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Nuno André 16/07/2021
Nuno André

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Um lugar à sombra

A guerra deixou de se limitar aos campos de batalha no sentido literal da expressão. Surge muitas vezes dissimulada no virtual, no invisível a olho nu.

A vontade de promover a Paz não se circunscreve nem se esgota na ausência da Guerra. Porém, a ausência desta é uma condição fundamental para alcançar aquela e, por essa razão, assistimos com frequência a discursos mais ou menos públicos que tendem a provocar o fim dos confrontos armados entre povos.

Políticos, líderes espirituais e outros cidadãos bem-intencionados continuam a pedir - não sem travarem as suas próprias batalhas - aquilo que sabemos ser naturalmente impossível alcançar: a Paz Universal.

Segundo julgamos saber, o homem luta, pilha, destrói, mata desde os primórdios da Humanidade: seres humanos, animais, a Natureza, são submetidos a uma violência sem fim que ameaça reduzir a dignidade da criação a pó e cinza.

Necessidade dos que querem sobreviver, instinto dos que querem poder, vontade dos que querem ganhar e até condição dos perversos.

A guerra deixou de se limitar aos campos de batalha no sentido literal da expressão. Surge muitas vezes dissimulada no virtual, no invisível a olho nu. Mas, se por um lado é comum encontrarmos na natureza um macho que exibe a sua beleza, a sua agilidade, a sua força ou qualquer outra mais-valia no intuito de conquistar uma fêmea, tratando-se da guerra entre nações os líderes encantam e intimidam o seu eventual inimigo exibindo arsenais bélicos – quanto maiores melhor – fazendo-os desfilar ao lado de uma enorme massa humana/carne para canhão entre brilhos dourados, tecidos coloridos e barulho, muito barulho que se mistura com marchas triunfais de corpos que se movimentam em perfeita sintonia.

O empenho dos que desfilam nas passadeiras da morte fascina o mais desprevenido que vê nos passos sem hesitação e nas vozes de comando exemplos de perfeição e equilíbrio. Chegámos ao ponto de onde nunca saímos.

É triste, deveras triste que cada um de nós, à nossa medida, persista em fazer as suas próprias guerras.

Ocorreu-me falar do tema da guerra depois de assistir a um lamentável cenário bélico entre duas famílias que na praia disputavam um lugar ao sol.

Depois de esgrimirem palavras, de gesticularem em abundância sem qualquer coordenação e de se fazerem ouvir ao longe, cada um, exausto, acabou sentado à sombra do seu chapéu. De praia. Promissor. Colorido…

 

Professor e investigador

 


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