ter assistido ao filme, o seu pai, Mitchell Winehouse, afirmou ter-se sentido mal acreditando que a sua filha “ficaria furiosa com o resultado final”.

A música como dom?

Será difícil falar de Amy, sem que a música esteja presente, porque, na realidade, a cantora começou a interessar-se por ela bastante nova. Nasceu a 14 de setembro de 1983, em Londres, “fruto” da relação entre Mitchell Winehouse e Janis que já tinham o seu irmão mais velho, Alex Winehouse, nascido em 1980.

Viveu durante vários anos num bairro judeu e desde pequena que se começou a interessar por grandes nomes como Madonna, TLC, Salt N´Pepa, Mos Def, Beastie Boys, mas também Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, o que explica, em parte, o “ecletismo” da sua música, que convoca o jazz, o hip hop, a soul e o R&B.

Também tendo sido influenciada por a sua avó Chintia, uma grande amante de jazz. Mas apesar do aparente ambiente harmonioso no seu lar, a pequena e, mais tarde, adolescente Amy, viu-se sempre envolvida nos casos de infidelidade do seu pai e na instabilidade da sua mãe, que acabaram por resultar na sua “rebeldia” e “revolta”. O divórcio deu-se em 1992 e, a partir daí, tanto ela como o seu irmão ficaram sob a custódia da mãe e cresceram em Southgate.

Iniciou os seus estudos aos cinco anos de idade e foi nessa etapa da sua vida, em que os pais a matricularam no ballet, que conheceu aquelas que viriam a ser as suas melhores amigas (também elas incluídas no novo documentário), Juliette Ashby e Lauren Gilbert.

Aos nove anos a sua mãe matriculou-a na Susi Earnshaw Theatre School, na qual estudou durante quatro anos e, um ano depois, Amy começou a revelar as suas verdadeiras “qualificações artísticas” ao fundar com Juliette uma banda de rap amadora chamada Sweet ‘n’ Sour. Pouco tempo depois, interessou-se pela guitarra e aprendeu a tocá-la com o seu irmão. 

Apesar de “tímida”, desde cedo, começou a demonstrar a sua independência e autonomia e, em 1996, organizou a sua própria audição para o colégio Sylvia Young Theatre School, na qual apresentou uma versão de “On the Sunny Side of the Street”, canção de 1930, interpretada por Harry Richman e Gertrude Lawrence (atores da Broadway).

Os jurados ficaram impressionados e concederam-lhe a bolsa de estudos que lhe permitiria frequentar o colégio. Foi precisamente aqui que a cantora conheceu Tyler James que futuramente a ajudaria a conseguir o seu primeiro contrato com uma produtora e que se tornaria num grande amigo.

No que toca aos resultados académicos, Amy mostrava-se boa aluna tanto nas aulas de representação, como nas de dança e canto, porém o mau comportamento levou-a a ser expulsa passado apenas um ano, por indisciplina. Com 14 anos, acabou por voltar aos estudos, ingressando na escola Brit Performing Arts and Technology School e foi lá começou a compor as suas primeiras canções e paralelamente a experimentar substâncias psicoativas.

O ano seguinte foi um ano “paradoxal”: enquanto entrava “verdadeiramente” no mundo da música, fazendo pequenas apresentações em clubes de jazz em Londres, Amy tornou-se bulimia. Na altura, a cantora revelou-o aos seus pais que o “desvalorizaram”, acreditando que seria “apenas uma fase”. 

Em 1999, enquanto colaborava com a National Youth Jazz Orchestra, Winehouse foi incentivada por Tyler James a gravar algumas músicas para enviar aos seus empresários musicais. Um deles foi Nick Shymansky, funcionário de uma agência de relações públicas chamada Brilliant!. Amy Winehouse ofereceu-lhe um CD e Shymansky rapidamente a contactou com o objetivo de assinarem um contrato.

A luta por Amy e os seus dois discos

A outrora Brilliant!, que passou a 19 Entertainment, propriedade de Simon Fuller, fechou contrato com a cantora. No entanto, Winehouse continuou a apresentar-se em clubes de Londres e a despertar o interesse de outros produtores musicais.

Consequentemente, acabou por assinar um contrato de administração dos direitos autorais com Guy Moot, representante encarregado da divisão de artistas e repertório da Electric and Musical Industries (EMI) que decidiu mantê-la em segredo da indústria fonográfica. Mas nem isso foi suficiente…

Quando Darcus Beese, responsável pelo departamento de artistas e repertório da Universal Music do Reino Unido, ouviu uma das suas gravações, começou à sua procura e, depois de uma busca de seis meses, conseguiu contactar a artista que acabou por assinar contrato com a editora. 

