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Maria João da Câmara. "Vera Lagoa ensinou-nos a não ter medo"

Maria João da Câmara. "Vera Lagoa ensinou-nos a não ter medo"

Maria Moreira Rato 20/07/2021 13:16

Conhecida pelo pseudónimo Vera Lagoa, Maria Armanda Pires Falcão transformou o panorama do jornalismo português e provou que as mulheres tinham lugar no mesmo.

“Há mulheres assim. Mulheres que, pela sua forma de ser e de estar, não passam despercebidas. Mulheres cuja voz se faz ouvir, ainda que muitos silêncios pretendam pesar sobre elas. Porque incomodam. Porque são diferentes. Porque vão contra as correntes – de ontem e de hoje. Porque são, afinal, mulheres fortes”, lê-se na introdução do livro Vera Lagoa - Um Diabo de saias, da historiadora Maria João da Câmara.

Vera Lagoa é o pseudónimo de Maria Armanda Pires Falcão, filha de Armando Augusto Pires Falcão, oficial do exército e opositor do regime de Salazar, e de sua segunda mulher Beatriz Lúcia. “A minha mãe era uma mulher com um grande sentido da vida, muito observadora, muito inteligente, não culta, porque as senhoras daquela época e do nosso meio eram assim umas senhoras, óptimas donas de casa... mas o meu pai nunca tomava uma atitude sem consultar a minha mãe. Tinha muito mais sentido das realidades. O meu pai era mais romântico, mais sonhador, mas a família precisava de sobreviver de alguma forma”, disse a jornalista numa entrevista a Carlos Cruz, no programa Quarta-feira, em fevereiro de 1982.

Depois de vários trabalhos como os de secretária e datilógrafa, contactou com o grande público, pela primeira vez, através da RTP, em 1956, tendo ficado conhecida como a primeira locutora de continuidade da estação. “Naquela altura estava verdadeiramente em pânico. Toda a gente ali à volta a olhar diretamente para nós (...) estávamos todos completamente expostos. As pessoas só olhavam para nós para depois verem nos televisores qual era o efeito”, disse em 1988, lembrando o dia em que apresentou as rubricas que poderiam ser vistas até ao final da emissão e introduziu um documentário sobre ourivesaria portuguesa.

Em vez de dizer “Até amanhã, se Deus quiser”, Vera Lagoa despedia-se dos telespetadores com “Boa noite. Até amanhã” e o “excesso de personalidade”, descrito por Maria João da Câmara, valeu-lhe a saída da estação de televisão pública.

Depois da curta carreira televisiva, Vera Lagoa tornou-se jornalista no Diário Popular, assinando a crónica social Bisbilhotices: foi nesta época que surgiu o pseudónimo de Maria Armanda cujo primeiro nome, Vera, significava que era autêntica ou verdadeira, e Lagoa por ser o nome do vinho que estava na mesa durante um jantar, uma sugestão do escritor Luís de Sttau Monteiro que, juntamente com Francisco Pinto Balsemão, viria a ser considerado padrinho da jornalista.

Deixando a sua marca nos jornais O Diabo, O Sol, e O País, apaixonou-se pelo jornalismo, mas trabalhou durante cinco anos sem o reconhecimento oficial do cargo que desempenhava. “A empresa que eu sirvo, finalmente, convenceu-se das minhas razões. Não seria preciso mais para que o Sindicato se convencesse também. Afinal, com tudo isto, só pretendo mostrar a quem me lê e acredita em mim que uma mulher sozinha e sem habilitações literárias pode triunfar na vida. Na vida particular os insucessos podem ser constantes. Mas na vida profissional, está na nossa mão”, escreveu a 26 de dezembro de 1971, quando obteve a carteira profissional de jornalista.

Casada três vezes – com Francisco António de Gusmão Fiúza, José Manuel Tengarrinha e José Rebordão Esteves Pinto –, foi o segundo marido “o homem que mais amou”. “A frustração relacionada com as eleições de 1958 terá sido, de algum modo, compensada por uma paixão. Uma paixão para a vida. Maria Armanda tem quarenta anos, José Manuel Tengarrinha tem vinte e seis e está a terminar o curso de Ciências Históricas e Filosóficas”, lê-se no livro, sendo que casaram em 20 de novembro de 1958.

Teve um filho do primeiro casamento, Armando Falcão de Gusmão Fiúza, e quatro netos: José Manuel Fiúza, Rita Fiúza, Pedro Fiúza e Clara Fiúza.

A 19 de agosto de 1996, Maria Armanda Pires Falcão morria de ataque cardíaco. “É um adeus a uma mulher frontal. Corajosa. Excessiva. Generosa. Carismática. Profundamente patriótica. Profundamente livre”.

