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Os "segredos" por trás do maior castelo de areia do mundo

Os "segredos" por trás do maior castelo de areia do mundo

SKULPTUREPARKEN BLOCKUS Sara Porto 16/07/2021 14:05

Tem mais de 20 metros de altura. Na sua construção, foram utilizadas seis mil toneladas de areia e, agora, é tido como o maior castelo de areia do mundo esculpido por 17 escultores. Entre eles, o português Pedro Mira.

Há quem olhe para eles como os primeiros desafios da infância. Aliás, devem ser poucos aqueles que não tenham tentado ou mesmo construído um pequeno castelo de areia durante a sua vida. Depois, o mar encarrega-se de os levar e alguns sentem isso quase como uma metáfora para a “efemeridade da vida”. Mas há também aqueles que vivem disso, que percorrem o mundo há procura de técnicas, de partilhas e de desafios. Pedro Mira é uma dessas pessoas e também um dos responsáveis por aquele que é, agora, o maior castelo de areia do mundo e que fará parte da edição de 2022 do Guinness Book of Records.

O CASTELO Um grupo internacional de 17 artistas e técnicos especializados em escultura de areia foram desafiados para um projeto de uma envergadura rara e bastante perigosa. Em Blokhus, uma pequena cidade costeira no noroeste da Dinamarca (que possui uma praia que atrai milhares de visitantes por ano), foi projetado o maior castelo de areia do mundo pelo artista plástico holandês Wilfred Stijger. “A estrutura mede 20,16 metros e foi construída a partir de seis mil toneladas de areia”, começa por explicar ao i Pedro Mira, acrescentando que foi convidado para fazer parte da equipa, pois já havia trabalhado com os responsáveis pelo projeto. Segundo o escultor português, não há muitos escultores de areia no mundo, “toda a gente se conhece, toda a gente conhece a especialização de cada um” e, por isso, os escultores convidados, já possuem uma “grande experiência” e “grande capacidade para trabalhar numa construção desta magnitude”.

Inspirado no momento pandémico que vivemos, o castelo, em forma de hexágono, apresenta o “vírus” na ponta da pirâmide e, debaixo, pessoas que o trepam com seringas na mão, com o intuito de lhe “meter fim”. Na sua construção está também esculpido um pouco da história da Dinamarca, com paisagens modeladas, criaturas marinhas, faróis, janelas pontiagudas e até um surfista que manobra a sua prancha nas ondas e que foi precisamente uma das “contribuições” de Pedro Mira.

PROCESSO DE CONSTRUÇÃO O primeiro passo para a construção de grandes esculturas de areia é compactar a própria areia que será utilizada. Ou seja, a areia húmida que, neste caso, “possuí uma determinada percentagem natural de barro”, foi compactada em “cofragens de madeira” com o auxílio de máquinas. Segundo o escultor, a areia foi compactada por técnicos especializados, em vários níveis, “cofragem em cima de cofragem”, até resultar dela uma grande escadaria. “Foram 30 ou 33 camadas”, esclareceu, adiantando que após esse passo, se foi abrindo as cofragens de cima para baixo. “A madeira sai toda e fica só areia e água. Neste processo os escultores ainda não estavam presentes e vão chegando à medida das necessidades”, explicou.

No princípio, como o topo da pirâmide é o local mais pequeno a ser trabalhado, só foi necessário o trabalho de dois a três escultores. À medida que se foi descendo chegando às áreas de maior tamanho, o número de escultores começou a aumentar. O que, para Pedro Mira, foi um dos maiores desafios neste projeto: “Muitas vezes trabalhamos com vários escultores diferentes ao mesmo tempo, mas neste trabalho em específico, como a escultura é só uma e de uma dimensão tão grande, a equipa teve de trabalhar muito coesa. Isso leva-nos sempre a emoções mais fortes, a termos de gerir melhor os conflitos”, revelou. Mas apesar de ser difícil “conciliar todas as cabeças e toda a criatividade individual”, o trabalho foi realizado com bastante organização e gestão. “Para isso é que lá está o líder que fez o design inicial, em caso de dúvidas é ele que decide”, elucidou. Para este, o processo, pela sua dimensão, risco e por ter sido um trabalho de grande coordenação em termos de equipa, foi “extraordinário” e o que mais o marcou foi ver o trabalho finalizado, e a celebração feita em grupo.