“Acha que vai ser famosa?”, perguntou Garry Mulholland a Amy Winehouse, numa entrevista registada no documentário Amy. “Acho que não. A minha música não está nessa escala, às vezes, gostaria que estivesse, mas não vou ser nem um pouco famosa. Acho que eu não aguentaria. Provavelmente, enlouqueceria”, respondeu, na altura, ao jornalista. Na época, talvez, não imaginasse até onde é que a sua infância “regada” a soul e jazz, a levaria. Mas seguiram-se dois discos que distinguiram a sua voz rouca e singular e a levaram aos tops e vendas mundiais. 

O primeiro, Frank, lançado em 2003, refletiu a sua capacidade lírica e mergulhou nas suas “raízes” do jazz. A produção recebeu tantos elogios que lhe rendeu as suas primeiras indicações ao BRIT Awards nas categorias Melhor Artista Feminina Britânica e Melhor Ato de Música Urbana, e conquistou o seu primeiro troféu no Ivor Novello Awards, na categoria Melhor Canção Contemporânea por Stronger Than Me.

Frank foi também incluído no livro de referência musical 1001 Albums You Must Hear Before You Die, em 2005, e recebeu uma indicação ao Mercury Prize Awards de Álbum do Ano. Em 2008, o álbum registou mais de 900 mil cópias vendidas no Reino Unido e alcançou platina dupla pela Indústria Fonográfica Britânica.

O segundo álbum, “responsável” por transformá-la num sucesso ainda maior, trouxe uma sonoridade com novos “adereços”, entre eles, uma influência jamaicana e a incorporação do R&B contemporâneo. Black to Black, lançado em 2006, foi o retrato do talento provocador e foi marcado pelos conflitos da sua separação com o seu então namorado Blake Fielder-Civil, com o uso de drogas, a depressão e o consumo excessivo de álcool. Mundialmente, esta segunda produção, foi o disco mais vendido de 2007, com seis milhões de cópias comercializadas.

A degradação da "estrela"
 
Apesar do seu talento, Amy Winehouse foi mais uma daquelas artistas que era noticiada “mais pelos seus excessos da vida privada do que pelas virtudes musicais da vida pública”. Nas biografias e notícias eram quase sempre referidos diagnósticos de depressão, comportamentos de auto-mutilação, as sequelas deixadas pelo divórcio dos pais, o “desequilibrado” relacionamento com Blake Fielder-Civil, os constantes problemas com as drogas e álcool e as várias tentativas de curas e desintoxicações.

Há até quem diga que Blake, produtor de vídeo com quem viria a ter uma relação amorosa, foi o principal responsável pela sua “degradação”. Na altura em que se conheceram, o produtor era comprometido e, apesar de ter mantido durante algum tempo um relacionamento paralelo com Amy, acabou por romper com a relação e conduzi-la àqueles que seriam os seus “momentos mais sombrios”. 

A cantora entregou-se então às drogas e bebidas alcoólicas juntamente com os seus transtornos alimentares e bulimia nervosa que resultaram na sua drástica perda de peso. Os olhos esverdeados iam perdendo o brilho, os vestidos deixavam de lhe servir acentuando a sua magreza, a maquilhagem deixou de possuir “brilho” e Amy ia perdendo cada vez mais a sua personalidade. 

O comportamento autodestrutivo da cantora começou a intensificar-se e a sua equipa tentou por muitas vezes convencê-la a internar-se numa clínica de reabilitação. Mas, quando tudo parecia estar a correr bem, Amy acabava por recusar o tratamento e, já insatisfeita com a 19 Entertainment desde o lançamento de Frank, e as constantes pressões da empresa, a artista decidiu romper o contrato, sugerindo ao seu empresário musical e amigo Nick Shymansky que a acompanhasse. Como ele recusou, o seu promotor de eventos, Raye Cosbert, acabou por assumir o lugar. 

Seguiram-se então os momentos mais negros e ao mesmo tempo “inspiradores” da carreira de Amy Winehouse, durante a construção do seu segundo disco. Com Black to Black, Amy regressou aos palcos, mas era visível que a pessoa que os pisava, já não era a mesma.