 

É licenciada em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em História Moderna e doutorada na mesma área. Como surgiu o interesse pela disciplina em questão?

Desde os 10 anos, talvez antes, quando lia a banda desenhada dos livros da escola, com personagens históricas, e gostava imenso. A partir do momento em que soube que havia um curso de História, fiquei feliz da vida e quis tirá-lo. Eram as aulas que me interessavam mais, os professores de História eram aqueles que achava melhores e acabei por ter a possibilidade de seguir aquilo que desejava.

“O Arquivo da casa de Belmonte séculos XV-XIX: Identidade, gestão e poder” é o título da tese de doutoramento que defendeu em 2017. Como teve esta ideia?

Foi uma decisão natural porque fiz a tese de mestrado sobre as origens de uma parte dessa família e, a certa altura, cruzei-me com a professora Maria de Lurdes Rosa, que ganhou uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação para estudar a história dos morgados nos séculos XIV a XVII, numa perspetiva comparada, e ela estava precisamente a iniciar um projeto acerca de arquivos de família. Por isso, achei que fazia sentido apostar neste tema.

Antes de “Vera Lagoa - Um Diabo de saias”, publicou outros livros, entre eles, as biografias de Pedro de Figueiredo (1657-1722) – Uma Biografia; João Branco Núncio (1901- 1976) e Maria José Nogueira Pinto, Uma Vida Invulgar. Sempre foi apaixonada por este género literário?

Fascina-me conhecer pessoas e, se calhar, ao conhecê-las, elimino preconceitos que tenho em relação a algumas coisas. Quanto mais se conhece, mais próximo se fica. E depende das personagens de cada época. Por exemplo, há personagens mais antigas que me fascinam e outras mais recentes que não tanto. O século XX não era o meu preferido e, de repente, o meu pensamento mudou quando comecei a escrever biografias de personagens que viveram no mesmo.

Qual é a sua época predileta?

Os séculos XVII e XVIII.

Em “Vera Lagoa - Um Diabo de saias” explora a vida de uma personagem do século XX. Na sinopse do seu livro, é possível ler que “poucas mulheres marcaram tanto o século XX português como Vera Lagoa”. Como escolheu os títulos de cada capítulo?

Como esclareci na introdução, a jornalista dizia que o seu primeiro nascimento tinha sido em 1917, em Moçambique, o segundo com o casamento com José Manuel Tengarrinha e o terceiro com o nascimento do pseudónimo Vera Lagoa. Ou seja, na primeira parte, abordo os anos compreendidos entre as origens dela e a publicação da primeira crónica, na segunda falo do sucesso que teve e de como reagiu ao mesmo e, na terceira, exploro o percurso que teve a partir do 25 de Abril de 1974. Tentaram calá-la de todas as maneiras.

O primeiro capítulo do livro é intitulado de “Primeiro Nascimento” e trata a vida da jornalista entre o ano do nascimento, 1917, e 1966. Nesse período, não teve oportunidade de estudar para além da 4.ª classe da instrução primária, tendo sido autodidata. Acredita que este é um exemplo não só dos desafios que o género feminino enfrentava como da pressão política e da desigualdade de oportunidades existente?

Foram circunstâncias da vida dela. Foi muito marcada pela figura do pai e pela deportação do mesmo. Ele era revolucionário. Não acho que ela se sentisse condicionada pelo facto de não ter estudado porque tinha muitos interesses. É engraçado ver como uma mulher, que começa a trabalhar aos 16 anos para sustentar a família, nunca se sentiu discriminada. Sempre cumpriu as obrigações – era muito boa datilógrafa e, depois, secretária – e gostava daquilo que fazia. A determinada altura, ela dizia que tínhamos de sobreviver e nunca viver à custa de alguém. Era uma mulher que não fazia aquilo que se esperava que fizesse e não tinha quaisquer problemas com isso.

Através das informações que recolheu, acredita que este emprego, de algum modo, deu mais mundo à jornalista?

Por aquilo que entendi, ela não tinha problemas em arranjar trabalho. Quando ficava cansada de um sítio, encontrava outro. Dizia que todos os trabalhos eram dignos desde que fossem bem feitos. Por exemplo, a dada altura, percebi que ela estava na Casa de Portugal – apoiava os exilados políticos –, em Paris. Ao mesmo tempo, não percebo em que contexto vai para lá, mas entendo que está com as pessoas com as quais quer estar: as da Oposição e ligadas ao Partido Comunista e ao surrealismo. Só por algumas referências apercebo-me de que muda e vai tentando melhorar.

