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20 de Julho de 1954. Dona Emília Ferreira zangava-se bastante...

20 de Julho de 1954. Dona Emília Ferreira zangava-se bastante...

Afonso de Melo 20/07/2021 18:09

Às 0h53, Primo Ferreira entrava na baía de Cascais. Nadara precisamente 18 horas, vindo de Alhandra, atravessando a barra do Tejo, e batendo um recorde inédito que nem o grande Baptista Ferreira fora capaz. Três mil pessoas esperavam-no na praia

A frase que corria de boca em boca era assassina:
– Nem o Baptista Pereira conseguiu!

E o Baptista Pereira era o dono do Tejo e dos seus mouchões, o mais resistente nadador português, homem que fora capaz de desafiar a Mancha.

Primo Gomes Ferreira, nadador do Estoril-Praia, estava ali, pronto a fazer o que nunca ninguém tinha feito. Às 6h53, ainda o sol espreitava apenas no horizonte azul do Tejo, saltou do barco Feitoria mesme em frente a Alhandra,  não certamente por acaso terra do Baptista Pereira.

Chegou à doca do Clube Naval de Cascais às 0h53, exactamente, como se nadasse ao ritmo de um relógio infalível, 18 horas exactas, nem mais nem menos um segundo. Uma multidão de mais de três mil pessoas estava ali, à sua espera, pronta a carregá-lo em ombros. E ele, satisfeito, respirando tranquilamente, parecia que não tinha realizado uma proeza até então não vista.

Ao lado de Primo Ferreira, a mulher Emília, também como ele natural de Sesimbra, e os filhos, Maria Fernanda e Carlos Jorge. “Foi uma aflição”, dizia ela. “Não pelo meu marido, que sei bem daquilo que é capaz, mas pelo meu filhinho, de apenas dois anos, que andou meia hora perdido no meio de toda esta gente”. Uma alma atenta e caridosa devolveu-o à mãe.

Quanto ao nadador, já tinha pergaminhos. Um ano antes, batera o recorde ibérico ao cumprir os 83 quilómetros que separavam Almourol de Salvaterra e Magos em 19h45. Ninguém punha em causa a sua categoria. Mas havia demasiados curiosos à sua volta para que ele pudesse recuperar o fôlego como merecia.

– Esta sua tentativa teve alguma coisa que ver com a tentativa falhada de Baptista Pereira?, perguntava um.

E ele, tranquilo:

– Confesso com franqueza que me cansei de ouvir dizer “se o Baptista Pereira não conseguiu, ninguém consegue!”. São coisas que mexem com a gente, não é? Por isso lancei-me à água e, felizmente, consegui provar que não é tarefa impossível.

O sonho da Mancha. Nesse tempo, atarvessar a Mancha, de Calais a Dover, era o suprassumo dos grandes nadadores. E é claro que a Mancha veio à baila: “Gostava muito de aproveitar a oportunidade de fazer a travessia da Mancha no próximo dia 22 do mês que vem. Vou fazer por isso. Mas, se não for agora, não irão faltar oportunidades, certamente.

– Qual foi a pior parte da prova que acaba de concluir?

– A passagem da barra, sem qualquer dúvida. A ondulação é tremenda, mesmo com a maré a favor, como eu tive. Devo ter nadado mais uns quatro quilómetros naquela zona só por causa das corrrentes em São Julião da Barra.

– Nunca se sentiu indisposto?

– Nunca. Sempre óptimo!

– Nem frio? Usou alguma protecção?

E o Primo Ferreira, radiante, envolvido pela família e por toda aquelas gente que viera admirá-lo:

– Untei-me com vaselina. Apenas isso. O habitual.

Depois, revelava o grande sonho da sua vida:

– Tenho uma vontade muito grande de bater o recorde do mundo da distância que está em poder de um argentino. Nadou 400 quilómetros no Rio da Prata. Extraordinário! Ferreira tinha apenas 29 anos. Podia sonhar.

– Sonhar eu sonho. Mas tenho um problema em casa: a minha mulher preocupa-se demais comigo. Zanga-se sempre na véspera de qualquer prova que eu faça. Olhe, ainda ontem foi um sarilho.

E Emília, a seu lado, de ar feroz: “Pudera!”

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