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A princesa desesperada para fugir da torre

A princesa desesperada para fugir da torre

AFP Mafalda Domingues 19/07/2021 20:08

Passados 13 anos de tutela, Britney Spears apresentou uma queixa formal contra o pai, Jamie Spears, de abuso de poder. Ao ter pela primeira vez a possibilidade de escolher um advogado, a princesa da POP, conhecida pelos hits Toxic, Everytime e Crazy, vê-se a chegar ao fim dos anos de proibição e censura, sem puder conduzir, beber café, ou escolher a cor dos seus armários.  

Da perfeita imagem de American Girl Next Door – um exemplo com que todas as meninas sonhavam, para uma mulher descontrolada e psicótica, um modelo a quem todos apontaram o dedo e julgaram pelos erros inadmissíveis e de alguém quem esperavam sempre uma melhor versão.

Britney Spears, que está a um passo dos 40 anos, vive refém não só da sua própria fama, como também do pai, Jamie Spears, que se tornou tutor legal da cantora, no momento em que a celebridade foi levada até à exaustão devido à sua notoriedade e àquilo que foi absorvendo do caos mediático em volta de si.

Desde muito cedo, os pais de Britney traçaram o caminho da cantora para as luzes do palco. Com a sua expressividade, a pequena Britney foi sempre encaminhada para várias áreas artísticas, ao obter a primeira oportunidade para brilhar nos ecrãs aos oito anos, em 1989. Passados nove anos, já em adolescente, Britney Spears lançou o primeiro álbum Baby One More Time, que iria mudar a sua popularidade da noite para o dia.

A jovem de 17 anos passou da escuridão do anonimato para ficar completamente encandeada com os flashes das câmaras dos paparazzi. Todos ficaram magnetizados com a figura da jovem adolescente loira, bonita e com ar inocente, sobre a qual todos queriam descobrir as suas obscuridades da sua vida íntima, tendo sido questionada com dúvidas promiscuas sobre os seus seios, sexualidade e virgindade por parte de jornalistas norte-americanos e internacionais.

Don’t you know that you’re toxic?

Os primeiros sinais de perigo soaram em 2006, quando a figura incontornável do mundo da música foi fotografada pelos paparazzi a conduzir com o filho Sean ao colo, com apenas um ano.

A vida de Britney Spears já estava numa espiral de descontrolo: perdeu as rédeas do casamento com o dançarino Kevin Federline, mergulhou no álcool e em comprimidos. Uma situação que acabou por determinar o seu destino e que se agravou, em 2007, quando decidiu rapar o cabelo, depois de o cabeleireiro ter negado o seu pedido. Saturada de ser vigiada, Britney, com um guarda-chuva, começou a bater num carro de um paparazzo, um momento que ficou gravado para sempre na história da cantora.

A gota de água chegaria um ano depois da cena infame, quando foi hospitalizada duas vezes, com vestígio de substâncias ilícitas, acabando por ser internada na ala psiquiátrica do hospital Ronald Reagan UCLA Medical Center. 

And every time I try to fly I fall

Jamie Spears agarrou a oportunidade e alterou completamente a forma de viver da filha. Enquanto estava a ser observada no hospital, Jamie pediu ao Tribunal Superior do Condado de Los Angeles um título de tutor legal temporário, alegando que Britney não estava em condições para se tratar ou para lidar com os problemas pessoais devido ao estado psicológico. 

Daí para a frente, Jamie Spears ficou com o direito legal de controlar o dinheiro, a saúde e a carreira da filha, e principalmente com a total possibilidade de permitir ou não se Britney podia casar ou de ter filhos novamente. Por norma, esta situação nos Estados Unidos é aplicada a pessoas que estão em coma ou em idosos.

Segundo os “documentos legais confidenciais” a que o jornal The New York teve acesso, o pai de Spears monitorizava a vida da filha até ao mínimo pormenor, desde com“quem ela namora até à cor dos armários da cozinha”. Também  as amizades da cantora tinham de passar pelo selo de aprovação de Jamie. 

Haveria liberdade para Britney em Portugal?

Se o caso de Britney acontecesse em Portugal, os contornos seriam diferentes. Segundo disse o advogado João Cavaleiro e Silva ao i, a cantora continuaria com os seus direitos, contudo os seus negócios seriam retificados pelo seu acompanhante, ou seja, pelo tutor. O regime de maior acompanhante, que se exerce em casos de pessoas com problemas psicológicos ou em pessoas de estado acamado, é revisto obrigatoriamente de cinco em cinco anos pelo Ministério Público (MP).  

Ou seja, Britney poderia viver normalmente o seu quotidiano, sem quaisquer limitações, mas se quisesse comprar um imóvel, o acompanhante teria de aceitar a proposta, explicou João Cavaleiro e Silva. Caso não houvesse acordo, um dos dois poderia ir a tribunal para o MP aprovar ou negar o negócio. 