Em 1956, apareceu ao lado de Raul Feio na primeira transmissão experimental da RTP do dia 4 de Setembro de 1956, já com quase 40 anos, na Feira Popular de Lisboa, tendo apresentado um documentário sobre ourivesaria.

Estava a trabalhar como secretária na Emissora Nacional e soube que havia entrevistas para locutora. E concorreu. Também fez traduções de vários livros e, às tantas, é desafiada para ser secretária no Diário Ilustrado. E foi aí que teve o primeiro contacto com a imprensa. O facto de conseguirmos juntar as peças do puzzle e compreendermos o encadeamento dos acontecimentos é incrível.

Recusava-se a dizer, no final da emissão, “Até amanhã, se Deus quiser”, por ser agnóstica. Esta decisão foi um dos principais motivos pelos quais foi dispensada das suas funções?

Segundo aquilo que ela escreve, foi essa a razão. Para ela, não fazia sentido dizer aquela frase. O diretor dela, no fundo, obrigava-a a fazê-lo. “Mas há algum contrato, alguma lei, que me obrigue?”, questionava. Então, foi despedida por excesso de personalidade e orgulhava-se imenso disso. Era uma mulher absolutamente livre. A título de exemplo, organizou os primeiros concursos de Miss Portugal. Gostava muito de moda e era extremamente coquete. No fundo, era uma esteta, gostava daquilo que era bonito e que as mulheres portuguesas fossem bonitas. A Maria Lamas dizia-lhe algo como “Vai, mas abre os olhos às miúdas”.

Além de se ter oposto ao Estado Novo, a jornalista ainda ajudou presos políticos e apoiou a candidatura de Humberto Delgado. O fascínio pela política deveu-se ao facto de Vera se dar muito com os amigos do pai ou por outro motivo?

Foi muito por influência do pai, um perseguido do regime, que combateu a Monarquia, a I República e o Estado Novo. Voltou para Portugal, mas nunca foi ouvido nem foi a tribunal. Num certo dia, estava num café e disse “Vamos tomar a alfândega”. Pegou em armas e, juntamente com três pessoas, fê-lo. Ela bebeu, no fundo, essas ideias e, depois, demonstrou ser contra o Estado Novo por ser um regime autoritário. Acabou por ingressar na Oposição exatamente pelo pai.

O segundo capítulo do livro, “Segundo Nascimento”, aborda a vida desta personalidade entre os anos de 1966 e 1974. Foi durante estes anos que se tornou jornalista no Diário Popular, escrevendo a crónica social “Bisbilhotices”. Como lidou com o facto de o odiar?

Penso que o diretor sugeriu este título. Quando apresentou a crónica ao doutor Francisco Pinto Balsemão, ele achou que fazia sentido apostar nela porque não havia nada parecido com aquilo que escrevia. A ideia era fazer uma coluna do estilo da “Les potins de la commère”, de Carmen Tessier, do “France Soir”. Estavam a tentar encontrar um título e acabaram por não combinar e, de repente, como explico no livro, ela estava a passear o neto mais velho, de carrinho, na Caparica, comprou o jornal e, quando se apercebeu da situação, ficou “desmoralizadíssima”. Utilizou mesmo esta palavra numa entrevista que deu a Carlos Cruz, em 1982. Julgo que lhe caiu a alma aos pés, como se costuma dizer. No entanto, como tinha um sentido de humor extraordinário e absolutamente delicioso, escrevia coisas como “Transcrever uma carta recebida é uma bisbilhotice. Uma autêntica bisbilhotice. Mas alguma vez eu havia de justificar o título da minha secção”, a 18 de maio de 1967.

Foi Luís de Sttau Monteiro que sugeriu o pseudónimo Vera Lagoa. ‘Vera’, por significar autêntica ou verdadeira, e ‘Lagoa’ por ser o nome do vinho que estava na mesa. Acredita que o facto de escrever sob um pseudónimo a tornou, de algum modo, mais livre?

Francisco Pinto Balsemão e Vera Lagoa decidiram que ela escreveria três crónicas por semana, mas pediu-lhe que escolhesse um pseudónimo porque considerava que o seu nome não tinha força. Então, a jornalista pensou que o primeiro nome poderia ser Vera por sugestão de verdade e, num jantar, quando tinham esse debate, Sttau Monteiro olhou para a garrafa do vinho que bebiam e exclamou “Mas o que é que estamos a beber? [Vinho] Lagoa? Ficas Lagoa!”. Durante um tempo, permaneceu anónima e isso acabou por despertar curiosidade. Ninguém sabia quem era esta mulher que escrevia sobre a abertura da temporada em São Carlos, literatura, revistas... Quem é que era esta pessoa? Quando lançou o livro Bisbilhotices, revelou a identidade. Curiosamente, o jornal anunciou o lançamento da obra e publicou imagens da jornalista em semi-perfil. Via-se a madeixa branca característica.