A cantora realizava os seus concertos completamente embriagada e o mesmo acontecia nas entrevistas que dava aos meios de comunicação. Amy não estava capaz de viajar pelo mundo e viver a “azáfama” de uma turnê. Mesmo assim, continuou a fazer o seu trabalho. A artista“afundava-se” cada vez mais no seu “abismo pessoal” e a prisão de Blake Fielder-Civil, em novembro de 2007 (sob a alegação de agressão ao proprietário de um bar em East End), só veio piorar a situação.

A cantora cancelou várias apresentações, mas apesar do “pedido de ajuda”, a Universal continuou a agendar shows, muitos dos quais tiveram resultados desastrosos, como o concerto no Rock in Rio Lisboa, em Portugal, onde tropeçava com frequência, não se lembrava das letras da música e nem conseguia pronunciar bem as palavras. 

Em agosto desse ano, esteve um coma após uma overdose e, depois de recuperada começou a afastar-se dos holofotes participando esporadicamente em alguns “eventos”: em outubro de 2009, por exemplo, a cantora compareceu à cerimónia dos Q Awards, em Londres, onde deveria anunciar o vencedor do troféu de Inspiração, mas não o fez por chegar atrasada; e em 2010, Amy foi até à casa de espetáculos 100 Club, em Londres, para interpretar com Mark Ronson o single Valerie. 

Depois desse período, e depois de em 2008 ter sido filmada a consumir crack (episódio que a obrigou a ser, mais uma vez, internada), no início de 2011, Amy regressou aos palcos. Os seus primeiros cinco concertos foram realizados no Brasil e a cantora parecia estar “melhor”. No dia 23 de março desse ano, uniu-se ao cantor Tony Bennett para regravar a canção Body & Soul, um acontecimento que a deixou “extremamente feliz por admirar o trabalho do cantor”. 

Dois meses depois, reiniciou o tratamento de seu alcoolismo na Priory Clinic, em Londres, acabando novamente por desistir do internamento para realizar a primeira apresentação de uma turnê europeia que representaria o seu regresso à indústria musical.

Os concertos que se seguiram foram desastrosos, em especial o realizado em Belgrado, na Sérvia, onde a cantora quis abandonar o palco e os seus guardas não o permitiram. Em seguida, a cantora cancelou todos aqueles que seriam os seus próprios concertos, afirmando que voltaria ao tratamento. 

Uma morte precoce

No dia 23 de julho de 2011, duas ambulâncias foram chamadas para a casa de Winehouse em Camden, Londres, com um aviso da polícia britânica de que havia o corpo de uma mulher morta no apartamento. 

Pouco tempo depois, as autoridades metropolitanas confirmaram que se tratava do corpo da cantora. Posteriormente, foi aberta uma investigação a fim de determinar a causa da morte, porém os primeiros resultados não foram conclusivos e, por isso, foi necessária uma análise toxicológica (exames que detetam o consumo de álcool, drogas e outras substâncias).

Apenas em 26 de outubro do mesmo ano, é que foram obtidos os relatórios finais que indicaram que a causa da morte esteve relacionada com “um consumo abusivo de álcool após um período de abstinência”, que a própria mantivera até o dia 22 do mesmo mês. 

A médica legista Suzzanne Greenway revelou, na altura, ao jornal britânico The Guardian, que a cantora “tinha consumido álcool equivalente a 416 mg por decilitro (de sangue) e a consequência não intencional de tais níveis foi a sua morte repentina e inesperada”. O mesmo jornal avançou que a Polícia recuperou do apartamento da cantora “três garrafas de vodka, duas grandes e uma pequena”. 

O inquérito levado a cabo para apurar as circunstâncias da morte revelou ainda que um exame post-mortem do corpo de Amy Winehouse encontrou “os órgãos vitais de boa saúde e sem vestígios de drogas ilegais”, contudo a quantidade de álcool que a cantora tinha no corpo pode “ter-lhe parado a respiração e induzi-la para um estado de coma”.

A sua última aparição pública foi menos de uma semana antes da sua morte, quando surgiu no palco durante um show de Dionne Bromfield na London Roundhouse.

Amy Winehouse é um dos nomes que consta no chamado “clube dos 27”, uma lista de artistas que morreram aos 27 anos, da qual fazem parte Kurt Cobain, vocalista dos Nirvana, o guitarrista Jimmi Hendrix, Jim Morrison, líder dos Doors, Janis Joplin e Brian Jones, antigo membro dos Rolling Stones.

Em 2003, a cantora disse ao The Guardian: “A música é a única coisa que tenho de digno na vida. É a única área em que posso levantar a cabeça e dizer: ‘ninguém me pode me tocar’. E de fato, não podem”, garantiu.

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