Além do MP desempenhar um grande papel no regime do maior acompanhado, o escolhido para ajudar a pessoa debilitada ou sem responsabilidade cognitiva não recebe nenhum dinheiro em troca pelo cargo, algo que não acontece no caso de Britney. “Ser remunerado implicaria que o acompanhante quisesse que aquele acompanhamento durasse o maior tempo possível”, apontou o advogado, ao acrescentar que este regime tem apenas como interesse a proteção da pessoa que necessita de auxílio de outro. 

À medida que fossem realizadas novas avaliações do caso e se Britney mostrasse melhorias da sua capacidade cognitiva, o tribunal português iria aliviar as restrições do seu regime. O mesmo não acontece com os tribunais norte-americanos, que apenas reavaliam o caso, se for apresentada uma petição formal ao juiz do Supremo Tribunal. 

All of the boys and all of the girls are begging to if you seek Amy

Sob tutela parental, Britney lançou quatro álbuns – Circus (2008), Femme Fatale (2011), Britney Jean (2013) e Glory (2016) – e continuou a realizar tournées pelo mundo, tudo sob o consentimento de Jamie. Mesmo que tentasse camuflar a vida pessoal com álbuns e concertos, a mostarda acabou por chegar ao nariz da legião de fãs da cantora. 

As primeiras chamadas de atenção aconteceram em 2008, quando Britney Spears foi entrevistada para a revista Rolling Stone, na qual falou sobre a tutela: “Basicamente, só quero a minha vida de volta… quero poder conduzir o meu carro. Quero poder morar em minha casa sozinha. Quero poder escolher o meu segurança”, e no documentário Britney: For The Record, da MTV, onde a artista disse: “Se eu não estivesse sob as restrições que estou agora, sentia-me tão livre […] nunca quis tornar-me numa daquelas prisioneiras. Sempre me quis sentir livre”. 

É através destas motivações que, de acordo com The New York Times, a hashtag e o movimento #FreeBritney nasceram em 2009, sendo uma palavra de ordem do site de fãs Breathe Heavy que iniciou uma campanha, onde foram criticadas as circunstâncias pessoais da cantora. Estas suspeitas caíram por terra e voltaram a ganhar força em janeiro de 2019, quando Spears cancelou espetáculos numa residência em Las Vegas, devido à saúde fragilizada do pai.

E de um momento para o outro, Britney desapareceu das redes sociais durante quase três meses, algo que  pareceu caricato para os fãs. Regressou em abril, ao publicar uma fotografia, na qual referiu que estava a tirar um tempo para si. Porém, de acordo com site TMZ, a artista teve uma recaída e foi internada numa instituição de saúde mental devido à crise de saúde do pai.  

O movimento #FreeBritney voltou a ganhar asas quando no podcast exclusivo sobre a vida da cantora, Britney’s Gram, foi divulgado um áudio, segundo as autoras, de uma fonte anónima, que alegava ser um auxiliar judicial que trabalhava no escritório de advogados, onde estava a ser tratado o caso da tutela de Spears. 

Nesse áudio, o anónimo indicou que Britney quebrou várias regras impostas pela tutela, entre as quais deixar de tomar os comprimidos e andar de carro com o atual namorado. Jamie obrigou Britney a voltar a tomar a medicação e caso não o fizesse viria a sua digressão em Las Vegas cancelada.

Os fãs fizeram-se ouvir e uniram-se em frente ao City Hall de West Hollywood para protestar contra a tutela. Houve uma resposta por parte de Britney, que emitiu um comunicado nas redes sociais, ao insistir que tudo estava bem e a pedir ao fãs para “não acreditarem em tudo o que leem ou ouvem”. 

Ainda assim, os mais céticos mantiveram-se atentos aos movimentos da cantora e nas publicações seguintes, os fãs rechearam a caixa de comentários com #FreeBritney e iniciaram um código para ajudar Britney a alertar qualquer perigo que viveria naquele enclausuramento. Era escolhida uma cor pelos fãs e pedido para que fosse usado numa peça de roupa no próximo vídeo que a cantora publicasse. A internet explodiu quando, em várias publicações, a cantora começou a usar as peças amarelas como sinal de ajuda e preto de tristeza. 

You drive me crazy, I just can’t sleep

Em agosto de 2020, Britney Spears tentou mudar definitivamente a sua vida, ao entregar no Tribunal Superior de Los Angeles (TSLA), o pedido de revisão sobre a decisão da tutela, requerendo que Jodi Montgomery, atual responsável pelos cuidados pessoais e também substituta temporária de Jamie quando adoeceu em 2019, a ocupar o lugar do poder do pai Spears. 