Demorou alguns anos a ser oficialmente reconhecida como jornalista.

Lutou muito para obter a carteira profissional de jornalista porque só tinha estudado até à quarta classe, mas tinha a razão do lado dela. Dizia que não era apenas colaboradora porque produzia conteúdos jornalísticos, incluindo reportagens, com frequência. O doutor Balsemão apoiou-a. Quando conseguiu o documento, fez um cocktail para celebrar esse acontecimento. No capítulo “Segundo Nascimento”, recordo que o caso da Vera foi avaliado pelo Conselho Técnico de Disciplina, em 1971, do Sindicato dos Jornalistas. “Ao fim de cinco anos e muitos meses, a ganhar a minha vida exclusivamente como jornalista e não passar de doméstica (ou prezada colaboradora) eis que, ao fim e ao cabo, o Sindicato acaba de me aprovar, apesar de eu não ter as habilitações literárias suficientes. Não tenho. Mas nunca precisei delas”, escreveu a 26 de dezembro de 1971.

É verdade que saiu do Diário Popular de relações cortadas com Francisco Pinto Balsemão como, muitas das vezes, é noticiado?

Não. Saiu a seguir ao 25 de Abril porque o jornal foi tomado pelos trabalhadores. Houve todo um processo revolucionário. Ela explica que chegava à redação e tinha papelinhos amarelos, da secretária à porta, com a palavra “Vigilância” escrita. Era vigiada no próprio posto de trabalho. Na verdade, acho que ela manteve sempre em mente que Pinto Balsemão a tinha ajudado. As pessoas também acham que se virou para a direita porque se separou do José Manuel Tengarrinha. Não tem nada a ver porque, muito antes do 25 de Abril, já estavam separados. Por exemplo, o Fernando Dacosta é uma das pessoas que acreditava nisto e ficou muito espantado quando lhe contei aquilo que descobri.

O terceiro capítulo, “Terceiro Nascimento”, trata a vida da jornalista entre os anos de 1974 e 1996. No livro “Revolucionários que Eu Conheci”, Vera denunciou os apoiantes do Estado Novo que se tornaram radicais da extrema-esquerda. Que impacto teve esta obra?

O livro teve um impacto enorme na sociedade. Pega nesses revolucionários que acusa e entrevista-os para eles terem a oportunidade de responder. No prefácio do livro, Paradela de Abreu [o editor de Portugal e o Futuro, livro de António de Spínola] escreveu que se houve uns que levaram pela medida grande e eram entrevistados estando cabisbaixos, outros levaram as críticas na desportiva. Dependia muito das pessoas e das acusações que lhes eram feitas.

Depois de escrever no semanário “Tempo”, fundou o jornal “O Diabo”. “Não gosto de si. O senhor é muito feio!”, escreveu num editorial sobre o Presidente da República, Costa Gomes, e o Conselho da Revolução suspendeu-o. Vera ficou ainda mais desiludida com a democracia que então nascia?

Isso aconteceu quando Costa Gomes era Presidente da República por nomeação da Junta de Salvação Nacional. Deu-se exatamente o contrário: quando fecharam O Diabo, ela abriu O Sol com os mesmos jornalistas, grafismo, etc. Tudo igual exceto o título. Tanto que em julho de 1976, escreveu o artigo “Senhor Presidente, perdi-lhe o respeito”, assumindo que se ia dirigir “direta e, na aparência, menos respeitosamente ao Presidente da República”, dizendo que era “muito feio”.  Foi a primeira jornalista a ser processada por um Presidente da República. Entretanto, este último jornal sofreu um atentado à bomba depois dos primeiros números. Ficou com sequelas cardíacas. Sabia que era uma pessoa malquista e corria perigo, mas nunca teve medo. Dizia: “Medo é uma palavra que me faz sair à rua com pedras na mão”. Até se ouvia que Portugal tinha quatro homens de saias: Natália Correia, Vera Lagoa, Fernanda Leitão e o Bispo do Porto (D. António Ferreira Gomes).

Foi julgada por ter insultado Costa Gomes?

Houve uma época em que não fazia mais nada senão estar em tribunal.

Entre outras ações, Vera apelou a uma investigação à queda do avião que matou Sá Carneiro e seus acompanhantes, que, juntamente com Augusto Cid, ela considerava ter sido um atentado bombista. O facto de se envolver na política veio a prejudicá-la?