OS PERIGOS/DESAFIOS DA AREIA É normal que nos perguntemos como é possível esculpir assim um “grande monte de areia” que, aos nossos olhos, corre o risco de corroer a qualquer momento. Aquilo que muitos de nós não sabemos é da real segurança na qual é deixada a escultura. Durante o processo de construção, todos os colaboradores correm risco de vida, todos eles sabem o que fazer e todos os cuidados a ter, mas, para evitar qualquer tipo de tragédia “há gruas que são utilizadas”, não só para deslocarem as pessoas até ao local a esculpir, tirar fotografias e verificar se há rachas na escultura, como também para lá estarem “se alguma coisa correr mal”:“Se a pirâmide se destruir, é muito fácil ficar alguém lá em baixo. Este tipo de esculturas são perigosíssimas”, sublinhou o escultor. Felizmente, a equipa não teve qualquer tipo de contratempo, e a escultura foi realizada em harmonia e o resultado final satisfez os responsáveis.

Relativamente aos desafios constantes de trabalhar com areia, Pedro Mira explica que depende muito “tanto dos requisitos, como daquilo que é esperado, da própria escultura em si e, claro, das causas naturais”. As dificuldades mais comuns, prendem-se precisamente pela criatividade necessária para encontrar uma composição interessante. Contudo, há também aqueles casos em que, “por exemplo, se eu estiver a trabalhar num presépio em Itália, onde procuram uma imagem figurativa e clássica, o desafio é fazer um bom trabalho em termos anatómicos, de realismo expressivo”, elucida o também artesão.

No que toca aos fenómenos naturais, “se estiver a trabalhar num local onde a areia não é tão boa, obviamente que será mais difícil de modelar; se estiver mau tempo corremos o risco de encontrarmos a escultura de manhã, diferente da maneira como a tínhamos deixado na noite passada”, afirmou. Os piores casos dão-se com o “congelamento das esculturas”, ou com “o seu desabamento como consequência de grandes chuvas”.

O QUE É NECESSÁRIO PARA MANTER A ESCULTURA SEGURA? “Normalmente a areia fica muito dura e isso é o suficiente para que a escultura se mantenha”, explicou o escultor. Neste caso, ao ter sido utilizada areia argilosa, segundo o artista, o maior problema que pode ocorrer “são as chuvas”. Ao absorver demasiada água, a areia pode ficar demasiado pesada, o que acaba por resultar no seu desmoronamento. Para prevenir esta situação os especialistas utilizaram cola na sua superfície, com o objetivo de a impermeabilizar. Ao mesmo tempo, esta técnica evita que a areia seque. No que concerne à estrutura, “nas esquinas do castelo foram colocados uns contrafortes que a sustentam e entre cada um, foram também adicionados painéis que possuem, cada um deles um assunto”, elucidou. Em declarações ao jornal espanhol El País, o artista plástico holandês, Stijger, acredita que a escultura durará até, pelo menos, dezembro deste ano.

QUEM É PEDRO MIRA? “Às vezes as pessoas dizem-me que sou um artista, mas eu identifico-me mais como um artesão”, reflete o escultor de 50 anos. Para Pedro, um artista é alguém que possui uma necessidade de se expressar através da arte e, na verdade, isso não acontece consigo: “Aquilo que eu realmente gosto é fazer coisas físicas, 3D. É aí que se insere a escultura! Eu gosto de modelar, esculpir, ‘meter as mãos na massa’ e não expressar as minhas emoções através dela. Gosto de fazer carpintaria, gosto de pregar, mexer em barro, mexer na terra, dançar… Sou muito terra-a-terra”, esclareceu.

Desde pequeno que teve uma tendência para trabalhos manuais e isso acabou por se refletir na escolha do caminho académico a percorrer. “Eu estudei belas artes e fotografia. Queria muito ser um artista contemporâneo, um escultor”, contou. Mas a vida trocou-lhe as voltas por uns tempos, ou, por outro lado, deu-lhe a conhecer outras valências: “Depois de concluir os estudos, fui professor, fiz fotografia, trabalhei em joalharia, sempre com um bocado de dificuldade em arranjar uma estabilidade profissional”, continuou. Até que um dia, numa das suas (muitas) tentativas de arranjar outros trabalhos, encontrou um festival de escultura no sul do país. “Telefonei para lá a perguntar como é que as coisas funcionavam e se precisavam de um ajudante e, por acaso, eles iam começar na semana a seguir… Convidaram-me logo para ir ajudar, eu aceitei e, a partir desse dia, nunca mais parei”, relembrou.