A esperança durou pouco, uma vez que o tribunal decretou que a tutela se mantinha nas mãos de Jamie, renovando-se por mais um ano, já que Britney nunca apresentou uma pedido formal ao tribunal para que fosse anulado o acordo.
No entanto, a luta pela liberdade de Britney Spears ainda conseguiu chegar a um bom porto, quando o seu advogado Samuel Ingham III – o terceiro escolhido pelo tribunal para a representar – apresentou uma ação para retirar o pai da curadoria da sua fortuna, ao querer substituí-lo pelo fundo fiduciário Bessemer. 

A juíza do TCLA, Brenda Penny, rejeitou o pedido, mas a firma tornou-se co-curadora do património de Spears, estimado na altura em 60 milhões de dólares (cerca de 50 milhões de euros). Com essa vitória, Britney continuou a lutar pela sua independência e quase um ano depois, em junho deste ano, voltou ao tribunal, por via online, para falar publicamente pela primeira vez sobre o acordo da tutela.

“Acredito que esta tutela é abusiva”, começou por dizer, de tal forma emotiva que a juíza Penny pediu para abrandar o ritmo do discurso. “O meu pai e todos os envolvidos nesta tutela e na sua gestão desempenharam um papel fundamental neste meu castigo, eles deveriam estar presos”, declarou a cantora, ao explicar que está traumatizada, ao passar noites em branco. 

Britney revelou que foi obrigada a internar-se numa clínica psiquiátrica que lhe terá custado 60 mil dólares mensais (cerca de 50 mil euros), após o cancelamento dos espetáculos em Las Vegas em 2019. Sobre todas as fotografias e mensagens que publicou mais recentemente no Instagram, a cantora confessou que não  passou de uma farsa para esconder a sua mágoa. “Estou tão revoltada e estou deprimida. Choro todos os dias”. 

Brenda Penny elogiou a força de Britney por falar publicamente, visto que na última vez em que a cantora se apresentou em tribunal, em maio de 2019, pediu uma sessão à porta fechada, sem a divulgação do seu testemunho. A juíza explicou-lhe que, para o seu processo avançar, a cantora precisa de uma petição formal e, segundo os termos da tutela, terá de demonstrar que é capaz de assumir a responsabilidade pela sua vida pessoal e financeira.

O testemunho de Spears levou à união de várias celebridades, nomeadamente do mundo POP. Christina Aguilera, Mariah Carey, o ex-namorado Justin Timberlake e Madonna recorreram às redes sociais para apelar ao fim da tutela. “Devolvam a esta mulher a sua vida. A escravatura foi abolida há tanto tempo! Morte ao patriarcado ganancioso que tem vindo a fazer isto às mulheres há séculos. Isto é uma violação dos direitos humanos! Britney, vamos tirar-te da prisão!”, protestou Madonna no Instagram. 

Após três semanas da sua declaração emotiva, Britney viu a empresa de gestão e fortunas e investimentos Bessemer  apresentar um pedido em tribunal para que lhe seja retirada a responsabilidade de ser co-curadora da sua fortuna. O agente da carreira, Larry Rudolph, demitiu-se recentemente depois de 25 anos a acompanhar a cantora. O advogado atribuído pelo tribunal, Samuel Ingham III, e que seguiu o processo desde o início demitiu-se, sem terem sido divulgados os motivos. Ambos os pedidos da empresa Bessemer e do advogado foram aceites pela juíza da TCLA. 

Segundo a carta do agente a que a revista Variety teve acesso, Larry Rudolph disse que “os seus serviços profissionais já não eram precisos”, uma vez que Britney Spears já admitiu que se quer reformar da indústria.  

Ao fim de 13 anos de tutela, a princesa  pop escolheu o advogado e o tribunal de TCLA concedeu-lhe o seu pedido. O ex-procurador federal Mathew Rosengart, conhecido por ser advogado das “estrelas”, tendo representado Ben Affleck, Steven Spielberg e Sean Penn, aceitou o pedido da cantora e afirmou em tribunal, esta quarta-feira, que irá lutar pelo fim da tutela, ao frisar que pai de Spears deveria demitir-se voluntariamente, uma vez que o bem-estar da filha deveria ser a sua prioridade. 

Rosengart elogiou a “coragem, paixão e humanidade” de Britney, dizendo que a cantora teve um testemunho “claro, lúcido, poderoso e convincente”. 

Na última sessão, a artista voltou a estar contra a vontade do pai, ao apresentar uma queixa formal contra Jamie Spears de abuso de poder. Durante 20 minutos, Britney disse que a tutela era uma “crueldade”, ao explicar que nem uma chávena de café poderia beber. “Se isto não é abuso, eu não sei o que é. Pensei que estavam a tentar matar-me”, citada pela CNN. 

Agora, o primeiro passo de Mathew Rosengart será entregar um documento formal a pedir a rescisão da tutela, deixando a princesa a desmontar pedrinha a pedrinha a grande torre do castelo que o pai construiu em redor da sua vida.  

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