Nunca se sentiu estigmatizada por ser mulher. Fazia e dizia aquilo que queria. O jornal era de cariz muito político, porque ela achou que fazia sentido, e chegou a ter tiragens médias de 80 mil exemplares.

Podemos afirmar que Vera Lagoa era feminista?

Não, nunca foi.

Não concordava com o conceito?

De que feminismo estamos a falar? Por exemplo, era a favor do sufrágio universal e ficou muito feliz quando votou pela primeira vez. Escreveu crónicas extraordinárias sobre a condição feminina. Não via diferenças entre ser-se homem ou mulher.

Como encarava o estatuto atribuído à mulher durante o Estado Novo? A mulher tinha de ser uma esposa extremosa, uma esposa atenta, uma fada do lar... E os homens eram os chefes de família.

Ela achava que as mulheres tinham de trabalhar e ganhar o sustento. Ponto final, parágrafo. Narro que, apesar de odiar chás de caridade, foi convidada para um chá promovido pelo Clube das Donas de Casa e foi ao mesmo. Dizia que eram aquelas “senhoras que, apagadamente, se fartam de trabalhar e de quem ninguém nunca fala” e acrescentava que “as donas de casa de agora já não têm motivo para pensar que, agarradas ao fogão ou a bordar lençóis, são obrigadas a ficar em casa”. “Eu, que tinha entrado irónica, irónica não saí”, disse sobre a “sensação de felicidade” daquelas mulheres. Percebeu que nem todas as pessoas eram felizes da mesma forma.

Vera foi casada por três vezes. Acha que alguma vez foi feliz?

Acho que ela foi feliz com o José Manuel Tengarrinha. Foi o homem que mais amou.

Dava-se bem com o filho?

Era uma mulher muito afetiva e atribuía uma enorme importância à família. Por exemplo, revelou em relação aos netos mais velhos uma situação complicada. O filho separou-se da mulher e houve uma discussão acerca da partilha da guarda das crianças. Quando o filho, que era professor universitário, estava a embarcar para a Alemanha, para ir a uma conferência, olhou para o lado e viu os filhos a embarcarem para Londres com a mãe. Celebrava os aniversários dela, do filho e dos netos como os momentos mais importantes. Percebi que era uma pessoa atenta e terna porque conversei com a nora, Isabel Fiúza, e o sobrinho-neto, Carlos Pissarra. Havia a Vera Lagoa enquanto figura pública e a Vera Lagoa mãe, avó, tia... No dia de Natal, em casa dela, a porta estava aberta e toda a gente podia comer e celebrar. Os familiares realçaram muito essa vontade de celebrar certas datas.

Mesmo mais velha?

Sim. Lembro-me de que disse, num programa: “Sou septuagenária, sei que sou septuagenária, mas não gosto que me chamem isso”.

Como escolheu a fotografia da capa?

Achei que mostra uma mulher muito bonita, já com uma idade avançada, que olha para nós e...

Parece que quer entrevistar-nos.

Sim! Interpela-nos. E acaba com o estereótipo de que as mulheres somente são bonitas com 20 e tal anos.

Morreu de ataque cardíaco, aos 78 anos.

Ela foi a casa almoçar, na véspera do fecho da edição do jornal, e morreu enquanto dormia uma sesta. Como tinha problemas cardíacos, tinha de ser seguida por médicos e, certa vez, quando fez uma viagem a Nova Iorque, descreveu máquinas onde se via o coração por dentro. Calculo que fossem as ecografias. Escreveu o último editorial sobre António de Spínola, que havia morrido a 13 de agosto de 1996. Perdeu a vida seis dias depois.

Qual é a maior herança que deixa? “Já tenho dito que só morta ficarei calada”, lê-se no início do livro.

Vera Lagoa ensinou-nos a não ter medo. É uma lição, sobretudo, de coragem. Temia a solidão e a velhice.

Quais são os pontos de ligação entre a série “Três Mulheres” e o livro?

São formatos muito diferentes. Quando estava a investigar e a escrever, surgiu a pandemia, e, a certa altura, tive de avançar sem ter todos os testemunhos. Fazia sentido ter entrevistado algumas pessoas mais velhas, mas não as quis colocar em risco. Sobretudo, durante o primeiro confinamento, pois foi a altura em que precisava imenso de ter estas conversas. Estas perspetivas enriqueceriam o livro, mas tive de tomar decisões. Passei um ano a investigar profundamente – folheei milhares de jornais – e outro a redigir.

Está a trabalhar numa próxima obra?

Fechei este capítulo há mais ou menos dois meses e preciso de tempo para entender aquilo que farei a seguir.

 

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