30/7/21
 
 
António Galamba 19/07/2021
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

Os perenes

Perene: Que dura para sempre. Que dura muito tempo. Que não se interrompe.

De vez em quando é preciso dar a ideia de que alguma coisa está a mudar para que demasiadas coisas continuem na mesma. É esta a sina trágica da sociedade portuguesa, agitar a espuma para procurar salvaguardar a manutenção dos equilíbrios das marés e das correntes dos perenes.

O chapinhar da espuma corresponde ao preenchimento básico dos graus de exigência da generalidade dos portugueses, alimenta o desafio maior de preencher as necessidades de conteúdos mediáticos e induz a perceção do funcionamento adequado do modelo de organização da sociedade, mas deixa de todo um universo de perenes, alguns já resgatados do tempo da outra senhora e reconfigurados para a democracia como grandes obreiros das dinâmicas das comunidades.

Há basicamente dois tipos de perenes, os que se posicionaram no topo da sociedade incólumes a quase tudo e a quase todos e os que estão remetidos para a base sem grandes possibilidades de acederem a um qualquer elevador social que rasgue a corrente de pobreza, exclusão e indigência em que estão integrados.

Os perenes mais, os do topo, posicionaram-se em tempos idos e engendram um conjunto de suportes de sobrevivência que lhes permitem manter a pose, o poder e os instrumentos de intervenção, sem que sejam questionados. E quando o são, mobilizam os recursos que têm à mão para reagir contra quem teve a ousadia de esboçar uma qualquer ideia ou ação contestatária da perenidade. Há Perenes Mais em todos os setores da sociedade portuguesa, das funções de soberania aos media, do público ao privado, passando pelo setor social, das tradições à inovação.

Imagine-se um Perene Mais que desempenhou as mais altas funções do Estado que tem um grupo de media e que, perante a emergência de novos protagonistas no setor, ameaçadores do posicionamento de sempre e sem pedigree das elites tradicionais de Lisboa e da Linha, resolve induzir a produção de conteúdos de ataque aos seus concorrentes, sob a capa do direito a informar, ou beneficia de instrumentos de medição das audiências completamente desfasados das dinâmicas dos consumidores de conteúdos audiovisuais. Num país sem perenes e com um Estado de direito, alguém se insurgia, alguém agia, por cá não.

Imagine-se ainda que um perene mais mediático responsável por produzir conteúdos informativos de um meio com nebulosas nos verdadeiros titulares da propriedade dos órgãos de comunicação social, questão de transparência nunca resolvida em Portugal, tinha um biscate opinativo pago num jornal desportivo é dispensado do bitaite. O que faz? Resolve ajustar contas com a anterior fonte de rendimento através de uma peça de prosa orientada contra o dono do anterior meio.

A sociedade está infestada de perenes mais, tenham pedigree ou sejam rafeiros, que não hesitam em recorrer ao vale tudo para tentar manter os privilégios, os equilíbrios e os esquemas operativos de sempre. O Estado, a política, a justiça e os cidadãos sabem, mas as ações e as reações são parcas, amorfas e conformadas com a exibição regular de exemplos parcelares de alegado funcionamento regular das instituições face à alegada corrupção, ilegalidade e a outras expressões que minam a democracia e abrem caminho aos populismos e às descrenças. Por parcial e amiúde inconsistente, o exercício torna-se ele próprio fundamento de injustiça e de desrespeitador da Constituição.

E depois há os outros, os do fundo, os perenes menos, remetidos para o patamar da irrelevância no palco das decisões, sem ter quem os defenda, quem lhes dê voz consequente e sem capacidade de organização para gerar qualquer ação com impacto na espuma dos dias ou nas marés do destino.

A pandemia reforçou os riscos para os perenes menos, os que não têm órbitas de gravitação em torno do poder, dos pressupostos de decisão, das geografias dos interesses garantidos e de outras expressões de assento dos Perenes Mais. Somaram-se assim aos problemas estruturais, alguns de sempre, os que decorrem dos impactos negativos da pandemia na vida das pessoas e na economia.

O drama da existência de perenes é, além da dualidade de natureza lesiva por ação e por omissão, instalou-se uma sustentada incapacidade em engrossar os que deveriam estar entre os dois blocos, a designada classe média, com melhores condições de vida e de realização individual e comunitária. Os perenes, que deveriam ser supostamente meramente transitórios, uns pelo funcionamento do Estado de direito, os outros pelos elevadores sociais de um Estado social eficaz, assumem a plenitude da duração além de todos os prazos de validade toleráveis.

Sem sentido de exigência cívica e senso de quem exerce funções públicas e privadas em que têm de promover decisões e deliberações com impactos gerais nas dinâmicas da sociedade será uma fatalidade continuarmos a ter perenes dos dois tipos. Ambos irritantes, os dois inaceitáveis.

Portugal precisa de deixar de ter perenes, de ter ações dos pilares da soberania do Estado eivados de parcialidade, de tolerância com uns e intolerância com outros, sem qualquer compromisso com a adequada visão de justiça, equidade, igualdade de oportunidades e coesão.

Não fazer nada, fingir que não existem, não é solução.

NOTAS FINAIS

MAIS PAPISTAS QUE O PAPA. Por regra, somos um país avesso à exigência e à defesa da competitividade nacional, mas adoramos grandes proclamações sobre o futuro que outros não cumprem colocando em risco postos de trabalho e produção de riqueza. Portugal prepara-se para penalizar os grandes consumidores de energia, colocando em risco milhares de postos de trabalho em territórios onde eles são vitais, enquanto em Espanha investe naquilo que Portugal está a colocar em risco. Competitividade de aço em Espanha, latão em Portugal.

NÃO OLHES PARA O QUE EU FAÇO, ÀS VEZES. Há pouco mais de um mês, em nome do interesse do relançamento do turismo nacional, o Governo impôs uma requisição civil numa greve de inspetores do SEF. Agora, perante o caos gerado pela greve dos trabalhadores da Groundforce e pelo cancelamento de cerca de 300 voos, ninguém faz nada. Será que o interesse na degradação da empresa é superior à importância de mitigar os impactos negativos da greve na economia nacional. Acresce que a estatal TAP parece ter umas contas por pagar que serviam para a liquidação do que é devido aos trabalhadores.

BONS VENTOS, TALVEZ BONS CASAMENTOS. A Cimeira da CPLP em Angola, apesar da indiferença brasileira, trouxe bons ventos. O reforço da mobilidade, a exigência democrática como pressuposto da pertença à comunidade e alguns projetos a concretizar, da Biosfera ao apoio ao investimento, são bons sinais, falta casar com a realidade de uma instituição muito aquém do potencial.

Escreve à segunda-feira

 


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