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Carlos Pinto 19/07/2021
Carlos Pinto

opiniao@ionline.pt

O autarca como promotor de betão?

A descarbonização entrou na agenda do mundo político, porque o mundo é hoje um centro de negócios e a dita é ela própria um negócio político/económico.

Portugal “foi o primeiro país no mundo a assumir o compromisso da neutralidade carbónica”, disse o ministro do sector no parlamento, que acrescentou “serem precisos 2,5 mil milhões de investimento em cada ano, para chegar à neutralidade em 2050”

Ora, descarbonizar a esta velocidade sem regra nem gradualismo, para um país como Portugal, só revela obediência a ditames comunitários de subserviência europeia e não de aferição do interesse nacional.

Representando Portugal 6,6, quando o Luxemburgo atinge 17,3 no ranking de “Emissões de gases com efeito de estufa per capita” numa média na UE de 8,4, mal se percebe a pressa …

É verdade que os blocos mundiais geo-políticos e económicos, em concorrência pela parte de leão do comércio mundial, vêem neste negócio um pouco do que, “mutatis mutandis” significou a guerra das estrelas para a competição no quadro da guerra fria: o definitivo argumento que acabou com o competidor geo-politico-económico mais relevante (URSS) sem disparar um tiro.

Hoje, trata-se de pressionar para uma suposta igualdade” na esfera da base produtiva interna, que justifique iguais condições a terçar no comércio internacional.

Mas voltemos ao tópico.

Neste quadro de descarbonização global, ao nível das cidades assiste-se a aplicações do objectivo de descarbonizar que não passam de seguidismos da moda, que justificam a pergunta dirigida a alguns eleitos: será que ser autarca é apenas exercitar a função de receptor de ideias gerais e construtor civil de ciclovias” como moda dos nossos dias?

Com efeito o que se pode observar em grandes e pequenas cidades neste domínio é fruto de uma falta de objectivos permanentes e de estratégias consolidadas sobre as cidades que queremos, as suas marcas diferenciadoras e a adopção ou recusa sobre o que é modernização aplicável e acoplável ao percurso específico de cada espaço urbano, na competitividade dos nossos dias.

Dois exemplos.

Lisboa suscita hoje de um simples cidadão caminhando nas ruas da capital, uma interpretação semafórica (num caos “organizado para automóveis, bicicletas e trotinetes) que dissuade pelo risco, a sua frequência: um perigo em cada esquina.

A Covilhã, cidade de montanha hoje mais próxima do vale, mas sempre ascensional, implementou no meu tempo como presidente (1990-2013) um moderno sistema de ascensibilidades (funiculares e ascensores) e estruturas transversais (pontes pedonais) que revolucionaram a circulação e o uso do espaço público, como se se tratasse de uma cidade plana.

Ora, em vez de seguir esta estratégia e alargar este percurso com novos equipamentos, o actual executivo, tem vindo a afectar 50% do espaço de muitas ruas e avenidas a uma patética sinaléctica horizontal de mini-bicicletas pintadas no chão, interditando aí a circulação automóvel, excepto a bus” “que ali passam uma/duas/vezes dia” e a bicicletas de que não se vê uma só, dia e noite, como exemplo e amostragem.

E tudo se passa no meio da risada quando não da chacota pública, sobre esta vivência na fantasia dos fundos para descarbonizar”, mesmo em território onde o ambiente é cristalino, o ar puro, a natureza amiga, a carbonização mitigada essencial à vida e não se vê ninguém andar de bicicleta.

Como interpretar esta confusão de urgências e prioridades, quanto a programas de geral afirmação económica e social, com ambição e horizontes de qualidade de vida?

A coisa fia fino e é fruto de cadeias de influência e decisão no quadro europeu.

Certos programas comunitários, com a respectiva incidência financeira, como é o caso da descarbonização, desencadearam a criação de centrais de negócio à volta de obras e intervenções urbanas.

Depois surgiram gabinetes com linha directa de aprovação das ciclovias patrocinadas por decisores muito próximos de meios para-governamentais.

Chegam então autarcas quais eleitos com uma visão angular breve, disfarçados de construtores civis.

Construindo o desperdício averiguado,

a) face à natureza orográfica das cidades,

b) em confronto com as circunstâncias, hábitos, realidades sociais e culturais das cidades.

Quem quiser ir do sul ao norte da Covilha, se tiver que pedalar, chamará um táxi em alternativa; quem tiver que se deslocar das docas de Belém às Amoreiras, idem aspas, aspas.

Ficarão então as ciclovias das avenidas novas para o lúdico e o passeio grupal familiar dos fins de semana, para fotos de álbuns das extravagâncias do quotidiano…

Mas porque razão a pergunta, “Um autarca é um promotor de betão”?

Não o será, mas tantas das vezes assim parece.

É que injectar betão e colocar sinaléctica é o menos;

O mais, nos dias que correm, é ser capaz de criar ou alargar “clusters” de especialização empresarial e captação de investimento, mudando a face dos territórios pelo emprego e pela chegada de novas famílias …

Mas isso demora mais que descarbonizar à pressa, cumprindo uma política se seguimento canino e exageros como as cicloestupidezes de natureza urbana.

Porque entrar na corrida ao investimento e à captação de empresas carece de novas competências e abordagem política nova.

Jurista


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