Apesar de ter sido no seu país natal que encontrou a oportunidade de “modelar” areia, Pedro Mira teve de olhar mais além e procurar outros sítios onde o seu trabalho fosse “justamente mais valorizado”. Desde 2006, que percorre o mundo inteiro, tendo passado já por 24 países diferentes, incluindo China, Japão, Índia, Canadá, Turquia, tendo chegado até à Austrália. “Foi o trabalho de areia que me permitiu isso. Marcou-me e continua a marcar-me porque realmente é uma coisa extraordinária. Permite-te viajar pelo mundo todo! Fazer em média 10 projetos por ano, em várias partes do mundo, é maravilhoso. Ganhei uma abertura de espírito muito especial e ofereceu-me uma maneira de ver e viver as coisas completamente diferente do que se estivesse a viver sempre no meu bairro”, afirmou, acrescentando que, apesar da escultura em areia não ser um trabalho “conceituado no mundo da arte”, tal como alguns críticos, galeristas e académicos apontam, é muito interessante pois “requer uma data de técnicas de tato e permite-me modelar e fazer escultura figurativa como nunca fiz na minha vida, com uma dimensão e uma plasticidade incrível. Isso basta-me para gostar da escultura em areia”, partilhou.

AS DIFERENÇAS NOS MATERIAIS E TÉCNICAS UTILIZADAS Segundo Pedro Mira, ao falar de escultura temos de ter presente “dois conceitos base”: o de esculpir e o de modelar. O “modelar” está associado ao trabalhar com barro até se chegar a uma figura tridimensional, “vais adicionando material e depois vais trabalhando nele, até chegares à forma que queres”, esclareceu. Por outro lado, o “esculpir”, consiste em ter um bloco e retirar material até se chegar à forma desejada. “No fundo, como dizia Leonardo da Vinci, a escultura já lá está dentro e o que tu tens de fazer, é tirar o que está à volta”, exemplificou Pedro Mira. Na areia, segundo o profissional, são utilizados os dois conceitos: “Dentro de uma certa dimensão, vamos retirando, mas depois temos a permissão de modelar e acrescentar certos pormenores”, afirmou, acrescentando que a areia “é um material muito amigo de quem trabalha com ele”.

Interrogado sobre a efemeridade das suas obras, Pedro Mira, admitiu que nunca sentiu tristeza por saber que os seus trabalhos acabarão sempre por ser “destruídos”: “Na realidade ainda estive vários anos a perguntar-me o porquê de isso não me fazer impressão… Mas depois, comecei a perceber que o que me dá gozo e o que é bom é precisamente o caminho, o agora”, clarificou. Para o escultor, o mais importante é “viver o processo de uma forma interessante, estando a fazer aquilo que realmente ama” e, a oportunidade de poder fotografar os seus trabalhos, acaba por os eternizar de outra maneira”.

A VALORIZAÇÃO DO ESCULTOR NAS VÁRIAS PARTES DO MUNDO Como será trabalhar com areia nas diferentes partes do mundo? Pedro Mira admite que existem várias diferenças no tratamento dado aos profissionais em cada sítio por onde passou: “Por exemplo, na Holanda fazem-nos sentir como uma máquina de fazer dinheiro; na China ou Japão és tratado como uma pessoa importante, trabalhando com equipas enormes, com uma hierarquização, com regras, horários... És respeitado como artista. Na Itália valorizam imenso o clássico e a arte. Nos EUA um escultor de areia é visto como um desportista, onde a competição é o centro de tudo e, Portugal, aproxima-se um bocadinho dessa visão”, alertou o escultor que, por mais “grato” que se sinta pelos trabalhos que realizou no seu país, afirma existir um certo estigma de que “os escultores de areia são tipos que vão brincar para a praia”. “Nos eventos existentes em Portugal, valoriza-se principalmente a dimensão das obras e isso acaba por afetar a qualidade dos trabalhos. Gostava que as pessoas compreendessem a beleza deste tipo de escultura e a valorizassem mais”, terminou.

 

 

 
 

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